Em São Paulo, presidente rejeita “terrorismo econômico”, cobra responsabilidade dos empresários e chama homens à luta contra o feminicídio como tarefa de reeducação so03.03.2026 – Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a abertura da 2º Conferência Nacional do Trabalho, no Teatro Celso Furtado. São Paulo – SP. Foto: Ricardo Stuckert / PR
O Centro de Convenções Anhembi, em São Paulo, foi palco nesta terça-feira (3) da abertura da II Conferência Nacional do Trabalho, um evento marcado pela retomada do diálogo tripartite após 12 anos de interrupção. Com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do vice-presidente Geraldo Alckmin e de representantes de trabalhadores, empregadores e governo, o encontro buscou construir um plano nacional para o trabalho decente.
Em seu discurso, Lula equilibrou celebração dos avanços econômicos recentes com um chamado firme à negociação coletiva, especialmente sobre a redução da jornada de trabalho, e lançou um apelo direto aos homens brasileiros no combate ao feminicídio.
Contra o terrorismo econômico e a favor da negociação
Um dos pontos centrais da intervenção presidencial foi a defesa da redução da jornada de trabalho sem redução salarial, tema que divide opiniões entre centrais sindicais e confederações empresariais. Lula foi enfático ao rejeitar os argumentos catastróficos apresentados por setores do empresariado. “Não adianta a gente ficar vendendo facilidades… como há discurso de terrorismo”, afirmou o presidente, referindo-se a estudos que apontam prejuízos bilionários ao PIB caso a escala 6×1 seja extinta. Para ele, tanto a venda de ilusões quanto o alarmismo prejudicam a construção de consensos.
Lula destacou que a tecnologia e a automação, que deveriam facilitar a vida do trabalhador, muitas vezes resultaram em desemprego e precarização se não forem acompanhadas de distribuição de renda. “O Brasil não entrará no rol dos países desenvolvidos se o trabalhador não entrar junto”, declarou, citando Henry Ford para lembrar que é necessário pagar bem aos funcionários para que eles possam consumir o que produzem.
O presidente deixou claro que sua postura não será a de impor uma lei única e rígida, mas de incentivar que sindicatos e empresas construam grades de jornada específicas para cada categoria, respeitando as realidades de hospitais, indústrias e comércio. “É melhor vocês construírem negociando do que terem que engolir uma coisa aberta”, alertou.
A luta dos homens contra o feminicídio
Em um momento de grande comoção, Lula dedicou parte significativa de seu discurso à violência contra a mulher, classificando o feminicídio não como uma “luta das mulheres”, mas como uma obrigação moral dos homens. “Nós, homens, somos educados para saber que somos melhores do que as mulheres… Se a gente quiser mudar isso, vai ter que mudar num processo de reeducação do humano”, disse.
Ele relatou experiências pessoais de sua infância e da geração de seus pais para ilustrar como a cultura machista foi enraizada, onde a mulher era vista como propriedade e a violência doméstica era naturalizada.
O presidente fez um apelo direto a líderes religiosos, sindicalistas e pais de família: “Cada homem, cada adolescente, é uma luta nossa”.
Ele criticou o isolamento provocado pelas redes sociais, onde casais passam mais tempo nos celulares do que em contato físico, e pediu que a sociedade ensine desde a creche que “não há brinquedo para homem ou para mulher” e que a igualdade de gênero é fundamental para a paz social.
“Se todo mundo fizer isso, a gente pode dar uma solução”, concluiu, reforçando que a erradicação da violência depende de uma mudança cultural profunda e não apenas de leis punitivas.
Balanço econômico e desafios estruturais
Ao fazer um balanço de seu terceiro mandato, Lula listou conquistas macroeconômicas inéditas, como a menor taxa de desemprego da série histórica, a menor inflação acumulada em quatro anos e a maior massa salarial da história do país.
“Tudo isso porque eu tenho sorte”, brincou o presidente, ironizando críticos, antes de destacar que tais resultados são fruto de políticas públicas focadas na base da pirâmide, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e a retomada de programas habitacionais.
No entanto, Lula reconheceu que a desigualdade permanece como uma “mancha vergonhosa” e que a recuperação exige esforço contínuo. Ele abordou temas espinhosos como a regulamentação do trabalho por aplicativos e os riscos da “pejotização”, que ameaçam direitos conquistados ao longo de décadas, incluindo a função social do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).
