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Lula e Trump: presidente reforça discurso da soberania, mas quer manter ponte de diálogo

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Ao barrar a entrada de assessor americano, governo reage a sinais de ingerência externa sem fechar canais com os Estados Unidos

247 – O presidente Lula reforçou o discurso de soberania nacional ao barrar a entrada no Brasil de Darren Beattie, assessor do governo dos Estados Unidos que pretendia visitar Jair Bolsonaro na prisão. A decisão, executada pelo Itamaraty, foi interpretada pelo Palácio do Planalto como uma reação a movimentos considerados indevidos na política interna brasileira, ao mesmo tempo em que o governo busca preservar um canal de interlocução com Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos.

Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo, o gesto também foi entendido no governo como resposta ao cancelamento do visto do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ocorrido no fim do ano passado. Em evento público realizado na sexta-feira (13), Lula afirmou que a revogação do direito de entrada do assessor americano representa uma reação brasileira à medida adotada anteriormente pelos Estados Unidos.

O episódio ocorre num momento de sensibilidade política em Brasília. Integrantes do entorno presidencial manifestam preocupação com a possibilidade de o governo Trump — visto por aliados do presidente como um polo de articulação global da direita — tentar exercer influência na política brasileira em favor do bolsonarismo durante a eleição deste ano.

Nesse contexto, a tentativa de Beattie de se reunir com Jair Bolsonaro e com o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República e apontado como provável adversário de Lula na disputa de outubro, foi considerada por integrantes do governo um movimento politicamente delicado. Ainda assim, auxiliares do presidente ponderam que a iniciativa do assessor americano pode não ter contado com aval direto de Trump.

Mesmo com o atrito provocado pelo episódio, o governo brasileiro busca evitar que a crise diplomática escale. Interlocutores do Planalto avaliam que as negociações para viabilizar uma visita de Lula aos Estados Unidos não devem ser interrompidas, embora reconheçam que o tom adotado pelo presidente brasileiro possa elevar a tensão entre os dois países.

A viagem de Lula aos Estados Unidos era esperada para o início de março, mas vem sendo adiada. Ainda assim, o governo brasileiro mantém interesse em avançar em entendimentos com Washington, principalmente em temas ligados ao combate ao crime organizado. Dentro do Planalto, há a avaliação de que esse tipo de cooperação pode funcionar como um mecanismo de estabilização da relação bilateral.

Esse cálculo ganhou importância após o momento de maior desgaste nas relações entre os dois países, ocorrido em 2025, quando Trump impôs sanções econômicas ao Brasil e associou a medida às investigações contra Jair Bolsonaro. Na ocasião, o governo brasileiro abriu negociações e conseguiu reverter parte das punições.

Apesar das tensões, Lula e Trump passaram a manter interlocução direta após um encontro ocorrido durante uma reunião da ONU. Desde então, a relação bilateral tem alternado momentos de atrito e de tentativa de aproximação.

No plano político interno, o discurso de soberania nacional também ganha relevância diante do cenário eleitoral. Pesquisas recentes apontam crescimento do senador Flávio Bolsonaro nas intenções de voto e maior competitividade na disputa presidencial.

Levantamento Genial/Quaest realizado entre os dias 6 e 9 de março mostrou que 48% dos brasileiros têm opinião desfavorável aos Estados Unidos, enquanto 38% manifestam visão favorável. O dado representa uma mudança significativa em relação a outubro de 2023, quando 56% tinham imagem positiva do país e 25% negativa.

Dentro do governo, há a percepção de que uma postura mais firme diante de Washington pode gerar efeitos políticos internos favoráveis. Um dos momentos de maior popularidade de Lula em 2025, segundo aliados, ocorreu quando o governo combinou o discurso de soberania nacional com propostas de taxação dos mais ricos, redução de impostos para os mais pobres e oposição a projetos considerados como tentativa de blindagem de congressistas contra investigações.

Nesse ambiente, dirigentes do PT também passaram a enfatizar o tema. O presidente nacional do partido, Edinho Silva, afirmou que o debate sobre soberania voltou ao centro da política internacional. “A questão da soberania dos países infelizmente hoje está sendo debatida internacionalmente, por conta muito dessa postura agressiva do governo Trump”, declarou, acrescentando que há “lideranças políticas” alinhadas ao presidente dos Estados Unidos — em referência aos bolsonaristas.

O endurecimento do discurso ocorre em meio ao avanço eleitoral do campo oposicionista. Segundo a última pesquisa Datafolha citada pela reportagem, Flávio Bolsonaro dobrou suas intenções de voto no primeiro turno e aparece empatado com Lula em um dos cenários testados. Ao mesmo tempo, a avaliação negativa do governo oscilou de 37% para 40%.

A decisão de revogar o visto de Darren Beattie também foi defendida por integrantes do governo. A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, afirmou que a tentativa do assessor norte-americano de visitar Bolsonaro justificava a medida adotada pelo governo brasileiro. “A tentativa de Darren Beattie, assessor de Donald Trump, de visitar o condenado Jair Bolsonaro, não deu certo. E agora ficará sem visto de entrada no Brasil, por decisão do presidente Lula. O que é correto, porque tem várias autoridades brasileiras que tiveram seus vistos cancelados para os EUA”, declarou.

Beattie tentou agendar o encontro com Bolsonaro após a defesa do ex-presidente solicitar autorização ao Supremo Tribunal Federal. No entanto, o assessor americano não procurou previamente o Itamaraty nem o Palácio do Planalto para tratar da agenda, procedimento considerado habitual em visitas diplomáticas desse tipo.

Atualmente, Bolsonaro cumpre pena em Brasília por tentativa de golpe de Estado. Inicialmente, o ministro Alexandre de Moraes havia autorizado a visita do assessor americano, mas o pedido acabou sendo reavaliado após novos desdobramentos do caso.

Depois que a defesa de Bolsonaro solicitou alteração da data do encontro, Moraes pediu informações ao Itamaraty sobre a agenda de Beattie no Brasil. A resposta do chanceler Mauro Vieira indicou que a visita poderia configurar “indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro”, o que levou o ministro a recuar da autorização.

Outro fator que chamou atenção das autoridades brasileiras foi o conteúdo do pedido oficial apresentado pelo assessor americano. No documento, Beattie alegava que viria ao Brasil para participar de um fórum de minerais críticos organizado pela Amcham (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), em São Paulo, sem mencionar encontros com Jair Bolsonaro ou membros de sua família.

Com informações do Brasil 247

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