O avanço do período de estiagem no Distrito Federal em julho, aliado à queda brusca da umidade do ar, que nessa quinta (9/7) registrou 25%, impacta a produção agrícola da região. Solo mais seco e culturas sensíveis ao clima frio sofrem no campo — e o resultado pode chegar às feiras e supermercados. Alguns hortifrutis e grãos ficam mais caros, com produtores apontando possíveis altas nas próximas semanas.
O fenômeno climático conhecido como El Niño, causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, costuma provocar chuvas mais escassas durante o inverno. Neste ano, meteorologistas classificam o episódio como “super El Niño”, pela intensidade acima da média histórica. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o inverno mais quente no Sul, Sudeste e em parte do Centro-Oeste pode atrasar o início da próxima estação chuvosa — um problema que preocupa, já que os reservatórios do Sudeste enfrentam dificuldades neste momento, de acordo com o Inpe. Caso a estiagem persista, o cenário pode se agravar ainda mais no próximo ano, ampliando os riscos para a produção agrícola e o abastecimento.
Enquanto comprava em um supermercado na Asa Norte, a dona de casa Cleni Neves, 79 anos, disse que percebeu aumento nos preços de alguns produtos de hortifruti recentemente. “Tem aumentado, principalmente as verduras. Eu me organizo para comprar em promoção, mas deixo de lado se o preço está abusivo”, conta.
O inverno no DF costuma provocar mudanças nos preços, e isso traz diferentes desafios para os produtores de alimentos da região. O agricultor Leonel Rodrigues, 33, produz alimentos orgânicos em Padre Bernardo, no Entorno do Distrito Federal, há 20 anos. Ele conta que este ano tem sido desafiador para o produtor orgânico: “Especialmente aqui, as condições climáticas são complicadas. O milho, a mandioca e o inhame sofrem (na seca), pois exigem irrigação por mais tempo.” Esses alimentos sobem de preço na venda, pois não são adaptados à estiagem.
Leonel aponta que os gastos com irrigação e energia ficam maiores neste período em sua propriedade, mas que não impactam no preço de venda imediatamente, pelo tabelamento dos valores. Ele relembra que, em 2015, sua produção foi afetada pela baixa umidade e níveis de água, e perdeu volume no plantio. O produtor demonstra preocupação: “Com as mudanças climáticas, não temos mais data específica de quando vai começar e parar de chover. Agora em junho, choveu e precisamos cuidar dos estragos que a chuva causou em tomates e morangos que estavam em campo aberto”, aponta.
Riscos
Para o extensionista rural da Emater-DF Antônio Dantas, o maior risco atual é para culturas que não são bem adaptadas a temperaturas mais baixas, como o quiabo, maxixe e chuchu. Ele afirma que esses alimentos podem sofrer aumento nos valores em mercados e feiras.
O especialista explica, também, que os produtores são afetados pelo alto custo com irrigação nesta época do ano: “Como impacta os agricultores, muitos estão investindo em energia fotovoltaica”. Ele pontua que os gastos a mais, por si só, não alteram os preços: “Isso é ditado pelo mercado. Nesta época, temos maior oferta de produtos e redução na demanda. No frio, as pessoas tendem a consumir menos hortaliças”.
Fernando Cabral, chefe de informações da Ceasa-DF, alega que o fator água é o mais importante: “A seca constante tem um poder de estrago maior que o frio”. Ele explica que, se um produtor não tem condições de complementar a irrigação neste período, tende a reduzir a produtividade. Um exemplo disso é a falta de safras recentes de batata próximas da capital. Em decorrência disso, o alimento precisa chegar a Brasília de regiões mais distantes. O custo do frete, por consequência, tem aumentado o preço do vegetal. Segundo ele, porém, não há previsão de desabastecimento de nenhum produto por conta da estiagem.
A estudante Isadora Santos, 21 anos, compra suas hortaliças, legumes e frutas na mesma feira desde 2018. Ela conta que percebeu aumento nos preços de alguns produtos no último mês, como no pacote de maçãs. “Eu costumo comprar 6 maçãs por R$ 15. Na última compra, notei que estava quase R$ 20. Optei por comprar mexericas, que estão na estação e mais baratas”, disse.
Jair Prediger, presidente da Associação Brasiliense de Supermercados, indica que um grande impacto da estiagem é a produção de leite. Com o pasto mais ralo, é necessário alimentar os animais com silagem e ração. A quantidade de leite produzido diminui, aumentando o custo. O presidente explica que esse acontecimento é cíclico e que o setor já se prepara para isso: “Com a estiagem, o preço do leite sobe. É natural. Quando chove, o pasto aumenta e as vacas dão mais leite, e aí o valor diminui.”
A Associação também alerta que os grãos estão entre os mais sensíveis à estiagem. Segundo Jair, a soja já registra alta de quase 30% no valor da saca desde o início do período seco — um aumento que tende a se refletir em outros produtos derivados, como o óleo, pressionando a cadeia de preços.
Apesar dos alertas da agência oceânica e atmosférica norte-americana (NOAA) sobre o Super El Niño, de que o fenômeno deve ganhar força nos próximos meses, ainda não existem previsões ou protocolos preventivos entre os produtores do Distrito Federal. Para Fernando Cabral, algumas situações climáticas são quase imprevisíveis. “É muito difícil que você consiga se precaver. Em uma condição de seca prolongada, por exemplo, há uma tendência de redução de produtividade e, com isso, uma pressão de preço mesmo.”
Com informações da Agência Brasília



