Além de dominar petróleo e conter a China, a guerra contra o Irã busca reverter a tendência que pode levar Trump à derrota nas eleições ao Congresso
A guerra dos Estados Unidos contra o Irã, com apoio de Israel, tem por objetivo exercer o controle geopolítico, econômico e militar da região e, ao mesmo tempo, cortar os laços do país agredido com a China e a Rússia. Trata-se de um objetivo perseguido há tempos, mas que se intensificou desde 2023, com o genocídio em Gaza, o avanço da colonização da Cisjordânia, os ataques ao Líbano e ao Hezbollah, a deposição do presidente sírio Bashar al-Assad e o enfraquecimento do movimento houthi, no Iêmen.
Essa sequência fez parte da preparação da guerra contra o Irã, detentor da terceira maior reserva mundial de petróleo e uma capacidade militar de defesa considerável, além de exercer controle sobre o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo.
Os fatos demonstram que os Estados Unidos desencadearam a guerra deliberadamente, em meio a negociações diplomáticas mediadas pelo Omã. Isso fica evidente na declaração do ministro das Relações Exteriores omani, Badr Albusaidi, ao afirmar que nas conversas realizadas dois dias antes do início da guerra, haviam sido obtidos “avanços reais para um acordo sem precedentes entre Irã e Estados Unidos”. Mas Trump tratou as reuniões como mera fachada. Enquanto dizia negociar, ultimava os preparativos do ataque.
Washington também vinha ignorando o Plano de Ação Conjunto Global, fechado em Viena em 14 de julho de 2015 entre o Irã e os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas – China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos – mais a Alemanha e a União Europeia.
O acordo, feito no governo Barack Obama após dois anos de negociações, previa supervisão internacional do programa nuclear iraniano pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em troca do levantamento das sanções. Trump, em seu primeiro governo, retirou os Estados Unidos do Plano e impôs novas sanções unilaterais. O presidente Joe Biden tentou, sem sucesso, reativar o acordo, e agora Trump adotou a guerra como meio de controle da região.
Em junho de 2025, Trump lançou um ataque militar contra o Irã e chegou a declarar que havia destruído totalmente o programa nuclear iraniano — ação em apoio a Israel, que havia atacado o país. Agora, Trump fez exigências de encerramento da produção de mísseis iranianos, mas foi muito além ao proclamar que o objetivo da guerra é a derrubada do regime.
O assassinato de Ali Khamenei, líder supremo do Irã, adicionou um componente religioso à agressão estadunidense, levando multidões às ruas em protesto, inclusive em outros países da região. Após os bombardeios, Trump conclamou o povo iraniano a tomar o poder, mas a execução de Khamenei e de sua família teve efeito reverso. Dezenas de milhares de pessoas compareceram ao funeral, mobilizadas por um sentimento misto de fé ultrajada e profundo repúdio à agressão imperialista.
A União Europeia estufou o peito para acusar o Irã de promover ataques “imperdoáveis” e violar a “soberania de vários países da região”, mas foi incapaz de demarcar com a aventura guerreira da Casa Branca. Houve exceções. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, rejeitou a agressão, afirmando que ela “contribui para uma ordem internacional mais incerta e hostil”. Já França e Inglaterra explicitaram apoio à guerra.
Países do chamado Sul Global — especialmente integrantes do BRICS — manifestaram críticas ao ataque. Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia afirmou que “é evidente que, além de buscar a mudança de regime no Irã por meio dos métodos mais inescrupulosos, incluindo o assassinato da liderança de um Estado soberano, Washington e Tel Aviv também estão procurando minar os esforços voltados à normalização das relações entre o Irã e seus vizinhos árabes”.
A China, segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores, apoia o direito do Irã de defender sua soberania, independência e dignidade. A manifestação ocorreu após conversa telefônica entre o ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Abbas Araghchi, e o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, a pedido do representante iraniano.
O assessor especial da Presidência da República, Celso Amorim, afirmou que o Irã não deve se submeter a grandes potências. “O Irã não vai desaparecer, nem vai se render, nem se prestará a ter um regime que seja títere de qualquer outra grande potência”, declarou. “Eu sei que o Irã é um país importante, com personalidade, e acho que ele vai reagir a qualquer tentativa de dominação absoluta.” O Brasil, por meio de comunicado do Ministério das Relações Exteriores, condenou assertivamente o ataque.
Ao contrário do que pretende Trump, o governo iraniano mantém-se resiliente e, após as baixas provocadas pelo ataque, rapidamente recompôs a linha hierárquica de sua estrutura política e de defesa. E, legitimamente, exerce o seu direito de defesa. Mesmo o fechamento do Estreito de Ormuz constitui uma forma de pressão em busca de um cessar-fogo.
O fato é que Trump pretende impor seu ditame com ações cada vez mais violentas. Depois do apoio ao genocídio em Gaza, do tarifaço mundial, do sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, das ameaças à Colômbia e à Groelândia e do brutal cerco a Cuba, ele mobiliza agora seu poderio militar no Irã. Ou seja: é a guerra por meios diversos — a essência do neofascismo —, com uma agenda neocolonial explícita. Assim, pretende reverter o declínio do império e conter a ascensão da República Popular da China e a jornada dos povos por soberania nacional.
Há também o fator interno: a queda de popularidade de Trump, vista como tendência negativa para seu campo político nas eleições parlamentares de novembro, com a possibilidade de perder a maioria no Congresso. A guerra é uma aposta arriscadíssima para tentar sustar essa possibilidade.
É uma guerra distante, porém próxima do Brasil. A riqueza colossal do país, evidentemente, desperta a cobiça de Trump. O governo do presidente Lula trava, com êxito, a batalha contra o tarifaço. Mas, sobretudo com o avanço do calendário eleitoral, podem-se esperar mais pressões e ataques. Não apenas o Brasil, mas toda a América Latina e o Caribe estão na linha de mira.
A ameaça ao Brasil torna-se ainda mais real diante do fato de que a Casa Branca dispõe de uma quinta-coluna no país. Como ocorreu no tarifaço, a extrema direita brasileira se ajoelhou diante de Trump e, pela voz de seu pré-candidato Flávio Bolsonaro, endossou integralmente a guerra e criticou a nota do Itamaraty. Os jornalões alinhados ao imperialismo estadunidense, mesmo diante de centenas de vítimas civis no Irã — entre elas mais de cem meninas de uma escola —, aplaudem os bombardeios.
Esse cenário, no qual nenhum país parece estar a salvo das ambições neocolonialistas dos Estados Unidos, reforça a urgência de ações amplas das forças democráticas, patrióticas e progressistas em defesa da paz mundial e contra as guerras imperialistas de Trump.
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