O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, confirmou a possibilidade de deixar o governo para atuar na campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2026, hipótese que já vinha sendo mencionada por ele em conversas reservadas.
O chefe da equipe econômica indicou que pode afastar-se da pasta já no início do próximo ano. Nos bastidores, a expectativa é de que uma eventual saída ocorra até abril, prazo-limite para a desincompatibilização eleitoral, prazo para que qualquer candidato deixe o cargo público para concorrer nas eleições. Analistas observam que, à medida que o calendário eleitoral avance, a tendência é de maior volatilidade nos mercados, com movimentos mais intensos na Bolsa e no câmbio.
Em declarações recentes aos jornais O Globo e Folha de S.Paulo, o ministro afirmou que tem a “intenção de colaborar com a campanha do presidente Lula”, mas reiterou que não pretende ser candidato em 2026. “Quero dar uma contribuição para pensar o programa de governo e para pensar como estruturar a campanha dele”, disse.
Apesar de não demostrar interesse público na candidatura, as apostas são de que Haddad deverá disputar uma vaga ao Senado ou ao governo de São Paulo. De acordo com analistas, devido à falta de um candidato forte da esquerda no maior colégio eleitoral do país, é bem provável que Haddad volte a concorrer ao governo paulista, como aconteceu em 2022, a fim de dar um palanque para Lula e o PT.
“Haddad tem dito que não tem um desejo muito grande de concorrer, mas se o presidente Lula pedir para ele compor o palanque em São Paulo, ele vai, porque é um nome forte dentro do PT. Mas isso ainda é um pouco cedo para avaliarmos”, afirmou Christopher Garman, diretor-gerente para as Américas do Eurasia Group.
Sucessor
Apesar de o secretário-executivo da Fazenda, Dario Durigan, ser o nome provável para substituir Haddad em um mandato-tampão no próximo ano, Garman reconheceu que há dúvidas sobre quem seria o chefe da equipe econômica de um eventual quarto mandato de Lula.
Murillo de Aragão, cientista político e CEO da consultoria Arko Advice, acredita que Haddad deverá ser candidato ao governo ou ao Senado em São Paulo, “mas deverá sair no prazo da desincompatibilização”. Para ele, Haddad já está preparando o Durigan para assumir a Fazenda em seu lugar.
“Por enquanto, a gestão da política econômica não muda muito, com Durigan assumindo a pasta com a saída de Haddad. Mas haverá muita incerteza sobre a expectativa do futuro ministro da Fazenda do governo Lula 4, e isso vai gerar muita volatilidade no mercado”, alertou o diretor do Eurasia Group.
A economista e consultora Zeina Latif, por sua vez, não descarta que Lula esteja procurando um nome mais forte do que Haddad, porque a piora do quadro fiscal — que ainda não entrou na precificação dos ativos do mercado financeiro — será um dos temas importantes da campanha eleitoral e, para evitar muita oscilação no humor do mercado em 2026, o petista precisará dar um aceno, como fez em 2002 com a “Carta aos brasileiros”.
“Não gosto de subestimar Lula. Ele sabe que vai ser importante ter um economista de peso na equipe econômica na campanha, porque não haverá lua de mel em 2027, se ele vencer nas urnas”, alertou Latif. Para ela, será preciso uma reorientação na política fiscal para trazer a dívida pública para patamares civilizados. “Não tem jeito, haverá muita volatilidade”, alertou.
Perda de credibilidade
Analistas ouvidos pelo Correio avaliam que Haddad perdeu credibilidade ao longo do terceiro mandato de Lula, mas ainda é visto, dentro do PT, como um dos nomes mais identificados com a agenda de equilíbrio fiscal. Essa leitura persiste apesar das críticas recentes ao arcabouço fiscal, considerado incapaz de se sustentar desde o primeiro ano de vigência.
Mesmo com algumas vitórias no Congresso, como a aprovação do Projeto de Lei do Devedor Contumaz e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil a partir do próximo ano, a gestão de Haddad ainda é considerada fraca, assim como a equipe, especialmente, por não reconhecerem feitos de governos anteriores.
O caso do desemprego nos níveis mais baixos da história, por exemplo, não é mérito do atual governo, segundo especialistas. Eles destacam que um dos principais fatores que justificam a resiliência do mercado de trabalho é a reforma trabalhista do governo Michel Temer.
Os analistas apontam, ainda, outro equívoco no discurso de Haddad e de seus secretários: a alta recente da Bolsa de Valores de São Paulo (B3) não seria resultado direto da atuação do atual governo, mas de um cenário externo mais favorável. Além disso, no mercado financeiro, os agentes ainda não operam com a expectativa de uma vitória de Lula em 2027, apesar de o presidente aparecer à frente nas pesquisas.
Na avaliação do mercado, o cenário atual — de Bolsa em patamar recorde e dólar mais fraco do que no fim de 2024, quando superou R$ 6 — pode se alterar à medida que os agentes financeiros passem a precificar como mais provável a continuidade do atual governo.
“A saída de Haddad do governo deixaria um ponto de interrogação sobre a agenda eleitoral. E a preocupação, agora, será sobre quem Lula vai escolher para comandar a equipe econômica no próximo governo. No fundo, o ambiente vai ficar mais incerto”, destacou Garman.
Ele reconheceu que a credibilidade de Haddad foi diminuindo ao longo do governo, e o momento mais crítico da gestão de Haddad foi quando o Lula não o apoiou no ajuste fiscal previsto para o fim de 2024. Além disso, destacou que agentes financeiros também não acreditam que a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) “é para valer”.
Política fiscal
O economista e ex-diretor do Banco Central Tony Volpon, professor da Georgetown University, em Washington, lembrou que Haddad entregou a política fiscal que Lula queria, ou seja, uma política de aumento de gastos baseado no aumento da arrecadação.
“Houve um ligeiro aumento da carga tributária sobre as pessoas mais endinheiradas, com o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), mas o governo não chegou a reduzir o deficit das contas públicas, porque não houve o enfrentamento do problema dos gastos obrigatórios”, destacou Volpon.
“Haddad entregou a política econômica que Lula queria, a economia até cresceu por conta das medidas que aumentaram a demanda agregada por conta da distribuição de renda. Só que a conta chega no Banco Central, pois o prêmio de risco dos juros é muito alto para financiar essa brincadeira”, alertou o ex-diretor do BC em referência ao atual patamar da taxa básica da economia (Selic), de 15% ao ano.
Originalmente publicado em Correio Braziliense
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