O presidente cobrou do Congresso Nacional responsabilidade para aprovar marcos regulatórios que garantam trabalho decente nessas novas modalidades, sem destruir a proteção social dos trabalhadores.
A conferência, que segue até quinta-feira, representa um teste de maturidade para o diálogo social no Brasil. Como resumiu Lula, inspirado em sua trajetória sindical: “Vamos deixar nossas verdades de lado e vamos colocar o possível numa mesa de negociação”.
O recado foi claro: o caminho para o desenvolvimento sustentável passa pelo respeito ao trabalhador, pela valorização do salário e pela construção coletiva de soluções que unam produtividade e dignidade humana.
A II Conferência Nacional do Trabalho teve como tom a urgência de construir consensos em meio a transformações tecnológicas e sociais profundas. Em seus discursos, os ministros Luiz Marinho (Trabalho), Simone Tebet (Planejamento) e Fernando Haddad (Fazenda) desenharam um cenário otimista, porém desafiador, onde a geração de empregos recordes caminha lado a lado com a necessidade de reformas estruturais, como o fim da escala 6×1 e a justa distribuição de renda.
Alckmin: menor desigualdade e maturidade da economia
O vice-presidente da República e ministro de do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, destacou os resultados macroeconômicos do atual governo como base para as novas conquistas sociais. Em sua fala, Alckmin enumerou a entrega de indicadores inéditos na história recente do país: “a menor inflação acumulada em quatro anos”, a “menor taxa de desemprego da série histórica” e a “maior massa salarial da nossa história”.
Para o vice-presidente, esses números não são apenas estatísticas, mas a prova de que a economia brasileira atingiu maturidade suficiente para avançar em pautas estruturais. “Hoje, a desigualdade medida pelo índice de Gini é a menor da história do Brasil”, afirmou, rebatendo narrativas catastróficas sobre a redução da jornada.
Alckmin foi enfático ao declarar que “dizer que um país como este não suporta o fim da escala 6 por 1 é não conhecer a realidade do Brasil”. Ele citou estudos do IPEA encomendados pelo presidente Lula que comprovam a viabilidade da mudança para a semana de 40 horas sem redução salarial, classificando-a como uma questão de dignidade e cumprimento da Constituição.
Marinho: diálogo como antídoto à judicialização
O ministro Luiz Marinho enfatizou que a conferência é o antídoto para a “judicialização” das relações de trabalho, fenômeno que cresceu durante o período em que o Ministério foi extinto. Ele destacou que, nos últimos três anos, o governo Lula gerou um saldo positivo de mais de 4,5 milhões de empregos formais, derrubando o mito de que a juventude rejeita a carteira assinada.
“Mais de 80% dessas vagas foram preenchidas por jovens com menos de 24 anos, filhos e filhas de famílias do Cadastro Único”, afirmou Marinho.
Para o ministro, o grande desafio agora é a redução da jornada de trabalho. “Acredito sinceramente que a economia brasileira está madura para a redução da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais”, declarou, mas fez um alerta importante sobre a forma: a definição das grades de jornada não deve vir de uma lei rígida, mas sim da negociação coletiva, respeitando as especificidades de setores que funcionam 24 horas, como a saúde.
Marinho também lançou a plataforma Qualifica Pro BR, que reúne 30 mil cursos gratuitos, e cobrou do Congresso a regulamentação urgente do trabalho por aplicativos e o fim da “pejotização”, que ameaça conquistas históricas como o FGTS.
Simone Tebet: fim da escala 6×1 é questão constitucional
A ministra Simone Tebet assumiu o discurso com um apelo direto aos homens para que se tornem protagonistas no combate ao feminicídio, lembrando que 1.700 mulheres foram assassinadas apenas em 2025. No entanto, o centro de sua intervenção foi a defesa intransigente do fim da escala 6×1. Rebateu argumentos empresariais de que a medida quebraria o país, classificando-os como desconhecidos da realidade nacional.
“Dizer que o Brasil não suporta o fim da escala 6 por 1 é desobedecer à Constituição Federal”, argumentou Tebet, citando estudo do IPEA encomendado pelo presidente Lula que comprova a viabilidade econômica da medida sem redução salarial. “É possível, plausível e mais do que justo. Garante a dignidade”, enfatizou.
A ministra lembrou que o lazer é um direito social que não se restringe ao domingo e que a produtividade do agronegócio e da indústria deve ser compartilhada com quem produz riqueza. Ela concluiu convocando sindicatos e sociedade a pressionarem por essa conquista, afirmando que “só é cidadão quem tem renda e lazer nos finais de semana”.
