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Quaest: Avaliação de que Bolsonaro influenciou o 8/1 cresce entre bolsonaristas e cai entre lulistas

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A percepção de que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) teve influência nos atos golpistas de 8 de janeiro registrou um salto ao longo do último ano entre os eleitores do próprio capitão reformado do Exército, que foi indiciado pela Polícia Federal junto com outros 39 aliados por golpe de Estado, organização criminosa e tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito. Por outro lado, essa mesma percepção diminuiu entre eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de acordo com a mais recente pesquisa feita pela Quaest sobre os atos que completam dois anos nesta semana.

“Ao longo do tempo, os eleitores moderados de Lula, que enxergam algum exagero nas acusações que Bolsonaro vem sofrendo, tendem a relativizar suas posições. Ao mesmo tempo, os eleitores moderados de Bolsonaro, que enxergaram como graves as acusações contra o ex-presidente, tendem a ficar mais severos na avaliação sobre seus atos, para não se sentirem cúmplices de algo que acreditam ser errado”, explica o cientista político e diretor da Quaest, Felipe Nunes, em entrevista ao Estadão.

A pesquisa foi realizada entre os dias 4 e 9 de dezembro, com 2.012 entrevistas presenciais com brasileiros de 16 anos ou mais em todos os Estados do País. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais.

De acordo com o levantamento, 37% dos apoiadores de Bolsonaro reconhecem, atualmente, que o ex-presidente influenciou os atos golpistas. Há um ano, em sondagem semelhante conduzida pela Quaest, apenas 13% dos eleitores do capitão reformado reconheciam algum tipo de influência dele na tentativa de golpe. A maioria dos eleitores de Bolsonaro segue afirmando que ele não tem nenhuma relação com o que se viu em Brasília dois anos atrás, mas esse número, que chegou a ser de 81% em dezembro de 2023, caiu ao longo de 2024 e hoje é de 55%.

Ao mesmo tempo em que houve esse movimento entre bolsonaristas, a Quaest identificou um deslocamento contrário entre lulistas. Na pesquisa feita em dezembro passado, 29% dos entrevistados que votaram no petista no segundo turno de 2022 responderam que não associam Bolsonaro ao ocorrido em Brasília dois anos atrás. No levantamento de 2023, somente 16% dos eleitores de Lula não acreditavam na influência do antecessor na invasão aos prédios públicos na capital federal.

Ao somar a percepção de todos os grupos demográficos entrevistados pela Quaest em dezembro do ano passado, chega-se ao percentual de 39% dos brasileiros que avaliam não haver influência de Bolsonaro nos episódios de depredação, ódio e clamor por intervenção militar no dia 8 de janeiro de 2023. Já os entrevistados que responderam que o ex-presidente contribuiu de alguma forma para o ocorrido são 50%. Os outros 11% fazem parte do grupo que não soube responder ou preferiu não se manifestar sobre essa questão.

O aniversário de dois anos da tentativa de golpe no Brasil acontecerá dois dias após o marco de quatro anos da invasão ao Capitólio, sede do Congresso dos Estados Unidos, no dia 6 de janeiro de 2021. A invasão das sedes da Câmara dos Representantes e do Senado por apoiadores do então presidente Donald Trump — que voltará à Casa Branca no dia 20 de janeiro — deixou cinco mortos, incluindo um policial. Ainda assim, o apoio ao atentado golpista nos EUA vem crescendo consistentemente na população norte-americana.

Um mês após o 6 de janeiro de 2021, 9% dos norte-americanos demonstravam apoio ao ocorrido, de acordo com pesquisa realizada pela Instituição YouGov. Comparativamente, apenas 4% dos brasileiros apoiavam o ataque aos Três Poderes no mês seguinte ao 8 de janeiro, segundo levantamento da Quaest.

Um ano após cada um dos incidentes, eram 6% os brasileiros favoráveis aos atos golpistas, ante 14% dos americanos. Dois anos depois, 20% da população dos EUA defendia a depredação do Capitólio incitada por Trump. No Brasil, em contrapartida, após período idêntico, somente 7% das pessoas aprovam a investida violenta contra as instituições democráticas.

Para Felipe Nunes, o comportamento dos cidadãos nos dois países em relação aos ataques que ameaçaram as instituições democráticas está relacionado à maneira como os governantes de turno, Joe Biden e Lula, lidaram com a questão.

“Enquanto Joe Biden politizou o debate sobre o 6/1, fazendo com que republicanos e democratas se comportem como torcedores diante de um jogo, o governo Lula, a meu ver, tem tratado o assunto, na maior parte das vezes, como um problema de Estado, com cautela, permitindo que as investigações sejam conduzidas no tempo apropriado do estado democrático de direito”, avaliou.

Desaprovação ao 8 de Janeiro registra queda, mas segue em patamar elevado
Apesar de um leve recuo, a grande maioria da população brasileira ainda desaprova os atos golpistas. O levantamento da Quaest identificou que 86% dos entrevistados se dizem contrários ao ocorrido na capital federal. No ano retrasado, essa parcela era de 89%. Entre os que apoiam as depredações, houve apenas oscilação dentro da margem de erro. Em dezembro de 2023 eram 6%, taxa que passou para 7% na sondagem feita no mês passado.

