Flávio Bolsonaro viaja mais aos EUA do que a estados-chave do Brasil durante pré-campanha

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, tem priorizado viagens aos Estados Unidos em sua agenda política e deve embarcar novamente para Washington, em sua sexta ida ao país neste ano, enquanto ainda não visitou estados considerados estratégicos para a disputa eleitoral no Brasil. A movimentação ocorre em meio ao debate sobre uma possível sobretaxa norte-americana contra produtos brasileiros, relata o jornal O Globo.

Desde dezembro de 2025, Flávio tem usado a agenda internacional para tentar reduzir desgastes provocados por crises internas no bolsonarismo. No mesmo período, o senador deixou de passar por dez estados, todos nas regiões Norte e Nordeste, onde enfrenta maior dificuldade eleitoral, e fez apenas uma visita a colégios importantes como Minas Gerais e Bahia.

A nova viagem aos Estados Unidos ocorre no contexto de uma audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), marcada para discutir a proposta de tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Em manifestação enviada ao órgão americano, Flávio tratou o prejuízo a empresas brasileiras como questão secundária ao afirmar que a medida poderia produzir efeito político oposto ao pretendido, ao permitir que o presidente Lula (PT) explorasse o tema como defesa da soberania nacional. “Em outras palavras: as tarifas propostas dariam ao atual governo brasileiro exatamente a vitória política que ele vem buscando, ao mesmo tempo em que puniriam a economia americana e os próprios brasileiros que buscam uma relação mutuamente benéfica com os Estados Unidos”, afirmou o senador no documento.

Flávio também argumentou que uma sobretaxa ampla sobre a economia brasileira não atingiria diretamente os alvos apontados por setores do governo norte-americano, mas afetaria empresas, consumidores e a população em geral. “Como o próprio presidente (Trump) enquadrou a questão, o alvo é a conduta do governo e do Judiciário. Uma tarifa de 25% sobre praticamente toda a economia brasileira não atinge nenhum dos dois. Ela atinge exportadores, importadores americanos, consumidores dos EUA e a população brasileira que se opõe justamente às condutas em questão”, escreveu.

A campanha governista reagiu ao movimento e passou a explorar politicamente a associação da família Bolsonaro com as pressões vindas dos Estados Unidos. Lula criticou a tentativa de adiar eventual decisão sobre o tarifaço para depois da eleição e acusou adversários de atuarem contra os interesses nacionais. “Nós sempre vamos dialogar de igual para igual com qualquer nação do mundo. Pedir que o tarifaço contra o nosso país seja adiado para depois das eleições é mais uma atitude de traidores da Pátria. Nunca houve e não há qualquer justificativa para tarifaço agora ou depois”, disse o presidente.

Nos bastidores da pré-campanha de Flávio, aliados avaliam que o senador precisa reforçar a presença em estados brasileiros, acelerar a formação de palanques regionais e ampliar a articulação especialmente no Norte e no Nordeste. Até agora, ele não passou por Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Ceará, Pernambuco, Piauí, Roraima, Sergipe e Tocantins.

Após a passagem por Washington, estão previstas agendas em Pernambuco e no Ceará. A visita ao Ceará é vista por aliados como um teste para recompor relações locais depois da crise envolvendo Michelle Bolsonaro, que afirmou ter sido “maltratada” por Flávio em meio a divergências sobre a composição política no estado.

Além da audiência sobre tarifas, a viagem aos Estados Unidos deve ter outro objetivo político: uma reunião com o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que permanece no país. Integrantes do entorno do senador defendem que o encontro sirva para alinhar a comunicação da pré-campanha após desgastes recentes provocados por declarações de influenciadores ligados ao deputado, como Paulo Figueiredo.

O processo conduzido pelo USTR envolve questionamentos sobre políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, ao Pix, à propriedade intelectual, ao mercado de etanol, ao combate à corrupção e a temas ambientais. O prazo para uma decisão do governo americano sobre a adoção ou não das tarifas termina em 15 de julho, cerca de uma semana após a audiência pública.

Em outra manifestação apresentada ao processo, Paulo Figueiredo pediu que o governo Trump abandone a tarifa de 25% e adote sanções individuais contra autoridades brasileiras, com foco em ministros do Supremo Tribunal Federal. Para ele, a sobretaxa “atinge o alvo errado”.

Com informações do portal 247

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