Quem mora nas cidades vizinhas do Distrito Federal vive o dilema de “pagar para trabalhar”. Em Águas Lindas, Valparaíso, Planaltina de Goiás, Cidade Ocidental e Luziânia, milhares de pessoas gastam quase 40% do salário com transporte público. São cerca de R$ 400 por mês para quem recebe um salário mínimo. E ainda enfrentam quatro horas diárias de trajeto em ônibus lotados e precários. Uma rotina cansativa, injusta e que mantém trabalhadores no limite da sobrevivência.
Com o reajuste de 2,9% nas tarifas, a situação fica ainda mais pesada. A decisão da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) atinge diretamente 380 mil trabalhadores que cruzam todos os dias a divisa entre Goiás e o Distrito Federal.
O que parece pouco no papel é, na prática, um ataque ao orçamento familiar e à qualidade de vida.
Esse aumento não para por aí. Ele repercute também no DF, onde milhares de pessoas do comércio, dos serviços e da construção civil dependem desse deslocamento. Quando o custo de vida sobe e a renda não acompanha, não é só o trabalhador que perde, toda a economia sente. O reajuste escancara desigualdades antigas, que se arrastam há décadas.
E é bom lembrar o que sempre digo: se tem pão na padaria, ônibus circulando e café na mesa, é porque a periferia acordou primeiro. É essa força de trabalho que sustenta a cidade. Mesmo assim, segue sendo tratada como descartável, obrigada a pagar caro por um serviço precário. É justo perder emprego ou estudo porque o transporte ficou inviável?
Na Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana (CTMU) da CLDF temos cobrado soluções. Sabemos que a ANTT é quem decide os reajustes, mas não ficamos de braços cruzados. Defendemos a criação urgente de um consórcio entre DF e Goiás, já com proposta enviada, para organizar o sistema, rever contratos e aliviar o bolso do trabalhador. Também pressionamos para entrar no grupo que discute o fundo de R$ 100 milhões, que pode ajudar a custear o transporte e dividir melhor os recursos.
Além dessas medidas, a CTMU está acompanhando de perto a tramitação da PEC 25/2023, de autoria da deputada federal Luiza Erundina (Psol-SP) e outros parlamentares, que propõe a criação do Sistema Único de Mobilidade. A proposta garante o transporte como direito social e prevê que União, estados, Distrito Federal e municípios compartilhem o financiamento do serviço, inclusive com a possibilidade de utilizar recursos do vale-transporte e da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre combustíveis. Essa iniciativa pode abrir caminho para um modelo mais justo de custeio, no qual o peso da tarifa não recaia apenas sobre os trabalhadores.
Mas precisamos ir além da resistência imediata. O Entorno tem que ser reconhecido como parte da região metropolitana do DF, com políticas públicas integradas de verdade. Não dá para pensar o desenvolvimento de Brasília ignorando as cidades vizinhas. Isso inclui serviços de saúde, educação e empregos.
O Entorno não é peso, é força. Não é problema, é solução. Mas para isso precisamos inverter a lógica que sufoca e invisibiliza. É urgente e necessário que se fale em tarifa justa, integração real e mobilidade eficiente.
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*Max Maciel é deputado distrital pelo Psol-DF e presidente da Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana
*Com informações do Brasil de Fato
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