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As ameaças ao posto do Brasil como líder no mercado de soja

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Produtividade questionável, baixo uso de bioinsumos e crédito escasso são alguns pontos vulneráveis na indústria da soja, carro-chefe nas exportações

A liderança mundial na produção de soja tem um preço. E ele está ficando cada vez mais alto para o Brasil. Dados apresentados pelo Instituto Escolhas no painel “Por que a transição do modelo de produção da soja é crucial para o Brasil?” serviram de ponto de partida para um debate sobre o atual momento do principal item de exportação do agronegócio.

Diretora de Pesquisa do Instituto Escolhas, Jaqueline Ferreira mostrou que os produtores utilizam, atualmente, três vezes mais agrotóxicos e duas vezes mais fertilizantes para produzir proporcionalmente a mesma quantidade de soja de 30 anos atrás.

Segundo o estudo produzido pelo Escolhas, a produção do grão saltou de 23 milhões para 152 milhões de toneladas em três décadas — um aumento de aproxidamente 560%. O consumo de agrotóxicos, entretanto, explodiu 2.019% no mesmo período. O emprego de fertilizantes, por sua vez, cresceu 734%. Já a produtividade por hectare subiu apenas 61%, de acordo com o levantamento do Instituto Escolhas.

Jaqueline Ferreira afirmou que, além de provocar a degradação ambiental, o atual modelo mostra-se ineficiente do ponto de vista econômico. Segundo ela, o produtor está “sentindo no bolso” as dificuldades de um sistema que está ultrapassado. “Em 1993, com um quilograma de agrotóxico, era possível produzir 23 sacas de soja. Em 2023, a mesma quantidade de agrotóxico produzia apenas sete sacas, o que claramente custa mais para o produtor”, disse.

Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) informam que os gastos com sementes, agrotóxicos e fertilizantes consumiram 30% do valor bruto da produção em 2013 e que, em 2023, esse percentual subiu para 44%.

Há ainda o problema da dependência na importação de insumos. Mais de 80% dos fertilizantes são importados, assim como 60% dos agrotóxicos. Oscilações cambiais e geopolíticas impactam diretamente os custos de produção.

“O produtor não usa mais agrotóxico porque quer. É caro. Ele usa porque precisa”, explicou a pesquisadora do Instituto Escolhas. “Estamos falando de um modelo monocultor que diminui a biodiversidade local, degrada o solo e exige cada vez mais insumos para lidar com pragas, plantas daninhas e doenças”, alertou.

Diretor do Instituto Folio, Luis Barbieri apontou a agricultura regenerativa como caminho para manter a produtividade de forma sustentável. “Hoje temos produtores que conseguiram tirar 100% do fungicida químico na soja mantendo alta produtividade e escala”, relatou.

“O produtor rural que não começar agora esse processo (mudança para agricultura regenerativa) terá problemas de solvência na próxima década, pois trata-se de uma mudança de paradigma tecnológico”, alertou Barbieri.

A agricultura regenerativa, baseada em bioinsumos e na recuperação do solo, emerge como alternativa a problemas de produtividade apontados pelo estudo do Escolhas. A transição, no entanto, é lenta. Apenas 13% dos produtos registrados no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) são bioinsumos, contra 87% de alta toxicidade. “Tem uma mudança acontecendo, mas ela precisa acelerar, senão perdemos o bonde”, assinalou o diretor do Instituto Folio.

Marco legal

A ampliação de bioinsumos na indústria da soja depende de avanços regulatórios. A regulamentação dos bioinsumos foi aprovada em 2024, após anos de indefinição legal. “Produtores que usavam bioinsumos ficavam na ilegalidade, sujeitos até a prisão”, criticou Maurício Buffon, presidente da Aprosoja Brasil. Mesmo com a nova lei, 80% das propriedades já experimentaram algum bioinsumo, segundo Buffon. Para o representante da Aprosoja, o interesse existe, mas falta apoio estrutural.

Jaqueline Ferreira também ressaltou problemas. Lembrou que o Plano Nacional de Fertilizantes destina menos de 1% dos recursos para biofertilizantes, investindo principalmente na indústria química tradicional. “Precisamos mudar a lógica de investimento público para essa agricultura regenerativa tropical”, defendeu.

“Essa cultura diminui a biodiversidade local, impacta na qualidade do solo, exige mais fertilizante e mais agrotóxico. E toda vez que a gente usa agrotóxico, essas plantas também se tornam mais resistentes e precisam usar mais ainda. Ou seja, a gente está falando de um ciclo vicioso”, descreveu.

A especialista propôs uma revisão de conceitos. “Um primeiro passo para sair do ciclo vicioso é admitir que esse modelo produtivo que foi tão importante, com toda a tecnologia que a gente gerou internamente, brasileira, tropical, foi importante. Mas precisa ser repensado”, concluiu.

Indústria

O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), André Nassar, vê a indústria como parceira natural dos produtores na transformação do plantio de soja. Ele propôs a criação de uma mesa de negociação tripartite para definir um modelo de agricultura regenerativa viável para o plantio de soja em larga escala.

Segundo Nassar, a iniciativa deve reunir produtores, indústria e consumidores que discutirão qual a melhor transição sustentável. “A indústria tem capacidade de fomentar a produção. Temos interesse em fomentar — a indústria é parceira comercial do produtor”, disse.

“Tenho certeza de que a Embrapa tem várias tecnologias. Tenho certeza de que a indústria de agroquímicos e sementes também tem. Temos que colocar essas tecnologias na mesa e pensar como financiar a escalabilidade, a adoção delas”, opinou o representante da indústria.

Nassar fez algumas observações sobre produtividade, um dos pontos frágeis destacados pelo Instituto Escolhas. Disse que a queda de produtividade é comum no agronegócio e chegou à soja. “A curva de produtividade vai subindo, mas cai com o tempo”, explicou. Por essa razão, segundo Nassar, seria preciso aumentar progressivamente o uso de insumos externos, principalmente fertilizantes, com o intuito de “gerar o mesmo ganho de produtividade”. “Isso vai acontecer em todas as lavouras, estamos chegando na soja”, disse.

Nassar defendeu que, ao se analisar a produtividade na produção da soja, deve-se levar em conta a safra do milho, em sistema de rotação.

“Essa é a grande tese da agricultura tropical brasileira. A grande tese são as duas safras ou mais de uma safra”, explicou. O sistema de rotação de culturas, citado por Nassar, considera o plantio de soja como safra principal e o de milho como segunda safra, a “safrinha”.

Com informações do Correio Braziliense  

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