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Feminicídio: em menos de 72 horas, duas mulheres são assassinadas no DF

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Assassinada com três facadas desferidas pelo marido, a dona de casa Maria José Ferreira dos Santos, 31 anos, foi a sexta vítima de feminicídio do ano de 2025 no Distrito Federal, e o segundo crime em menos de 72 horas. O crime ocorreu na madrugada desta segunda-feira (31/3) na residência do casal, no Recanto das Emas. A filha mais velha dos dois, uma menina de apenas 11 anos, presenciou o crime. Além dela, ela deixa mais dois filhos, um menino de 8 e uma menina de 4. Após matar a mulher, o ajudante de pedreiro Neilton Pereira Soares, 42, chegou a fugir para uma área de mata próxima à casa, mas foi convencido por familiares a se entregar para a polícia. O casal estava junto há 13 anos.

O autor foi preso em flagrante e a audiência de custódia deve acontecer nesta terça-feira (1º/4). O velório e sepultamento de Maria José vai acontecer no município de Buritirama, na Bahia, cidade natal dela e também de Neilton.  Segundo relatos de familiares e vizinhos, Neilton vinha ameaçando Maria José há um tempo. “Ele a acusava de traição e dizia coisas como ‘você me paga’. Ele dizia também que se ela não fosse dele, não seria de mais ninguém. Além disso, ele também avisava que se mataria se ela o deixasse”, relatou uma familiar da vítima ao Correio. Apesar das ameaças, Maria José nunca prestou queixa à polícia.

Dinâmica

Na noite do último domingo, o casal saiu para um bar com amigos e deixou os três filhos em casa. Ao retornar, eles iniciaram uma discussão motivada pela desconfiança de Neilton de que Maria José o estaria traindo. De acordo com familiares ouvidos pelo Correio, a mulher estava decidida a deixá-lo e tinha tentado sair de casa algumas vezes, mas desistia quando o marido ameaçava se matar se isso acontecesse.

Os filhos mais novos dormiam quando os pais chegaram, porém a mais velha estava acordada. A briga evoluiu para agressões, quando Neilton desferiu três golpes no peito da mulher, que morreu na hora. A filha mais velha presenciou tudo e chegou a tentar impedir o crime. “Pai, não faz isso”, gritou a menina. A menor chegou a se ferir no dedo com a faca.

Após o crime, a filha correu para tentar sair da casa e avisar a tia, irmã de Maria, que mora na casa ao lado. No entanto, o pai tinha trancado o portão e escondido a chave. Logo depois, o homem resolveu fugir. Foi quando a filha conseguiu sair e pedir socorro na casa da tia. O homem fugiu para uma área de mata próxima à casa onde morava, mas acabou se entregando à polícia, após vizinhos e parentes do casal o convencerem pelo telefone. As crianças estão na casa da tia, mas serão enviadas à Bahia para ficarem aos cuidados da mãe de Maria José, que mora na cidade de Buritirama.

“Segundo relatos do autor do crime na delegacia, a vítima teria pego a faca primeiro e ido para cima dele. Foi então que ele teria tomado a faca da mão dela e desferido os três golpes no peito da mulher”, contou o delegado Fernando Fernandes, da 27ª Delegacia de Polícia, no Recanto da Emas. “O autor confessou ainda que estava pensando em tirar a própria vida após matar a mulher, mas mudou de ideia ao falar por telefone com alguns familiares, que o convenceram a se entregar”, acrescentou.

Feminicídios em 2025

» 5 de janeiro: Ana Moura Virtuoso, Estrutural;

» 15 de fevereiro: vítima não identificada, Taguatinga;

» 24 de fevereiro: Géssica Moreira de Sousa, Planaltina;

» 26 de fevereiro: Ana Rosa Brandão, Cruzeiro;

» 29 de março: Dayane Barbosa, Fercal;

» 31 de março: Maria José Ferreira, Recanto das Emas.

Por mais proteção

A Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF) divulgou o número atualizado de mulheres monitoradas por meio do programa Viva Flor, que oferece um sistema de proteção policial a mulheres com medidas protetivas de urgência concedidas pela Justiça. Hoje, o programa monitora 941 mulheres no Distrito Federal.

Cinco regiões administrativas concentram mais da metade dos casos: Santa Maria, Ceilândia, Gama, Planaltina e Taguatinga. A faixa etária predominante das mulheres que integram o programa é entre 30 e 59 anos.