Os índices se mantiveram estáveis em praticamente todos os grupos demográficos analisados, que incluem segmentação por religião, gênero, raça, escolaridade e renda.

O sentimento de desaprovação é compartilhado até mesmo entre aqueles que têm avaliações diferentes sobre o governo do presidente Lula. No grupo que considera a gestão petista positiva, a desaprovação é de 88%, o que pouco difere da opinião expressa pelos entrevistados que consideram o atual governo regular (86% de desaprovação do 8 de Janeiro) ou negativo (84% desaprovação).

“A rejeição aos atos do 8/1 mostra a força da democracia brasileira e a responsabilidade da elite política até aqui. Diante de tanta polarização, é de se celebrar que o País não tenha caído na armadilha da politização da violência institucional”, avaliou o CEO da Quaest.

Leia a entrevista completa com Felipe Nunes:

O que os altos índices de desaprovação do 8/1 dizem sobre a maneira como o governo Lula lidou com o pós-crise? É possível concluir, dois anos depois, que a resposta institucional dos Três Poderes foi bem-sucedida?

A rejeição aos atos do 8/1 mostra a força da democracia brasileira e a responsabilidade da elite política até aqui. Diante de tanta polarização, é de se celebrar que o País não tenha caído na armadilha da politização da violência institucional. Enquanto Joe Biden politizou o debate sobre o 6/1, fazendo com que republicanos e democratas se comportem como torcedores diante de um jogo, o governo Lula, a meu ver, tem tratado o assunto, na maior parte das vezes, como um problema de Estado, com cautela, permitindo que as investigações sejam conduzidas no tempo apropriado do estado democrático de direito. Sem a politização das elites, os brasileiros compreenderam a gravidade do que aconteceu em Brasília. Essa é a grande notícia para o futuro político do País. É imperativo que esse debate sobre o 8/1 não seja contaminado por cores partidárias, já que se trata de um problema político nacional. É a defesa das regras, da Constituição e da própria democracia que estão em jogo neste caso.

Quais foram os eventos que fizeram aumentar de 47% para 50% o número de pessoas que avalia que Bolsonaro teve alguma influência no 8/1? É possível atribuir essa mudança ao inquérito do golpe?

Eu acredito que esta é a hipótese mais plausível diante das evidências que temos aqui na Quaest. Primeiro, vale lembrar que os percentuais de hoje são muito parecidos com os de fevereiro de 2023, quando a primeira pesquisa sobre o assunto foi feita. Naquela época, a maioria (51%) acreditava que Bolsonaro tinha tido influência, hoje são 50%; enquanto 38% achavam que não, hoje são 37%. Mas o que mais chamou minha atenção foi a mudança na tendência do ano passado pra esse. Entre 2023 e 2024, parecia haver uma relativização da participação do ex-presidente na organização dos atos. Mas essa tendência não se confirmou nesta pesquisa, o que sugere que alguma mudança significativa de percepção aconteceu nesse período. O fato mais contundente capaz de provocar essa mudança de tendência foi a deflagração dos documentos e evidências em torno da tentativa de golpe de estado. Vale lembrar que a pesquisa Genial/Quaest publicada em dezembro mostrou que 48% dos brasileiros acreditam que Bolsonaro participou do plano de tentativa de golpe, enquanto 34% defendem que não.

A diferença no modo como o 8/1 e a invasão ao Capitólio foram percebidos pelas sociedades brasileira e americana (leia-se o aumento da aprovação à invasão nos EUA e a manutenção de níveis baixos de aprovação no Brasil) pode indicar caminhos diferentes para Bolsonaro e Trump? Tanto do ponto de vista eleitoral quanto como lideranças de extrema direita/direita?

É prematuro determinar o futuro eleitoral de Bolsonaro. Acabamos de sair de eleições municipais em que seus candidatos chegaram competitivos ao 2º turno em várias capitais, deixando alternativas de centro e de esquerda para trás. Ele continua sendo a liderança mais votada e mais importante para a direita radical brasileira. Mas, de fato, fica cada vez menos provável que ele retorne à presidência em 2026 e trilhe o mesmo caminho que Trump. Primeiro, porque está inelegível. Segundo, porque perdeu influência entre eleitores moderados de direita. Eleitores que, aliás, não aprovam os atos de 8/1 e enxergam nele um dos responsáveis pela sua mobilização.

Em relação à influência do Bolsonaro no 8/1, quais são os fatores que explicam essa percepção ter caído entre os eleitores de Lula e aumentado entre os bolsonaristas, entre o final de 2023 e dezembro de 2024?

É o que eu chamo de efeito centrípeto de moderação diante dos excessos e exageros. Ao longo do tempo, os eleitores moderados de Lula, que enxergam algum exagero nas acusações que Bolsonaro vem sofrendo, tendem a relativizar suas posições. Ao mesmo tempo, os eleitores moderados de Bolsonaro, que enxergaram como graves as acusações contra o ex-presidente, tendem a ficar mais severos na avaliação sobre seus atos, para não se sentirem cúmplices de algo que acreditam ser errado. Esse efeito aparece em situações polarizantes quando há nos dois lados evidências de excessos. O curioso é que ele acaba anulando qualquer mudança de opinião geral, já que um lado encapsula o outro.

Com informações do Jornal de Brasília

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