Desistência de Ibaneis da corrida ao Senado mexe no cenário político

A renúncia de Ibaneis Rocha (MDB) da pré-candidatura ao Senado mexe com as negociações dos partidos que fazem parte da coligação encabeçada por Celina Leão (PP). Na tarde desta quarta-feira (8/7), ele anunciou que está fora do páreo. “Quero cuidar da minha vida. Já fiz a minha parte, agora é cuidar dos filhos”, afirmou ao Correio. A decisão encerra meses de especulações sobre a candidatura e altera o tabuleiro eleitoral no DF no próximo pleito.

Com a reviravolta, o MDB vai reivindicar outro espaço na chapa majoritária, uma vez que tinha espaço importante com a disputa ao Senado. “O cenário está aberto”, afirma o presidente da Câmara Legislativa, Wellington Luiz (MDB), que é também presidente regional do partido.

Nas negociações em torno da reeleição de Celina, cabe ao Republicanos o cargo de vice. O nome acordado é o do ex-chefe da Casa Civil Gustavo Rocha que se filiou ao partido no ano passado. Pessoa da confiança de Ibaneis, ele conquistou a confiança de Celina. Nos últimos tempos, com o afastamento entre a governadora e Ibaneis, surgiram dúvidas sobre a permanência de Gustavo Rocha na chapa. Mas aliados de Celina garantiam que o entendimento persistia.

Agora, no entanto, novas rodadas de discussões podem esquentar o cenário. O MDB não tem nomes com intenção de disputar o Senado no lugar de Ibaneis. Mas pode surgir um nome para o páreo. Exemplo: o deputado federal Fred Linhares (Republicanos-DF) chegou a ser cotado para a disputa, mas acertou apoio a Ibaneis. Agora o cenário mudou.

A direção nacional do MDB vai reivindicar, segundo integrantes do partido, o espaço proporcional a uma legenda que tem cinco deputados distritais, um deputado federal e um ex-governador.

Ibaneis tomou a decisão de anunciar a renúncia de sua fazenda em Correntes, no Piauí, onde está se preparando para comemorar amanhã o aniversário de 55 anos. Também está organizando um leilão de gado. Ele estava digerindo desde a semana passada notícias sobre quedas nas pesquisas.

Ele vem acompanhando há meses a queda nas intenções de votos. Saiu de uma situação em que era praticamente um senador eleito, para o cenário em que figura em quarto ou quinto colocado, com alto nível de rejeição. 

Sem falar com ninguém no campo político, Ibaneis anunciou a desistência. Não conversou com figuras importantes do MDB e todos foram pegos de surpresa. Não pelo mérito, mas pelo timing. “Seria uma hipocrisia dizer que não esperávamos por isso. Mas não fomos consultados. Esse é o estilo do (ex)-governador. Tomar as decisões sem conversar antes com os aliados”, afirma Wellington. Para pessoas próximas, Ibaneis não deve disputar nenhum cargo nas eleições.

Repercussão

Procurado, o presidente nacional do MDB, o deputado Baleia Rossi não se manifestou e disse que o MDB-DF poderia dar um posicionamento. O líder local do partido, deputado distrital Wellington Luiz, lamentou a decisão do ex-governador e ressaltou o legado de Ibaneis à frente do Governo do Distrito Federal. “Em algum momento, infelizmente, tivemos problemas, e aí o governador certamente entendeu que era o melhor momento para dar uma parada e reorganizar”, declarou.

Nas últimas semanas, a pesquisa Correio/OPINIÃO Inteligência Política, realizada entre 11 e 15 de junho e divulgada no dia 17 de junho, mediu os índices de rejeição dos pré-candidatos ao Senado. Entre os entrevistados que afirmaram conhecer Ibaneis Rocha (72% do eleitorado consultado), 54,6% disseram que não votariam no ex-governador, o maior índice de rejeição entre os nomes avaliados.

No sentido oposto, Michelle Bolsonaro (PL) aparecia na liderança da corrida ao Senado. No cenário consolidado dos dois votos, ela tinha 38,8% das intenções de voto, desempenho que a colocava em posição considerada confortável na disputa. Após rumores de uma possível desistência da ex-primeira-dama, especialistas avaliavam que parte desse eleitorado poderia migrar para outros nomes do mesmo campo político, entre eles Ibaneis Rocha, a deputada federal Bia Kicis (PL-DF) e o desembargador aposentado Sebastião Coelho (Novo). 

O presidente do PT-DF, Guilherme Sigmaringa, atribuiu a desistência de Ibaneis Rocha da disputa ao Senado ao cenário político desfavorável enfrentado pelo ex-governador. Em declaração, o dirigente petista ironizou a justificativa apresentada para a saída da corrida eleitoral e afirmou que a decisão estaria relacionada à perspectiva de derrota nas urnas. “A desculpa é no mínimo inusitada para quem descansou durante oito anos”, afirmou Sigmaringa.

O presidente do PT-DF também fez referência aos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, quando Ibaneis foi afastado temporariamente do cargo por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). “Aliás, lembremos do 8 de janeiro de 2023, quando Ibaneis também estava descansando”, declarou.

Na avaliação do dirigente petista, a desistência não decorre de uma decisão pessoal, mas do cenário eleitoral. “Agora seria derrotado na eleição e por isso desistiu da candidatura”, disse Guilherme, ao comentar a saída do ex-governador da disputa por uma das duas vagas do Distrito Federal no Senado Federal. 