“Desde a criação do Viva Flor, nenhuma mulher assistida pelo programa foi vítima de feminicídio, o que mostra a efetividade da ferramenta. Essa é, sem dúvida, uma tecnologia de proteção que se consolida como referência em segurança preventiva para mulheres no DF”, ressalta o secretário de Segurança Pública, Sandro Avelar. 

O triste adeus a Dayane

O corpo da quinta vítima de feminicídio do DF, Dayane Barbosa Carvalho, 34 anos, foi sepultado nesta segunda-feira (31/3). A dona de casa foi assassinada a facadas pelo companheiro, Jovercino Antônio de Oliveira, 39, que tirou a própria vida logo após cometer o crime. Jovercino foi velado no mesmo horário e no mesmo cemitério que a mulher, em Sobradinho.

Ao Correio, Mazinho Barbosa, 39, um dos irmãos de Dayane, lamentou a perda da irmã. “Para as duas famílias é um momento de tristeza. Eles tinham 13 anos de casados e em boa parte do tempo mantiveram uma boa relação. De uns três anos para cá, começaram as desavenças e brigas mais acaloradas”, afirmou. Mazinho chegou a aconselhar e a conversar com o casal. “Falamos com ele e Jovercino nos disse que iria mudar. Mas, infelizmente, terminou nessa tragédia.”

Dayane foi velada das 13h30 até as 15h30 na Capela 2 do Cemitério de Sobradinho, enquanto a cerimônia de Jovercino ocorreu na Capela 4, até as 15h20. O irmão da vítima diz que, apesar de tamanha tragédia, as duas famílias são amigas. “O que aconteceu foi uma fatalidade para ambos os parentes. As duas partes estão sofrendo.”

Dayane foi morta na madrugada de sábado na Fercal, após discutir com Jovercino. O casal tinha dois filhos, de 8 e 12 anos. O motivo da tragédia ainda não foi elucidado pela Polícia Civil. Segundo o delegado-chefe da 35ª Delegacia de Polícia (Sobradinho 2), Ricardo Viana, que investiga o caso, Dayane nunca registrou boletim de ocorrência contra o companheiro.

Artigo — A violência só aumenta

Por Cristina Tubino, especialista em direito da mulher e gênero

É importante denunciar qualquer tipo de violência sofrida pelas mulheres, porque a violência tem sempre a tendência de aumentar. É muito raro que o primeiro ato de violência seja o feminicídio. É comum que as agressões se iniciem com atos considerados mais brandos, como violência psicológica, afastar a mulher do seu núcleo de apoio, fazer críticas aos amigos, estabelecer normas de vestimenta. Isso pode escalar para uma violência moral, chegando à física, que pode chegar a um ato extremo como o feminicídio. É importante que as mulheres tenham conhecimento do que é violência, pois assim elas podem buscar ajuda com amigos, familiares ou até mesmo com autoridades policiais para que possa evitar um fim trágico.

O fenômeno da violência contra a mulher é complexo. Aumentar a pena ou fazer com que o crime seja mais severamente punido ou que o agressor tenha menos benesses na hora de receber a pena é tratar do crime depois que ele já foi cometido. Acho que a sociedade erra ao não perceber que o combate à violência contra a mulher deve acontecer antes que seja tarde demais. Os esforços precisam se focar em uma mudança de como a mulher é enxergada pela sociedade, não apenas no caso dos adultos, mas também das crianças e adolescentes.

A mulher precisa parar de ser vista como um objeto que pertence a alguém. Investimentos em políticas públicas de igualdade de gênero são urgentes. Mas, o resultado não será rápido. Para proteger as mulheres, é preciso dar conhecimento a elas. Conhecimento é poder. As mulheres precisam entender o que é a violência doméstica e que meios elas podem utilizar para se defender. As forças de segurança pública precisam estar capacitadas para acolher essas mulheres. A mulher não pode ser questionada ou desestimulada a registrar uma ocorrência policial quando sofrer algum tipo de violência.

O Judiciário também precisa atuar de forma firme. Nós precisamos de medidas mais eficazes e uma atuação mais rígida com os agressores de mulheres. A prisão cautelar que acontece durante o andamento do processo tem algumas finalidades, entre elas, o desestímulo para que outras pessoas cometam esses mesmos atos. As mulheres precisam conhecer os seus direitos e os homens precisam ser orientados sobre as medidas sofridas casos cometam atos de violência.

Com informações do Correio Braziliense

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