TaguaCei — Trabalhadores do complexo logístico da Amazon em Santa Maria, no Distrito Federal, denunciaram jornadas prolongadas, dores físicas, falta de assentos para descanso e pressão psicológica no ambiente de trabalho. As situações constam de relatos reunidos pelo Ministério Público do Trabalho no Distrito Federal e Tocantins (MPT-DF/TO), que levou o caso à Justiça. A decisão estabelece medidas para proteger os funcionários e regulamentar as condições de trabalho no local, situado em Santa Maria.
Segundo a denúncia do MPT, funcionários chegavam a permanecer em pé por períodos de 11 a 12 horas, realizando movimentos repetitivos e transportando volumes de até 22 quilos. Os relatos também mencionam mal-estar, dificuldades para utilizar os intervalos de descanso e falta de locais adequados para sentar.
O complexo é operado pela Ceva Logistics. Durante uma fiscalização realizada em março de 2026, foram contabilizados 1.398 trabalhadores no local: 485 contratados diretamente pela empresa e outros 913 vinculados a empresas de trabalho temporário.
O prazo judicial para que a Amazon e a Ceva Logistics adequassem as jornadas e implementassem as pausas terminou na quinta-feira (8). De acordo com a reportagem original do g1, trabalhadores relataram que as mudanças ainda não haviam sido realizadas. O veículo informou que procurou as duas empresas, mas não recebeu resposta até a última atualização da publicação.
Denúncias incluem falta de descanso e pressão psicológica
O procedimento do Ministério Público do Trabalho foi instaurado após denúncias sobre jornadas excessivas e calor intenso no ambiente de trabalho.
Um dos relatos encaminhados ao órgão descreve dificuldades para usufruir dos intervalos para alimentação. Segundo o trabalhador, o deslocamento até o refeitório e as filas reduziam o tempo disponível para comer e descansar.
Outros funcionários afirmaram que não podiam se sentar durante o expediente nem se apoiar nas prateleiras do galpão. Os relatos também mencionam dores físicas entre trabalhadores responsáveis pela coleta de produtos e pela execução de movimentos repetitivos.
As denúncias incluem ainda episódios de mal-estar, reclamações sobre a alimentação fornecida no refeitório e alegações de assédio moral e sexual. Também há questionamentos sobre o pagamento do adicional de periculosidade em uma área que, segundo os relatos, armazena materiais inflamáveis e aerossóis.
Essas informações integram as denúncias reunidas no processo e não devem ser confundidas com conclusões definitivas da Justiça sobre cada episódio relatado.
Convocações durante as folgas
Outro ponto apresentado ao Ministério Público do Trabalho diz respeito à convocação de funcionários para trabalhar nos dias de descanso.
Segundo os relatos, empregados que informavam não poder comparecer eram tratados como pouco comprometidos ou pouco profissionais. Os trabalhadores afirmaram que essa postura provocava constrangimento e pressão psicológica.
As denúncias também mencionam situações em que funcionários chegavam a cumprir quatro dias de trabalho com turnos de até 12 horas, dependendo das convocações e da escala adotada.
O caso está relacionado à discussão sobre direitos trabalhistas, limites da jornada e condições de saúde e segurança nos ambientes profissionais.
O que dizem as empresas no processo
Na ação judicial, a Ceva Logistics argumentou que as escalas de trabalho seguiam um acordo firmado com a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Movimentação de Mercadoria em Geral (Conamm).
O juiz Claudinei da Silva Campos, da Vara do Trabalho do Gama, entendeu, porém, que havia um sindicato representativo da categoria no Distrito Federal e que a entidade já mantinha negociações com a empresa. Por esse motivo, o magistrado considerou que o acordo apresentado não era válido para justificar as escalas questionadas.
A Amazon, por sua vez, afirmou no processo que a operação do complexo foi terceirizada e que a Ceva Logistics tinha autonomia para modificar as jornadas. A empresa também negou ter autorizado as escalas contestadas.
O Ministério Público do Trabalho sustentou que a Amazon participava da gestão do centro logístico e da definição das condições de execução dos serviços.
Procuradas pelo g1 para comentar as denúncias, a Amazon e a Ceva Logistics não haviam respondido até a publicação da reportagem original.
O que determina a Justiça
A decisão, assinada em 17 de setembro, estabeleceu medidas para adequar as condições de trabalho no complexo logístico. Entre as determinações estão:
- Conceder pausas de dez minutos a cada 90 minutos de trabalho em pé;
- Limitar a jornada a oito horas diárias e 44 horas semanais;
- Garantir descanso semanal depois de, no máximo, seis dias consecutivos de trabalho;
- Proibir a convocação de funcionários para trabalhar durante as folgas;
- Assegurar intervalo de uma hora para refeição e de 15 minutos para lanche, com a contagem iniciada somente após as filas dos detectores de metais e o registro de ponto.
O descumprimento das medidas pode resultar em multa de R$ 10 mil por dia, limitada ao total de R$ 200 mil.
O caso envolve questões de saúde e segurança no trabalho e fiscalização das condições oferecidas aos empregados em grandes centros de distribuição. A decisão judicial busca estabelecer limites para as jornadas e garantir pausas e períodos de descanso aos trabalhadores.
Fonte: g1 — Distrito Federal



