Grandes corporações e agronegócio lideram o movimento, que deve continuar nos próximos meses, segundo analistas, impulsionado por juros altos, endividamento e fragilidades estruturais
O Brasil encerrou 2025 registrando um marco histórico nos pedidos de recuperação judicial e extrajudicial, com mais de cinco mil empresas buscando reorganizar suas finanças. O agronegócio, tradicional motor da economia, liderou o movimento, com 1.990 solicitações, um crescimento de 56,4% em relação ao ano anterior e seis vezes acima da média nacional
Indústrias e o comércio também figuram entre os setores mais impactados, refletindo um cenário marcado por custos crescentes, juros elevados e restrições de crédito que pressionam empresas de todos os portes.
No início de 2026, o cenário ganhou contornos ainda mais visíveis com movimentos de grandes corporações. Na última terça-feira, o Grupo Pão de Açúcar protocolou um plano de recuperação extrajudicial buscando reorganizar cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas. A decisão da Justiça abriu espaço para que a companhia negociasse prazos e condições com seus credores, oferecendo um fôlego estratégico em meio a um mercado desafiador.
No dia seguinte, a Raízen, uma das maiores empresas brasileiras de energia, também recorreu à recuperação extrajudicial, com a suspensão dos pagamentos por 90 dias. O acordo abrange dívidas de R$ 65,1 bilhões. Controlada pela Cosan e pela Shell, a companhia atua na produção e distribuição de combustíveis e simboliza a pressão que setores estratégicos enfrentam diante de desafios financeiros complexos.
Os episódios mostram que, mais do que números isolados, há uma tendência estrutural. Empresas consolidadas, mesmo em setores essenciais, estão diante de uma necessidade crescente de reestruturação, seja por endividamento acumulado, seja por margens comprimidas ou fatores macroeconômicos que ampliam o risco financeiro.
Ambiente desafiador
O ambiente de negócios no Brasil continua desafiador, e os efeitos se refletem no aumento expressivo de pedidos de recuperação judicial e extrajudicial. Uma das preocupações é com o patamar da Taxa Selic, que se mantém em 15% ao ano. Temores com os efeitos da guerra no Irã indicam que a redução será lenta. Além disso, especialistas apontam que a elevação das taxas de juros é apenas parte do problema.
Para o CEO da Pulse Capital, Marcos Camilo, também executivo de finanças e advogado empresarial, o mercado brasileiro historicamente é hostil ao empreendedorismo. “Juros e inflação altos, sistema tributário ineficiente, políticas públicas inconsistentes e legislação trabalhista extremamente rígida tornam o cenário complicado. O mercado de consumo evolui, mas a estrutura jurídica ainda precisa se modernizar”, afirma.
Segundo Camilo, os juros altos impactam diretamente tanto no consumo das famílias quanto na capacidade das empresas de angariar capital para investimentos. “Quando uma empresa assume dívida e os juros sobem, permanecendo elevados por longo período, surge dificuldade para pagar fornecedores, funcionários e despesas financeiras. O sistema acaba colapsando”, explica.
Setores sob pressão
O setor agrícola chega a 2026 sob forte estresse financeiro. Crédito caro, margens reduzidas e modelos de expansão baseados em arrendamentos expõem as empresas a compromissos fixos altos, especialmente em momentos de crise. Casos recentes, como os de Amiu e Terra Santa, mostram como ciclos adversos prolongados afetam a capacidade de pagamento, atrapalham cadeias de fornecimento e reduzem o apetite de bancos por risco rural.
Atualmente, o índice de recuperação judicial no agronegócio é de 12,6 empresas a cada mil, seis vezes superior à média nacional e quase o dobro da indústria. A inadimplência rural chega a 8,3%, sinalizando que o setor, apesar de essencial, não está imune a problemas estruturais de endividamento e gestão financeira.
Para o sócio do escritório Volk & Giffoni Ferreira Advogados Vinicius Mendes e Silva, o crescimento dos pedidos de recuperação reflete um fenômeno conjuntural, mas evidencia fragilidades estruturais antigas. “Após a expansão de crédito entre 2020 e 2022, muitas empresas assumiram dívidas que se tornaram insustentáveis com a elevação dos juros e a desaceleração econômica. O problema conjuntural não cria as fragilidades, ele apenas as cobra”, afirma.
Segundo ele, os juros elevados funcionam como gatilho imediato, mas não são a causa exclusiva do aumento dos pedidos. “Com a Selic em patamares altos, o crédito corporativo brasileiro se mantém entre os mais caros do mundo em termos reais. Isso encarece as dívidas, reduz a disponibilidade de crédito e pressiona empresas altamente alavancadas. Muitas recorrem à recuperação judicial não por inviabilidade operacional, mas porque a estrutura financeira se torna insustentável”, explica.
Ele afirma que os desafios enfrentados pelas empresas decorrem de uma combinação de fatores: endividamento histórico, mudanças estruturais no mercado e falhas de gestão. Além disso, ressalta que os recentes pedidos de recuperação judicial não se limitam a setores específicos, refletindo um estresse mais amplo no ambiente de negócios.
“Varejo, agronegócio, construção civil e energia têm vulnerabilidades próprias, mas quando grandes empresas de diferentes setores recorrem à recuperação judicial ao mesmo tempo, isso evidencia um estresse mais amplo no ambiente de negócios. Nenhum porte ou marca consolidada está imune”, alerta.
Com informações do Correio Braziliense
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