Após corte de 20GW no jogo do Brasil contra o Japão, ONS reforça monitoramento do consumo de energia para domingo, no confronto da Seleção com a Noruega nas oitavas
Os jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo têm imposto um desafio adicional ao sistema elétrico do país, ao combinar picos de geração renovável com quedas bruscas de consumo provocadas pela mobilização da população durante as partidas. Para o confronto das oitavas de final da seleção do Brasil contra a da Noruega, marcado para domingo, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) já trabalha com um cenário de atenção redobrada.
A expectativa do operador é de que a combinação entre o jogo e o domingo — quando a atividade econômica já é naturalmente menor — reduza ainda mais a demanda por energia ao longo da partida. O cenário pode ampliar o risco de excedentes de geração, principalmente de fontes solar e eólica, exigindo novos cortes para preservar o equilíbrio do Sistema Interligado Nacional (SIN).
“O desafio operacional é diferente do observado em dias úteis, mas seguimos monitorando continuamente o comportamento da carga e da geração”, afirmou o ONS. O órgão também avalia a necessidade de medidas adicionais para controlar a oferta, incluindo a redução da produção de usinas a biomassa e pequenas centrais hidrelétricas conectadas à rede de distribuição, mecanismo já utilizado em situações pontuais neste ano.
O alerta ocorre poucos dias após o operador determinar um corte de aproximadamente 20 gigawatts (GW) na geração eólica e solar durante a partida entre Brasil e Japão, na segunda-feira (1º). O jogo, disputado às 14h, foi o primeiro da Seleção em horário de expediente, quando a geração solar atinge níveis elevados e parte da atividade industrial e de serviços permanece em funcionamento.
Segundo o ONS, o corte foi provocado pela combinação entre elevada geração distribuída e uma redução acentuada da carga. Em nota, o órgão informou que a medida “se deve à elevada geração distribuída e carga muito reduzida”.
Durante a partida, a carga do SIN caiu cerca de 21%, atingindo 66.515 megawatts médios por volta do intervalo. Logo após o apito final, às 16h02, o movimento se inverteu rapidamente, em apenas uma hora, a demanda aumentou 12.783 MW, volume equivalente ao consumo médio somado de Minas Gerais e Paraná, refletindo a retomada simultânea das atividades econômicas e domésticas.
O diretor-geral do ONS, Marcio Rea, afirmou que grandes eventos esportivos aumentam a complexidade da operação do sistema. “Avaliamos que mais pessoas estarão ligadas na Copa, o que poderá aumentar ainda mais a complexidade da operação. De qualquer maneira, estamos preparados para continuar garantindo o equilíbrio do SIN e o atendimento às demandas da nossa torcida e de toda a sociedade brasileira”, disse.
Interrupções frequentes
A necessidade de reduzir a geração renovável durante os jogos da Copa ocorre em um momento em que o Brasil enfrenta recordes de curtailment — quando usinas deixam de produzir energia por limitações operacionais ou de transmissão.
Em 2025, 20,6% de toda a geração solar e eólica disponível deixou de ser aproveitada, segundo levantamento da Volt Robotics. O desperdício representou perdas superiores a R$ 6 bilhões ao longo do ano.
O problema decorre da rápida expansão da geração renovável, combinada a gargalos na infraestrutura de transmissão e períodos de baixa demanda, que obrigam o operador a limitar a produção mesmo quando há energia disponível.
O comportamento do consumo em grandes eventos já influenciou esse cenário anteriormente. Segundo a Volt Robotics, o maior pico de curtailment registrado em 2025 ocorreu justamente no Dia dos Pais, quando a combinação entre baixa atividade econômica típica de um domingo e elevada geração renovável levou o sistema a registrar um dos maiores volumes de energia descartada do ano.
Para Donato da Silva Filho, diretor-geral da Volt Robotics, o volume desperdiçado evidencia um problema estrutural. “Estamos falando de energia limpa que poderia abastecer casas, indústrias e hospitais, mas que simplesmente foi jogada fora”, afirmou.
Em níveis recordes, os cortes têm comprometido a rentabilidade dos projetos renováveis e ampliado as preocupações com a segurança da operação do sistema elétrico. “Os cortes ocorrem, principalmente, pela manhã porque há um excesso de geração, sobretudo da solar, entre 10h e 11h. Nesse momento, ou não existe carga suficiente para absorver toda essa energia ou o sistema de transmissão não consegue escoá-la”, explicou Donato. Segundo ele, o curtailment no ano passado dividiu-se, praticamente, em duas frentes. “Cerca de 50% dos cortes ocorreram por falta de consumo, o que chamamos de sobreoferta, e os outros 50% por limitações do sistema de transmissão.”



