Mauro Cid para Moraes: “Só o senhor ficaria preso”

Delator da investigação sobre a tentativa de golpe de Estado, o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens da Presidência, confirmou, nesta segunda-feira, que presenciou o planejamento da trama criminosa para manter o ex-presidente Jair Bolsonaro no poder. No plenário da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), o militar disse que estava nas reuniões para discutir o tema, mas negou participação no plano. As respostas reafirmaram o envolvimento ativo do ex-chefe do Planalto como o líder da organização criminosa — conforme consta na denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

Cid confirmou que Bolsonaro leu e pediu alterações na chamada minuta golpista, com medidas extremas para anular o resultado das eleições presidenciais de 2022. Segundo o ex-ajudante de ordens, o então presidente pediu a retirada do trecho que previa a prisão de várias autoridades, mas manteve a do ministro Alexandre de Moraes, que presidia o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) à época.

“O documento mencionava vários ministros do STF, o presidente do Senado, o presidente da Câmara… eram várias autoridades, tanto do Judiciário quanto do Legislativo”, relatou Cid. De acordo com ele, Bolsonaro “enxugou o conteúdo”. “O presidente recebeu e leu. Ele, de certa forma, enxugou o documento, basicamente retirando as autoridades das prisões. Somente o senhor (Moraes) ficaria como preso. O resto, não”, sustentou Cid diretamente ao relator.

O ex-braço direito de Bolsonaro disse que o documento era composto por duas partes. A primeira listava possíveis interferências do STF e do TSE no governo bolsonarista e no processo eleitoral. A segunda trazia uma fundamentação jurídica com propostas como estado de defesa, estado de sítio, prisão de autoridades, criação de um conselho eleitoral e um comitê de crise para refazer as eleições.

A minuta foi encontrada na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres — também réu na ação penal —, dois dias após os atos golpistas de 8 de janeiro, em Brasília. A intenção era reverter o resultado da eleição que definiu Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como presidente da República.

Segundo o delator, Bolsonaro estava focado em encontrar fraude nas urnas eletrônicas para justificar uma intervenção militar, para convencer os comandantes das Forças Armadas a aderirem ao plano de reverter o resultado das eleições.

Por esse motivo, o ex-chefe do Executivo pressionava o general Paulo Sergio Nogueira, ex-ministro da Defesa, por um relatório duro indicando as possibilidades de fraude nas eleições.

“A grande expectativa era que fosse encontrada uma fraude nas urnas. Com a fraude na urna, poderia convencer os militares, dizendo que a eleição foi fraudada e, talvez, a situação mudasse”, declarou.

Em 2022, Nogueira enviou ao TSE um parecer técnico dizendo que não era possível afirmar que o sistema eletrônico era 100% confiável. Os militares faziam parte da comissão de transparência criada pela própria Corte para fiscalizar o pleito.

Em outra tentativa de descredibilizar o processo eleitoral brasileiro, Bolsonaro se encontrou, no Palácio do Planalto, em agosto do mesmo ano, com o hacker Delgatti Neto — condenado com a deputada foragida Carla Zambelli (PL-SP) por invasão ao sistema do Judiciário. O militar disse que eles conversaram sobre possíveis fraudes nas urnas e que o ex-chefe do Executivo encaminhou o homem para outra reunião com um general.

Cid afirmou que o encontro ocorreu por intermediação de Zambelli. Na ocasião, Bolsonaro questionou se era possível invadir o sistema de votação do TSE. “O único hacker que esteve com o presidente foi o Delgatti Neto. Ele estava levantando as hipóteses e tentando descobrir como poderia acontecer essa fraude”, relatou. 

O militar também confirmou ter recebido dinheiro de Braga Netto e entregou o montante — que disse não saber o valor — para o major Rafael Martins de Oliveira, outro réu no STF.

“O general Braga Netto trouxe uma quantia em dinheiro que eu não sei precisar quanto foi. Recebi e no mesmo dia passei para o major De Oliveira.” Ele ressaltou que o general sabia do plano do Punhal Verde e Amarelo, para prisão e execução de autoridades, entre as quais, Lula, Moraes e o vice Geraldo Alckmin.

Ao confirmar a participação do ex-comandante da Marinha Almir Garnier como incentivador da tentativa de golpe de Estado, Cid classificou o almirante como um dos “mais radicais” entre os chefes das Forças. Segundo ele, o militar teria colocado as tropas “à disposição” de Bolsonaro para a tomada do poder. 

Durante interrogatório, Cid apresentou sinais evidentes de nervosismo. A voz dele falhou com frequência, e ele gaguejou repetidamente, com pausas prolongadas e repetições de sílabas. Segundo os advogados, ele teria se preparado por quatros para a audiência, mas, diante de Bolsonaro e de antigos aliados, não conseguiu disfarçar o desconforto.

Na oitiva desta segunda-feira, o deputado federal Alexandre Ramagem, ex-chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), também foi interrogado. Ele negou ter participado de tentativa de golpe de Estado e o uso político do órgão para beneficiar Bolsonaro. O parlamentar admitiu no STF que não há provas contra as urnas eletrônicas.

O interrogatório será retomado nesta terça-feira, com mais cinco réus: Almir Garnier Santos, Anderson Torres, o general Augusto Heleno, Bolsonaro, Paulo Sérgio Nogueira e Braga Netto.

Consciência tranquila

No intervalo do interrogatório, Bolsonaro minimizou as declarações de Cid. O ex-ajudante de ordens chamou de “bravatas” e de “conversas de bar” algumas das hipóteses levantadas pela investigação.

