A cada década, a sociedade revive velhas teorias falsas sobre o autismo. Lá nos anos 1940, surgiu a ideia da “mãe geladeira”, que culpava o comportamento das mães pelo autismo de seus filhos. Décadas depois, nos anos 1990, veio a tentativa de responsabilizar as vacinas.
Em 1998, um estudo publicado no Reino Unido sugeriu uma relação entre a vacina tríplice viral e o autismo. O estudo foi logo desmentido: além de falho, o autor perdeu sua licença médica por má conduta científica. Mesmo assim, o estrago estava feito — o movimento antivacina ganhou força e trouxe de volta surtos de doenças que já estavam controladas.
Agora, em 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ressuscitou esses mitos. Em um discurso no dia 22 de setembro, ele afirmou que o autismo seria causado pelo uso de paracetamol durante a gravidez, além de retomar a velha narrativa de que vacinas seriam responsáveis pela condição. Tudo sem apresentar nenhuma evidência científica robusta.
Mas os fatos estão ao lado da ciência, não da política de desinformação. Em 2024, a revista JAMA publicou um estudo robusto, que analisou os registros de 2,5 milhões de crianças nascidas na Suécia entre 1995 e 2019. A conclusão foi clara: não há relação entre o uso de paracetamol na gestação e o aumento de casos de autismo, TDAH ou deficiência intelectual. O mesmo vale para as vacinas — inúmeros estudos já mostraram que não existe essa correlação. Ao contrário, vacinas salvam vidas e são uma das maiores conquistas da saúde pública.
O problema não está apenas em espalhar desinformação. O discurso de Trump foi carregado de capacitismo, quando ele afirmou que é “triste ter tantos amigos com filhos autistas” e que seu objetivo seria “acabar com a febre do autismo”. Essa fala trata o autismo como uma tragédia, como algo a ser eliminado, e não como parte da diversidade humana.
A tristeza na verdade são o preconceito e as barreiras que pessoas autistas enfrentam todos os dias — barreiras muitas vezes reforçadas por líderes que deveriam dar o exemplo.
A ciência mostra que o autismo tem base genética, hereditária e envolve fatores complexos do neurodesenvolvimento. Não existe uma “causa única” ou simples. Mas é justamente por ser parte da diversidade humana que precisamos de políticas públicas de inclusão, de acessibilidade e de acesso a terapias e cuidados.
Por isso, não podemos aceitar falas que reforçam preconceitos, espalham desinformação, negacionismo e colocam a culpa do autismo nas mães ou nas vacinas. Isso não é apenas irresponsável: é perigoso!
Que possamos combater essas narrativas mentirosas e seguir apoiando a ciência. O autismo é deficiência, e faz parte da diferença humana.
*Andréa Medrado é ativista, mãe típica e atípica, membro do grupo Pitt-Hopkins Brasil.
** Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
*Com informações do Brasil 247
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