Haddad: menor desigualdade da história e reforma tributária
O ministro Fernando Haddad trouxe dados macroeconômicos para sustentar a tese de que o Brasil vive um momento singular. Ele celebrou a conquista da menor taxa de desconforto da história (soma de inflação e desemprego baixos simultaneamente) e o menor índice de Gini já registrado, sinal de que a desigualdade está em queda. “Entregamos a menor inflação acumulada em quatro anos e a maior massa salarial da história”, destacou.
Haddad explicou que medidas como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil foram possíveis graças à progressividade da nova tributação sobre lucros e dividendos, corrigindo uma distorção secular onde “quem recebe contracheque paga e quem vive de renda não”.
Para o ministro, o caminho para o desenvolvimento passa pelo engajamento da classe trabalhadora em um plano nacional de aumento de produtividade. “Não encontramos ainda no Brasil uma classe dominante à altura do potencial deste país… Se não contarmos com a força do trabalho para reverter essa situação, não vamos mudar esse país”, disse, conclamando todos a formularem políticas que agreguem valor e superem o extrativismo histórico da economia brasileira.
As intervenções do vice-presidente Geraldo Alckmin, de lideranças sindicais como Sérgio Nobre e Breno Monteiro, e da representante da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Ana Virgínia Moreira, desenharam um cenário de urgência na reconstrução de políticas públicas.
Fim do vácuo de diálogo e judicialização

O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sérgio Nobre, focou sua intervenção na importância política da retomada das conferências. Ele lembrou que o último encontro ocorreu em 2012 e que o período seguinte foi marcado pela “extinção inacreditável do Ministério do Trabalho” e pela destruição de pontes de diálogo. “O saldo disso foi a judicialização dos temas do trabalho”, criticou Nobre, apontando que hoje tramitam no STF centenas de processos que deveriam ser resolvidos na mesa de negociação, como a regulamentação dos trabalhadores PJ.
Nobre destacou que a pauta do fim da escala 6×1 transcende a questão econômica: “Não se trata de um debate sobre turno de trabalho, mas sobre a necessidade das pessoas terem mais tempo com a família, serem pai, mãe, filho”.
Ele anunciou ainda que as centrais sindicais lançarão, em parceria com o Ministério das Mulheres, uma ampla campanha nacional de combate ao feminicídio, lembrando que 1.700 mulheres foram assassinadas em 2025. “O feminicídio não é um tema das mulheres, é de toda a sociedade, em especial dos homens”, concluiu, convocando os trabalhadores a levarem o debate para dentro das fábricas e empresas.
Representando as 12 confederações empresariais, Breno Monteiro, presidente da Confederação Nacional da Saúde, reafirmou o compromisso do setor com o trabalho decente, mas trouxe ressalvas importantes sobre a forma de implementação das mudanças. Embora reconheça a legitimidade do debate sobre a redução da jornada, Monteiro alertou que “mudanças estruturais dessa magnitude exigem uma prévia análise técnica”.
O líder empresarial argumentou que setores essenciais, como a saúde, temem que uma imposição legal rígida gere escassez de profissionais e aumento de custos que impactem o acesso da população aos serviços. A solução proposta pelo setor patronal é a negociação coletiva. “A nossa Constituição consagrou a valorização da negociação coletiva… Uma regra rígida reduz a capacidade de adaptação da economia”, defendeu, pedindo que as especificidades regionais e setoriais sejam respeitadas nas mesas de diálogo.
A diretora regional da OIT, Ana Virgínia Moreira, elevou o tom do debate ao classificar o diálogo social não apenas como um método, mas como “um pilar do Estado democrático”. Ela parabenizou o Brasil por realizar um processo exemplar que mobilizou quase 3 mil delegados em todas as unidades da federação, resultando em 386 propostas de políticas públicas.
Para a representante da OIT, o momento exige que o diálogo seja a chave para navegar as profundas transformações tecnológicas, ambientais e demográficas do século XXI, superando problemas persistentes como o trabalho infantil e escravo. A presença de delegações de sete nações parceiras no evento reforçou o caráter internacional e a relevância do Brasil como referência ética na promoção do trabalho decente.
A II Conferência Nacional do Trabalho segue até quinta-feira com grupos de trabalho dedicados a transformar essas diretrizes em resoluções concretas, sob a expectativa de que o consenso tripartite prevaleça sobre a polarização, garantindo avanços reais para a classe trabalhadora brasileira.
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