Ao Correio, a senadora Leila Barros, pré-candidata à reeleição, atribuiu a desistência ao caso BRB-Master. “Quem acompanha a política do DF sabe que essa desistência não tem a ver com descansar, mas com os escândalos do caso BRB-Master, que aconteceram sob a gestão dele, e que ainda precisam ser esclarecidos”, disse.

Desgaste

A pré-candidatura de Ibaneis vinha sofrendo desgastes desde o escândalo do Banco Master, liquidado no fim do ano passado e cujo dono, o ex-banqueiro, Daniel Vorcaro, foi preso pela Polícia Federal (PF) investigado por fraudes no sistema financeiro, entre outros crimes. O expoente do MDB no DF ficou no centro do furacão, por ter liderado a tentativa de compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB), arrastando o banco estatal para a maior crise econômica e de credibilidade da sua história.

O BRB chegou a comprar um total de R$ 21,9 bilhões títulos do Master. Desse valor, R$ 2,6 bilhões são títulos podres, ou seja, não existiam. Outros R$ 6,2 bilhões são títulos que sugerem alguma fraude ou podem estar supervalorizados, segundo avaliação da nova gestão do BRB. Em 16 de abril deste ano, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, indicado por Ibaneis, foi preso preventivamente na operação Compliance Zero. De acordo com a Polícia Federal, ele teria recebido de Daniel Vorcaro imóveis avaliados em R$ 146 milhões para autorizar as operações do Master.

A crise ganhou novos contornos quando veio à tona um contrato firmado pelo escritório de advocacia fundado por Ibaneis para a cessão de R$ 38,12 milhões em honorários de precatórios a um fundo de investimento ligado à gestora Reag Legal Claims.

Segundo informações divulgadas à época, o contrato foi assinado em maio de 2024 e previa o pagamento de cerca de R$ 10,3 milhões, valor correspondente a aproximadamente 27% do montante original, após um deságio de cerca de 73%. Desse total, R$ 4 milhões foram destinados ao escritório Ibaneis Advocacia e R$ 6,3 milhões ao escritório do advogado Engels Muniz.

As revelações ampliaram o alcance das investigações sobre o caso BRB-Master porque a Reag é alvo de apurações da Polícia Federal nas operações Compliance Zero e Carbono Oculto. De acordo com as investigações, a gestora é suspeita de ter sido utilizada para movimentações financeiras consideradas atípicas e, em outra frente investigativa, de administrar fundos que teriam servido para ocultar recursos ligados ao crime organizado. Até o momento, não há decisão judicial que vincule Ibaneis às irregularidades investigadas.

À época, a defesa de Ibaneis afirmou que  a negociação envolvendo a Reag refere-se à cessão de direitos creditórios oriundos de honorários advocatícios relacionados a uma ação judicial movida contra a União. De acordo com o documento, o contrato foi firmado em 29 de maio de 2024 e teve como objeto créditos decorrentes de um processo iniciado em 2008, que, segundo a defesa, percorreu todas as instâncias do Judiciário, inclusive o Supremo Tribunal Federal (STF).

O escritório afirma que a operação envolveu a cessão da totalidade dos créditos de honorários contratuais, cujo valor de face era de R$ 38.126.581,10. Em razão da negociação, os escritórios Ibaneis Advocacia e Engels Augusto Muniz Sociedade Individual de Advocacia receberam R$ 10,3 milhões, o equivalente a 27% do valor de face dos créditos.

Conforme a nota, o montante foi depositado regularmente em contas bancárias no dia 12 de junho de 2024, sendo R$ 4 milhões destinados ao Ibaneis Advocacia e R$ 6,3 milhões ao escritório de Engels Muniz. A defesa sustenta que, após a conclusão da operação, o Fundo Reag Legal Claims passou a ser o responsável por buscar judicialmente o recebimento dos valores. 

O escritório também argumenta que a cessão de créditos é uma prática comum no mercado jurídico e financeiro. Na nota, afirma que se trata de um “negócio jurídico regular, lícito e reiteradamente praticado no mercado por escritórios de advocacia, credores da Fazenda Pública e instituições financeiras”, mecanismo utilizado para “abreviar o recebimento, com deságio, de valores decorrentes de ações judiciais contra entes públicos”.

Pressão

O caso provocou forte reação no meio político. Na Câmara Legislativa, o PL protocolou um requerimento para instalação da CPI do BRB-Master. Com os três deputados da legenda e os sete parlamentares da oposição, o pedido alcançava o número necessário de 10 assinaturas para a abertura da comissão. Paralelamente, a bancada do PT solicitou à Procuradoria-Geral do Distrito Federal uma auditoria sobre operações envolvendo precatórios, enquanto o PSB-DF apresentou notícia de fato ao Supremo Tribunal Federal pedindo o afastamento do então governador. PSOL e Rede anunciaram um pedido de impeachment, alegando possíveis crimes contra a probidade administrativa, as leis orçamentárias e a correta aplicação de recursos públicos.

A pressão também chegou ao âmbito federal. Os deputados Érika Kokay (PT-DF) e Pedro Uczai (PT-SC) encaminharam à Procuradoria-Geral da República uma notícia de fato pedindo investigação sobre a suposta participação de Ibaneis nas operações entre o BRB e o Banco Master. Os parlamentares solicitaram ainda o bloqueio de bens do ex-governador e defenderam que a PGR requisitasse documentos da Polícia Federal, do Banco Central, do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e do próprio BRB para aprofundar as apurações.

Com informações do Correio Braziliense

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