Na abertura da Cúpula de Líderes da COP30, em Belém — que inicia as negociações oficiais da Conferência do Clima —, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse esperar que o evento contribua para “empurrar o céu para cima” — em referência a uma crença dos ianomâmis sobre a queda do céu, que simboliza o fim do mundo. Ele disparou críticas à falta de ação climática e disse que é hora de “levar a sério” os alertas feitos pela comunidade científica. Mais tarde, em almoço oferecido aos líderes estrangeiros, o chefe do Executivo lançou oficialmente o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF).
A iniciativa visa financiar medidas de preservação das florestas em países subdesenvolvidos, que deverão seguir metas de redução do desmatamento para acessar os recursos, e é um dos principais anúncios que o Brasil fará durante a Conferência do Clima.
“Pela primeira vez na história, os países do Sul Global terão protagonismo em uma agenda de floresta. O TFFF será um dos principais resultados concretos no espírito de implementação da COP30”, discursou Lula.
O governo brasileiro pretende arrecadar US$ 25 bilhões em investimentos de países soberanos para o fundo, sendo US$ 10 bilhões somente neste ano. Outros US$ 100 bilhões virão de investidores particulares. Até o momento, o Brasil anunciou um aporte inicial da US$ 1 bilhão. A Noruega promete aplicar US$ 3 bilhões; e Portugal, um milhão de euros. O fundo será gerido pelo Banco Mundial.
Mais cedo, na abertura Cúpula, Lula lançou mão de crença indígena para ressaltar a importância de preservar o meio ambiente. “Entre os povos indígenas Yanomami, que habitam a Amazônia, existe a crença de que cabe aos seres humanos sustentar o céu, para que ele não caia sobre a Terra. Essa perspectiva dá a medida da nossa responsabilidade perante o planeta, principalmente diante dos mais vulneráveis. Mas também reconhece que o poder de expandir horizontes está em nossas mãos”, afirmou. “Temos de abraçar um novo modelo de desenvolvimento mais justo, resiliente e de baixo carbono. Espero que esta Cúpula contribua para empurrar o céu para cima”, acrescentou.
Na presença de chefes de Estado e líderes internacionais — como o presidente da França, Emmanuel Macron; o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer; e o príncipe William, da família real britânica —, Lula defendeu ser preciso criar “mapas do caminho” para superar a dependência dos combustíveis fósseis, apesar da postura contraditória de seu governo, ao autorizar a exploração de petróleo na Margem Equatorial a menos de um mês da conferência. “Estou convencido de que, apesar das nossas dificuldades e contradições, precisamos de mapas do caminho para, de forma justa e planejada, reverter o desmatamento, superar a dependência dos combustíveis fósseis e mobilizar os recursos necessários para esses objetivos”, pontuou.
O chefe do Executivo criticou a postura de grupos políticos que divulgam mentiras sobre as mudanças climáticas e seus efeitos. Embora ele não tenha citado nomes, líderes de extrema-direita boicotam a agenda de proteção ambiental. Os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei, por exemplo, nem mesmo enviaram delegações ao evento.
“Em um cenário de insegurança e desconfiança mútua, interesses egoístas imediatos preponderam sobre o bem comum de longo prazo”, declarou.
Mapa do caminho
Ele citou que 2024 foi o primeiro ano em que a temperatura média do planeta ultrapassou 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais, marca considerada como um ponto sem retorno para a ocorrência de eventos climáticos extremos mais frequentes. Também mencionou que, segundo relatório de emissões das Nações Unidas, o planeta pode chegar a um aumento de até 2,5ºC até 2100.
“Segundo o Mapa do Caminho Baku-Belém, as perdas humanas e materiais serão drásticas. Mais de 250 mil pessoas poderão morrer a cada ano. O PIB (Produto Interno Bruto) global pode encolher até 30%. Por isso, a COP30 será a COP da verdade. É o momento de levar a sério os alertas da ciência. É hora de encarar a realidade e decidir se teremos ou não a coragem e a determinação necessárias para transformá-la”, enfatizou.
Além disso, voltou a citar que recursos que deveriam ser usados no combate às mudanças climáticas são utilizados em guerras e conflitos entre países, e que há extremistas que mentem sobre o cenário atual para obter vantagens políticas.
“Forças extremistas fabricam inverdades para obter ganhos eleitorais e aprisionar as gerações futuras a um modelo ultrapassado, que perpetua disparidades sociais e econômicas e degradação ambiental”, afirmou. “Rivalidades estratégicas e conflitos armados desviam a atenção e drenam os recursos que deveriam ser canalizados para o enfrentamento do aquecimento global. Enquanto isso, a janela de oportunidade que temos para agir está se fechando rapidamente”, emendou.
Originalmente publicado em Correio Braziliense
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