Questionado por jornalistas sobre o assunto, Bolsonaro minimizou. “O que é bravata? Cascata. E, portanto, bravata é como se diz no quartel: você sai de uma educação física, tem 20 minutos de futebol. Na cantina você resolve os problemas do mundo. Cada um fala uma coisa e resolve o problema do mundo”, disse.

Ele negou as declarações sobre a minuta golpista e disse não haver motivos para condená-lo. “Não tem por que me condenar, eu estou com a consciência tranquila”, frisou.

Com informações do Correio Braziliense

Quer ficar por dentro do que acontece em Taguatinga, Ceilândia e região? Siga o perfil do TaguaCei no Instagram, no Facebook, no Youtube, no Twitter, e no Tik Tok.

Faça uma denúncia ou sugira uma reportagem sobre Ceilândia, Taguatinga, Sol Nascente/Pôr do Sol e região por meio dos nossos números de WhatsApp: (61) 9 9916-4008 / (61) 9 9825-6604.

  • Isenção do IR tem aprovação histórica na Câmara

    Isenção do IR tem aprovação histórica na Câmara

    Em votação unânime, deputados avalizam benefício para quem ganha até R$ 5 mil e taxa super-ricos. Texto segue agora para o Senado Depois de quase sete meses de tramitação, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil foi aprovada pelo plenário da Câmara, nesta quarta-feira à noite, por unanimidade: 493…

  • Motta aciona Itamaraty após Israel deter deputada em flotilha para Gaza

    Motta aciona Itamaraty após Israel deter deputada em flotilha para Gaza

    Luizianne Lins (PT-CE) estava com outros brasileiros em barco interceptado pela Marinha de Israel ao tentar levar ajuda humanitária para a Faixa de Gaza O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), declarou nesta quarta-feira (1º/10) que acionou o Ministério das Relações Exteriores assim que soube da detenção da deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) pela Marinha de…

  • Governo descarta novo Concurso Unificado em 2026a

    Governo descarta novo Concurso Unificado em 2026a

    Em entrevista ao programa Bom dia, Ministra, Esther Dweck afirmou que, para o próximo ano, está prevista a convocação de excedentes de outros concursos em andamento Às vésperas da realização das provas da segunda edição do Concurso Público Nacional Unificado (CPNU), no próximo domingo, a ministra da Gestão e Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck,…

  • Quem pode ser responsabilizado nos casos de intoxicação por metanol

    Quem pode ser responsabilizado nos casos de intoxicação por metanol

    Especialistas apontam que toda a cadeia de fornecimento de bebidas pode ser responsabilizada por intoxicações por metanol, com sanções cíveis e criminais que vão de indenizações a penas de prisão Casos de intoxicação por metanol após o consumo de bebidas alcoólicas no estado de São Paulo têm gerado preocupação em todo o país. A substância…

  • Policiais penais do DF são alvo de operação que apura fraude em concurso

    Policiais penais do DF são alvo de operação que apura fraude em concurso

    Cinco pessoas foram presas na manhã desta quinta-feira (2/10) em operação da Polícia Civil do DF A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) deflagrou, na manhã desta quinta-feira (2/10), a terceira fase da operação Reação em Cadeia, que investiga fraudes no concurso da Polícia Penal do DF. A ofensiva foi conduzida pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco/Decor)…

  • Bets, jatinhos e suspeitas: negócios de Willer Tomaz entram no radar da PF por relações com Flávio Bolsonaro

    Bets, jatinhos e suspeitas: negócios de Willer Tomaz entram no radar da PF por relações com Flávio Bolsonaro

    TaguaCei — O advogado e empresário Willer Tomaz, amigo do senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), está no centro de apurações sobre movimentações bilionárias em plataformas de apostas, suspeitas de lavagem de dinheiro e possíveis vínculos financeiros com o parlamentar. Segundo reportagem da CartaCapital, documentos analisados pela Polícia Federal (PF) indicam…

  • Lula desafia Flávio Bolsonaro a abrir sigilos e promete defender políticas sociais em caminhada no Maranhão

    Lula desafia Flávio Bolsonaro a abrir sigilos e promete defender políticas sociais em caminhada no Maranhão

    TaguaCei — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a desafiar o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) a abrir seus sigilos bancário, fiscal e telefônico durante uma caminhada realizada nesta terça-feira (20), no Centro Histórico de São Luís, no Maranhão. Diante de uma multidão, Lula afirmou estar disposto a revelar…

  • Lula sanciona programa com perdão de dívidas e novo teto para MEIs

    Lula sanciona programa com perdão de dívidas e novo teto para MEIs

    TaguaCei — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prevê sancionar nesta quarta-feira (21) a lei do Prospera MEI, programa que reúne medidas para aliviar dívidas, ampliar o faturamento e facilitar a contratação de funcionários por microempreendedores individuais. A iniciativa prevê perdão de débitos com a União, descontos em dívidas bancárias e aumento gradual…

Quer ficar por dentro do que acontece em Brasília, no Brasil e no mundo? Siga o perfil do TaguaCei no Instagram, no Facebook, no Youtube, no Twitter, e no Tik Tok.

Faça uma denúncia ou sugira uma reportagem sobre Ceilândia, Taguatinga, Sol Nascente/Pôr do Sol e região por meio dos nossos números de WhatsApp: (61) 9 9916-4008 / (61) 9 9825-6604.

Artigos Relacionados:
Compartilhar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *