Médicos orientam sobre como frear doenças inflamatórias intestinais

“Tudo o que eu comia me fazia passar mal, e isso afetou muito a minha saúde e minha rotina. Eu sentia muita dor abdominal e, por conta disso, não conseguia me alimentar direito. Fiquei cada vez mais fraca.” O desabafo é da cerimonialista Maiara Luize dos Santos, 34 anos, diagnosticada com Doença de Crohn em 2017. Durante três anos de investigação, ela enfrentou sintomas severos e o estigma em torno da enfermidade, cujo aumento de casos pode estar relacionado a hábitos modernos, conforme alertam especialistas ouvidos pelo Correio

As doenças inflamatórias intestinais (DIIs) deixaram de ser consideradas raras e, nos últimos anos, a prevalência dessas patologias — que têm como principais representantes a Doença de Crohn e a retocolite ulcerativa — mais que dobrou no Brasil, superando a marca de 100 pacientes a cada 100 mil habitantes. No Distrito Federal, o Crohn foi responsável por 336 internações de 2023 até abril deste ano; a retocolite, 295, segundo dados da Secretaria de Saúde (SES-DF). A identificação das DIIs ocorre mediante exames laboratoriais, endoscópicos e radiológicos.

Enquanto a retocolite limita-se ao intestino grosso (cólon e reto), com inflamação contínua da mucosa intestinal, o Crohn pode acometer todo o trato gastrointestinal (da boca ao ânus), gerando diarreia crônica, dores abdominais, febre e perda de peso.

“Entre os fatores que acreditamos estar relacionados ao aumento da prevalência, estão a crescente industrialização, a ocidentalização da dieta, a poluição ambiental e o uso indiscriminado de medicações, inclusive antibióticos”, explica a gastroenterologista Renata Filardi S. Durante, que atua no ambulatório de DIIs do Instituto Hospital de Base do Distrito Federal (IHBDF) e é presidente da Associação de Gastroenterologia de Brasília.

Estigma

Até o diagnóstico, Maiara enfrentou o ceticismo alheio sobre seus sintomas, estigma comum em pacientes que sofrem com as DIIs. “Muitas pessoas diziam que era psicológico, que eu estava com depressão. Escutar isso enquanto estava sofrendo de verdade me machucava muito”, relembra. “Quando recebi o diagnóstico, senti um alívio enorme. Na época, eu passava mal até bebendo água.”

Essa demora reduz a chamada “janela de oportunidade”. Segundo Renata Filardi, quanto mais precoce for o diagnóstico, idealmente nos primeiros 12 meses, maiores são as chances de conter a inflamação crônica e evitar lesões estruturais irreversíveis, como fístulas e estenoses (estreitamentos intestinais).

Quando Maiara iniciou o tratamento no Hospital Universitário de Brasília (HUB) em 2019, seu quadro era crítico. Com obstrução intestinal crônica e desnutrição grave, seu peso havia despencado para 33 kg. “Eu vi meu corpo literalmente definhar. Além dos desafios físicos da doença, precisei lidar com as mudanças na minha imagem e autoestima”, recorda. 

O coloproctologista Bruno Martins, coordenador do Ambulatório de Cirurgia em DIIs do HUB, explica que casos complexos exigem uma linha de cuidado integral regulada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No HUB, referência no atendimento de DIIs, a assistência une gastroenterologia, coloproctologia, suporte nutricional e um centro de infusão para medicamentos imunobiológicos.

Novos hábitos

Além da abordagem clínica, o controle da doença e a prevenção de novas crises exigem transformações no estilo de vida. O coloproctologista do HUB adverte sobre os gatilhos no cotidiano da população. “Podemos citar como fatores de risco o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, gordurosos e carnes embutidas, bem como a baixa ingestão de frutas, vegetais e alimentos ricos em fibras. Adicionalmente, sedentarismo, baixa qualidade do sono, estresse e ansiedade também podem desencadear ou agravar quadros inflamatórios”, afirma o médico, reforçando que o tabagismo é um dos principais fatores de mau prognóstico.

A readequação de hábitos foi um desafio assumido por Maiara, que retirou o leite da dieta e reduziu a carne vermelha. “Aprendi a reconhecer meus limites e entender o que faz bem ou não para mim. Hoje, minha alimentação continua sendo bastante restrita, mas não deixo de participar de eventos por causa disso. Entendi que a adaptação precisava partir de mim”, comenta. Hoje, a cerimonialista corre meias maratonas e mantém uma rotina ativa. “Depois de tudo o que vivi, correr, trabalhar, treinar e ter autonomia são verdadeiras vitórias.”

Com informações do Correio Braziliense

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