Levantamento expõe padrão de homenagens a policiais investigados em crimes e baixa produção legislativa do parlamentar
Há frases que envelhecem como prova. Em 7 de fevereiro de 2007, durante sessão ordinária na Alerj, o então deputado estadual Flávio Bolsonaro subiu à tribuna e defendeu as milícias sem rodeios: “A milícia nada mais é do que um conjunto de policiais, militares ou não, regidos por uma certa hierarquia e disciplina, buscando, sem dúvida, expurgar do seio da comunidade o que há de pior: os criminosos.”
Ele relativizou abusos como “casos isolados”, falou em benefícios (“eu, por exemplo, gostaria de pagar 20, 30, 40 reais para não ter meu carro furtado”) e criticou a “perseguição” de políticos e entidades de direitos humanos. Não foi um comentário de corredor. Foi discurso oficial, taquigrafado e arquivado.
A fala do pré-candidato à presidência da República pelo PL não é um detalhe. É a lente para ler os 16 anos de mandato dele na Alerj (2003-2018) e os anos no Senado a partir de 2019. O que emerge não é o perfil de um legislador clássico, mas o de um operador político que transformou a Casa em plataforma de reconhecimento simbólico para um setor específico da segurança pública — e que, anos depois, viu parte desse mesmo universo cair em investigações de organização criminosa, milícia, extorsão e homicídio.
A máquina de homenagens na Alerj não é exagero: é dado empírico. Ao longo de quatro legislaturas, Flávio Bolsonaro propôs cerca de 470 moções de louvor, aplausos e congratulações, 16 propostas de Medalha Tiradentes, 4 títulos de Benemérito e apenas 50 projetos normativos (além de 34 indicações, 25 requerimentos e 24 requerimentos de informação). Proporção: quase dez homenagens para cada projeto de lei. E o clube condecorado era claro: policiais militares, bombeiros, policiais civis e integrantes das Forças Armadas.
É nesse ponto que o símbolo encontra o crime. O cruzamento entre homenagens e investigações está documentado em denúncias do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, decisões judiciais e reportagens consistentes. E traz um dado escandaloso: o universo institucional exaltado pelos mandatos de Flávio Bolsonaro coincide, em diversos casos, com o mesmo conjunto de agentes que o Estado, mais tarde, passou a investigar e, em alguns episódios, a condenar.
Criminosos que receberam honrarias de Flávio Bolsonaro
O caso mais emblemático é o de Adriano Magalhães da Nóbrega. Ex-capitão do Bope, recebeu moção de louvor em 2003 e Medalha Tiradentes em 2005 — exaltado por “dedicação, brilhantismo e galhardia” no 16º BPM. Depois, foi apontado pelo MP-RJ como liderança do “Escritório do Crime” e da milícia de Rio das Pedras (Operação Os Intocáveis). Familiares dele trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro; investigações ligaram o nome ao esquema de rachadinha. Adriano morreu em 2020 na Bahia, em operação cercada de controvérsias.
Outro nome central é o do major Ronald Paulo Alves Pereira, homenageado com moção de louvor em 2004 (poucos meses após a chacina da Via Show). Em 25 de fevereiro de 2026, o STF o condenou a 56 anos de prisão por duplo homicídio qualificado (Marielle e Anderson) e tentativa de homicídio (Fernanda Chaves). Segundo a PGR e o relator do STF Alexandre de Moraes, Ronald monitorou a rotina de Marielle e repassou informações aos executores. Ele já respondia pela Operação Os Intocáveis (que investigou a milícia de Rio das Pedras) e pela chacina da Via Show.
A Operação Quarto Elemento expôs outro lote: Flávio Pacca Castello Branco, Bruno Duarte Pinho, Carlos Menezes de Lima e Leonardo Ferreira de Andrade — todos com registros de homenagens de Flávio — foram denunciados por organização criminosa e extorsão. Usavam a farda para cobrar propina de comerciantes e mototaxistas.
A organização criminosa aos olhos de Bolsonaro
Depois de relativizar milícias como “alternativa ao tráfico” em 2007, o filho 01 de Jair Bolsonaro, Flávio, no Senado, apresentou dezenas de proposições legislativas — incluindo projetos de lei, propostas de emenda à Constituição e requerimentos — com forte ênfase no endurecimento penal e no combate a organizações criminosas. No entanto, até abril de 2026, não há registro de lei federal sancionada de sua autoria direta.
Na Assembleia Legislativa fluminense, dos 50 projetos muito pouco virou lei. Nos requerimentos que pediam informações ao governo estadual, dois temas se destacavam: pedidos de informação sobre o Rioprevidência (hoje envolvido em escândalos financeiros) e iniciativas sobre contracepção e planejamento familiar (marcação ideológica conservadora).
Entre as ações legislativas, o que se consolida não é um legado robusto, mas uma identidade política, que construiu honrarias a um setor da segurança pública mesmo quando parte dos homenageados expunha suas zonas mais sombrias. O que resta não é apenas a contabilidade de atos parlamentares. É um retrato político. Não há, necessariamente, crime, ou culpa penal em homenagear quem depois se revelou criminoso. Mas há uma questão ética incontornável. Na política, como na vida, as escolhas revelam mais do que os discursos.
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