Semaglutida prolonga a vida e melhora funções de camundongos idosos, aponta estudo

TaguaCei — A semaglutida, princípio ativo utilizado em medicamentos para diabetes tipo 2 e obesidade, apresentou efeitos associados ao envelhecimento saudável em camundongos idosos, segundo um estudo publicado na revista científica Nature. Os animais tratados apresentaram aumento da sobrevida e melhora em funções musculares e cognitivas.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos. Os resultados sugerem que os medicamentos que ativam o receptor do hormônio GLP-1 podem produzir efeitos relacionados ao envelhecimento que vão além da simples perda de peso e da melhora metabólica.

Apesar dos resultados promissores, especialistas ressaltam que a pesquisa ainda está na fase pré-clínica. Portanto, não é possível afirmar que a semaglutida tenha efeito semelhante sobre a longevidade humana.

Camundongos tratados viveram mais

Para avaliar os efeitos do medicamento em uma fase avançada da vida, os pesquisadores administraram semaglutida a camundongos fêmeas com 20 meses de idade, considerada uma idade avançada para esses animais.

Em comparação com um grupo que não recebeu o medicamento, os animais tratados apresentaram melhora no desempenho muscular e em funções cognitivas. Análises da expressão genética também indicaram redução de características associadas à senescência, como processos inflamatórios e diminuição da capacidade de regeneração.

Em outro experimento, os pesquisadores acompanharam os animais até o fim da vida. As camundongas que receberam semaglutida tiveram sobrevida mediana de 834 dias, contra 742 dias entre aquelas que não foram tratadas — uma diferença de quase 100 dias.

Os cientistas observaram ainda que o adiamento da morte ocorreu em diferentes categorias de causas, inclusive em condições não relacionadas a tumores.

Efeito pode ir além da perda de peso

Os pesquisadores também compararam os efeitos da semaglutida com os da restrição calórica, uma estratégia já relacionada à longevidade em diferentes estudos com animais.

Durante cinco meses, um grupo de camundongos recebeu semaglutida, enquanto outro passou por uma dieta com redução de 24% das calorias. A quantidade de alimento foi calculada de forma a reproduzir o consumo observado entre os animais tratados com o medicamento.

A comparação mostrou resultados semelhantes em diversas medidas fisiológicas. No entanto, as camundongas que receberam semaglutida apresentaram desempenho superior em comportamento exploratório, memória espacial e controle da glicemia.

Também houve diferença na taxa metabólica. Ela diminuiu nos animais submetidos à restrição calórica, mas permaneceu praticamente inalterada entre os que receberam o medicamento.

Para os pesquisadores, os resultados levantam a possibilidade de que a ativação do receptor GLP-1 produza efeitos por uma via biológica que não depende exclusivamente da redução da ingestão de alimentos.

Combinação com restrição calórica apresentou efeitos maiores

O médico nutrólogo Guilherme Giorelli, professor e coordenador da pós-graduação de Nutrologia do Einstein Hospital Israelita, destacou que alguns efeitos foram mais intensos quando a restrição calórica foi combinada à semaglutida.

Entre os resultados observados estão alterações relacionadas à inflamação, ao envelhecimento celular e à formação de novos neurônios. Segundo o especialista, porém, o estudo não permite estabelecer uma relação direta de causa e efeito.

A pesquisa também analisou o chamado healthspan, conceito utilizado para representar o período da vida em que um organismo permanece saudável e funcional. Além de viverem mais, os animais tratados apresentaram melhorias em determinadas funções.

Especialistas alertam para limite dos resultados

Para Paulo Miranda, coordenador da Comissão Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), não é possível afirmar, a partir desse trabalho, que a semaglutida aumente a longevidade humana.

Segundo ele, os resultados são pré-clínicos e ainda não podem ser diretamente transferidos para pessoas. Em seres humanos, já existem estudos controlados que demonstram benefícios dos medicamentos GLP-1 em determinadas condições, como redução de eventos cardiovasculares e desaceleração da progressão de doença renal crônica.

A dúvida também permanece sobre quanto dos efeitos observados nos camundongos decorre da perda de peso e quanto poderia estar relacionado diretamente à ação do GLP-1.

Para Miranda, é possível que os dois mecanismos estejam envolvidos: parte dos benefícios pode resultar da redução da gordura corporal e da melhora metabólica, enquanto outra parcela poderia estar relacionada à ação direta dos agonistas de GLP-1.

Não é medicamento antienvelhecimento

O nutrólogo Robson Nunes, da Rede Cade, no Distrito Federal, ressalta que os resultados não permitem classificar a semaglutida como um medicamento antienvelhecimento.

Segundo ele, alguns dos mecanismos identificados no estudo também podem ser estimulados por estratégias não medicamentosas, como alimentação adequada, controle do excesso de gordura corporal e atividade física.

O especialista também chama atenção para os riscos de uma restrição calórica feita de maneira inadequada, especialmente entre idosos. A redução exagerada da ingestão de alimentos pode provocar perda de massa muscular e deficiências nutricionais.

Próximos estudos serão necessários

A pesquisa abre uma nova frente para investigar se os medicamentos que atuam sobre o GLP-1 possuem efeitos que ultrapassam o controle da glicemia e do peso corporal.

No entanto, antes de qualquer conclusão sobre o envelhecimento humano, serão necessários estudos clínicos capazes de determinar se os efeitos observados em animais também aparecem em pessoas, quais mecanismos estão envolvidos e quais seriam os riscos e benefícios de uma eventual utilização da semaglutida com esse objetivo.

Por enquanto, portanto, a principal conclusão é experimental: a semaglutida prolongou a sobrevida e preservou determinadas funções em camundongos idosos, mas ainda não há evidências suficientes para afirmar que o medicamento faça o mesmo em seres humanos.

Fonte: Correio Braziliense

Nota de transparência: Esta reportagem foi produzida com o auxílio de inteligência artificial para organização e aprimoramento do texto, passando por revisão, checagem e edição humana antes de sua publicação.

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