Levantamento do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), feito pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), revelou que o número de trabalhadores afastados por transtornos mentais no Brasil aumentou 79% de 2023 a 2025, com impactos na produtividade dos assalariados e da economia do país. Em 2023, foram concedidos 219,8 mil benefícios. Em 2024, o número saltou para 367,9 mil e, em 2025, foram 393,6 mil até novembro. Mesmo sem o fechamento de dezembro, o volume do ano passado foi 79% superior ao total registrado em todo o ano de 2023.
Ansiedade, depressão e síndrome de Burnout foram os distúrbios que mais afastaram os trabalhadores no período. Juntos, os transtornos ansiosos e depressivos representaram 86% de todos os pedidos de licença de 2025. A ansiedade causou 81,8 mil afastamentos em 2023, e 157,2 mil em 2025. A depressão provocou 122,2 mil afastamentos, enquanto o transtorno depressivo recorrente respondeu por 60,7 das concessões do benefício. Juntos, esses problemas totalizaram 182,9 benefícios concedidos, quase metade de toda a demanda por saúde mental registrada no período.
Em relação ao Burnout, síndrome definida como um estado de esgotamento físico e emocional diretamente relacionado ao trabalho, representou o crescimento percentual mais expressivo do período. Os registros triplicaram, de 1.760 (2023) para 6.985 (2025).
“Os afastamentos mostram o estágio mais grave do adoecimento. Antes disso, existe um contingente enorme de trabalhadores atuando com sofrimento psíquico, mas sem chegar ao ponto de se afastar formalmente. É nesse intervalo que o médico do trabalho tem papel decisivo ao identificar sinais, acolher o trabalhador e contribuir para a prevenção desses afastamentos”, avaliou o presidente da Anamt, Francisco Cortes Fernandes.
Ao Correio, ele ressaltou que os dados contemplam afastamentos de trabalho superiores a 15 dias, período em que o trabalhador formal passa a receber benefício previdenciário do INSS. Para os trabalhadores informais, não há dados sobre saúde mental.
“Onde que estão esses dados? Os trabalhadores informais no Brasil estão ao redor de 45 milhões, 50 milhões. São estimativas similares aos que estão na formalidade. Faz sentido a gente esperar que tenha, talvez, esse mesmo estoque de doenças nos trabalhadores informais, mas a gente não tem os dados”, criticou.
Na avaliação da psicóloga e especialista em gestão com ênfase em comportamento organizacional Denise Milk, quando se fala de trabalhador informal, a saúde mental tende a ficar ainda mais vulnerável. Segundo ela, são pessoas que, em geral, vivem sob alta instabilidade financeira, ausência de direitos trabalhistas, insegurança previdenciária e pressão constante por renda.
“Não existe afastamento remunerado. Muitas vezes, não existe sequer a possibilidade de parar. Esse contexto gera um estado prolongado de alerta, ansiedade crônica e exaustão emocional. O trabalhador informal precisa sustentar resultados todos os dias para sobreviver, o que impacta diretamente o equilíbrio psicológico. Além disso, o acesso a serviços de saúde mental costuma ser mais restrito, o que faz com que o sofrimento fique invisível e não tratado. É um grupo que adoece em silêncio”,argumentou.
Mulheres
De acordo com o estudo, as mulheres e os adultos de 40 a 49 anos foram os que mais tiraram licença do trabalho para cuidar da cabeça. Na questão de gênero, os dois especialistas consideram a jornada dupla feminina de trabalho como um dos principais motivadores para o desenvolvimento de distúrbios mentais, como ansiedade, depressão e Burnout.
“Mesmo quando ocupam cargos de liderança ou posições estratégicas, continuam sendo as principais responsáveis pela gestão da casa, dos filhos, dos pais e da vida emocional da família. Além disso, elas são mais cobradas socialmente para dar conta de tudo e, ao mesmo tempo, enfrentam ambientes profissionais que ainda exigem prova constante de competência, resiliência e entrega”, argumenta Milk.
Em relação à faixa etária, a psicóloga destaca que a faixa entre 40 e 49 anos costuma concentrar o pico de responsabilidades da vida adulta. Os profissionais acumulam altas demandas no trabalho, pressão por desempenho, responsabilidades financeiras, liderança de equipes e, ao mesmo tempo, os desafios familiares, como cuidado com filhos.
É, também, uma fase em que muitos já sustentam anos de sobrecarga emocional sem pausas adequadas, com o corpo e a mente começando a sinalizar limites que foram ignorados por muito tempo. “O adoecimento, nesse caso, não surge de forma repentina, ele é o resultado de um processo prolongado de desgaste”. O que não significa que os mais jovens estejam imunes. “O que temos observado é um aumento significativo de sintomas de ansiedade, estresse e esgotamento emocional em profissionais mais jovens. A diferença é que, muitas vezes, eles ainda não chegam ao afastamento formal, mas já apresentam sinais importantes de sofrimento psíquico.”
Na avaliação do presidente da Anamt, o cenário pode melhorar com a entrada em vigor de uma norma que estabelece diretrizes e requisitos para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e os programas obrigatórios — como o PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) e o PCMSO (Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional) nas empresas.
Com informações do Correio Braziliense
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