A megaoperação contra o Comando Vermelho (CV), realizada nesta terça-feira, 28, no Rio de Janeiro, reacendeu o debate sobre segurança pública no País. Após o desgaste provocado pela PEC da Blindagem e pelo projeto de anistia a condenados pelos atos de 8 de Janeiro, como o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o campo da direita tenta se reorganizar em torno de uma pauta concreta e de apelo popular.
Especialistas ouvidos pelo Estadão avaliam que, apesar do recorde de 121 mortos, a ação policial nos complexos do Alemão e da Penha fortaleceu politicamente não só o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), como também outros governadores alinhados à direita. Ao mesmo tempo, a operação obrigou o governo Lula a enfrentar um tema que historicamente representa um ponto de fragilidade para a esquerda.
Entre as principais lideranças da direita, os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo; Ratinho Júnior (PSD), do Paraná; Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais; e Ronaldo Caiado (União), de Goiás, são apontados como possíveis candidatos ao Palácio do Planalto no ano que vem. Tarcísio é visto como o nome mais forte do grupo, embora afirme publicamente que disputará a reeleição em São Paulo.
Para o estrategista de marketing político Alberto Lage, o debate sobre segurança pública dá maior autonomia aos governadores, que podem abordar um tema de forte apelo popular sem depender da chancela de Bolsonaro, em prisão domiciliar desde agosto. Nos últimos dois meses, as articulações da direita têm girado em torno de uma possível anistia ao ex-presidente, já que a expectativa é de que ele defina o candidato do campo ao Planalto em 2026.
“Do ponto de vista organizacional, a direita conseguiu trazer a discussão para um terreno em que se sente confortável para debater”, afirma Lage. Segundo ele, o tema da segurança pública é especialmente favorável aos governadores, que controlam as polícias nos Estados e podem tratar do assunto de forma direta – ao contrário do debate sobre o tarifaço dos Estados Unidos, no qual tinham pouca margem de atuação.
Dois dias após a megaoperação, governadores de direita se reuniram no Rio para anunciar a criação de um consórcio de segurança pública, com o objetivo de promover cooperação entre os Estados no combate ao crime organizado. O anúncio foi feito pelo governador Cláudio Castro. Tarcísio participou de forma remota, enquanto Zema, Caiado, Jorginho Mello (PL), governador de Santa Catarina, Eduardo Riedel (PP), governador do Mato Grosso do Sul, e Celina Leão (PP), vice-governadora do Distrito Federal, estiveram presencialmente no evento para demonstrar apoio a Castro após a operação policial.
Para Lage, a manutenção do tema da segurança pública no centro do debate pode abrir “uma espécie de primária da direita”, em que cada governador buscará se destacar ao apresentar os resultados de sua própria polícia.
“Imagino que os governadores vão querer mostrar serviço, tentando apresentar resultados na área da segurança pública. Há diferentes formas de fazer isso: tanto pelo caminho da violência policial quanto por meio da propaganda e dos índices estatísticos. Isso vai depender da estratégia de cada um deles”, afirma Lage.
Direita se reorganiza em torno do debate sobre segurança pública
O cientista político e sócio da Tendências Consultoria, Rafael Cortez, avalia que a megaoperação no Rio provocou um choque no sistema político. De um lado, fez com que a direita deixasse de focar em temas como anistia e PEC da Blindagem para discutir uma pauta de forte apelo popular; de outro, obrigou o governo Lula a enfrentar um debate difícil para a esquerda.
“Anistia e PEC da Blindagem não geravam impacto para além do grupo do ex-presidente Jair Bolsonaro. De alguma forma, a segurança pública abre uma nova oportunidade para a direita se reorganizar em torno de um tema que mobiliza fortemente seu eleitorado e que pode, inclusive, pressionar as preferências do governo de esquerda”, analisa Cortez.
Assim como Alberto Lage, o sócio da Tendências destaca que o tema envolve diretamente os governadores, tanto por sua estrutura federativa quanto pela movimentação política deles com vistas a 2026, inclusive com a possibilidade de uma chapa presidencial composta por dois governadores.
Cortez observa ainda que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisará definir como se posicionar diante de um tema sensível, especialmente com a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado no Senado, prevista para a próxima terça-feira, 4.
Cláudio Castro sai politicamente fortalecido
Professora de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mayra Goulart avalia que a megaoperação no Rio marcou uma virada decisiva na pauta política do País, reforçando a polarização entre esquerda e direita.
“A magnitude da operação e sua repercussão nacional criaram condições para que Cláudio Castro voltasse a ocupar o centro da cena política, ainda que por vias controversas. Como a eleição de 2026 terá duas vagas em disputa para o Senado, o episódio pode ser suficiente para recolocá-lo na corrida”, afirma.
A análise da especialista é sustentada pelo aumento expressivo do engajamento de Castro nas redes sociais. Desde o fim da operação, o governador do Rio ganhou mais de 500 mil seguidores no Instagram. Seu perfil oficial saltou de 462 mil para mais de 1 milhão até a noite desta quinta-feira, 30.
Mayra observa ainda que a operação e seus desdobramentos aceleraram o processo de reacomodação entre o governo estadual, o PL e o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD). Segundo ela, a recente fala de Paes dirigida ao PL, acompanhada de gestos de moderação e de um discurso mais duro em relação à criminalidade, foi interpretada como um aceno à direita, numa tentativa de reduzir resistências entre o eleitorado conservador e abrir pontes com lideranças bolsonaristas.
A professora destaca também que a dificuldade da esquerda em lidar com o tema da segurança pública decorre de sua incapacidade de oferecer respostas com o mesmo grau de concretude e imediatismo do discurso da força. “As soluções progressistas – baseadas em prevenção, tecnologia, integração institucional e políticas sociais – não produzem efeitos perceptíveis de forma imediata, sobretudo entre aqueles que vivem sob medo e violência cotidiana”.
“A atual disputa opõe campos que já não se reconhecem mutuamente: um acusa o outro de ser “assassino”, enquanto o outro o chama de “cúmplice do crime”. Essa lógica impede o diálogo e bloqueia a formulação de políticas consistentes de segurança pública, mantendo o debate preso à retórica da vingança ou da omissão”, afirma Mayra.
Com informações do Jornal de Brasília
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