O presidente Lula enfrenta, neste momento, o cenário de primeiro turno mais apertado entre todas as eleições presidenciais em que saiu vitorioso, segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo com base em série histórica de pesquisas Datafolha realizadas a cerca de seis meses do pleito. O levantamento mais recente, divulgado no sábado (11), mostra Lula com 39% das intenções de voto, contra 35% do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em um quadro de forte polarização e margem estreita.
A pesquisa, registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o código BR-03770/2026, foi realizada entre os dias 7 e 9 de abril, com 2.004 entrevistados de 16 anos ou mais em 137 cidades. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, o que torna o cenário ainda mais sensível e reforça o ambiente de disputa acirrada na corrida presidencial.
Vantagem de Lula encolhe em relação a ciclos anteriores
Na comparação com as eleições anteriores em que Lula venceu, a diferença agora é significativamente menor. Em 2002, quando foi eleito presidente pela primeira vez, Lula tinha, em 9 de abril, dez pontos percentuais de vantagem sobre José Serra, então candidato do PSDB. Em 2006, quando disputou a reeleição, aparecia 17 pontos à frente de Geraldo Alckmin em pesquisa de junho.
Em 2022, já em um contexto de polarização intensa com o bolsonarismo, Lula registrava 48% das intenções de voto em maio.
O cientista político Elias Tavares avalia que a atual diferença tem peso simbólico e revela uma mudança importante no ambiente eleitoral. Segundo ele, “Esses dados são muito simbólicos porque mostram uma redução consistente da margem de liderança em comparação com os ciclos anteriores”.
Na análise de Tavares, o quadro atual reflete um eleitorado mais fragmentado e uma disputa mais competitiva para Lula, que ainda não conseguiu emplacar marcas de governo com forte poder de reconexão popular, como ocorreu com o programa Fome Zero no início dos anos 2000.
Ele afirma: “Em 2002, Lula vinha numa onda de mudança, com discurso novo e expectativa alta. Em 2006, mesmo com o desgaste do mensalão, ainda tinha uma liderança relativamente confortável. Em 2022, apesar da polarização, conseguiu sustentar uma vantagem consistente, muito também porque havia uma rejeição elevada ao Jair Bolsonaro, e o Lula soube ocupar esse espaço como principal contraponto a um governo que enfrentava insatisfação relevante naquele momento”.
Polarização estreita espaço e eleva imprevisibilidade
Para Tavares, a perda de folga obriga Lula a disputar votos de forma contínua, sem margem para erro, em um ambiente no qual a oposição já parte de posição mais consolidada do que em eleições anteriores. Na visão do cientista político, a polarização se tornou mais imediata e reduziu o espaço para crescimento espontâneo do presidente.
Bruno Bolognesi, cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná, também associa o aperto do cenário à polarização. Para ele, esse contexto torna a eleição mais imprevisível e amplia a relevância do chamado voto útil, sobretudo em um país marcado por antagonismos fortes.
Segundo Bolognesi, “É uma eleição em que o voto útil deve imperar de novo, o que é comum em países polarizados como Brasil e Estados Unidos”.
Esse fator pode ser decisivo especialmente num contexto em que o eleitor tende a votar menos por adesão programática e mais para impedir a vitória do adversário. Trata-se de uma lógica que já marcou pleitos recentes e que volta a ganhar centralidade diante da proximidade entre Lula e Flávio Bolsonaro nas simulações de primeiro turno.
Rejeição alta pesa sobre os dois principais nomes
Outro dado relevante do levantamento é o índice de rejeição dos principais pré-candidatos. Lula aparece com 48% de rejeição, enquanto Flávio Bolsonaro tem 46%. A proximidade entre esses números ajuda a explicar por que a disputa se apresenta tão comprimida e sem margem confortável para nenhum dos lados.
Em contraste, nomes como Romeu Zema, governador de Minas Gerais pelo Novo, e Ronaldo Caiado, governador de Goiás pelo PSD, registram rejeição menor, de 17% e 16%, respectivamente. Ainda assim, ambos são menos conhecidos nacionalmente, o que relativiza o peso desses percentuais.
A comparação com 2022 também chama atenção. Naquele ano, Lula oscilava entre 33% e 40% de rejeição, enquanto Jair Bolsonaro aparecia com índices entre 51% e 55%, segundo pesquisas do Datafolha feitas entre maio e outubro. Ou seja, além de liderar com mais folga na intenção de voto, Lula contava com um adversário mais rejeitado — um dado que hoje não se reproduz na mesma intensidade.
Desgaste do governo e dificuldade de ampliar base social
Para Luis Gustavo Teixeira, doutor em ciência política e professor da Unipampa, o cenário mais apertado decorre de um governo desgastado e com dificuldades para ampliar sua base de apoio para além do núcleo tradicional do petismo. Segundo ele, o atual momento revela um processo de desidratação política que afeta a capacidade de Lula de liderar com folga.
Ainda assim, Teixeira avalia que há espaço para mudança ao longo da campanha, especialmente por causa da pouca experiência de Flávio Bolsonaro em cargos do Executivo. O professor lembra um episódio da trajetória eleitoral do senador no Rio de Janeiro e sustenta que esse histórico ainda pode ter peso.
Ele diz: “Enfrentar um processo eleitoral não é fácil, basta lembrar, por exemplo, o desmaio de Flávio no debate eleitoral para a prefeitura do Rio de Janeiro”.
Flávio Bolsonaro desmaiou durante um debate transmitido ao vivo em 2016, quando disputava a Prefeitura do Rio de Janeiro. O episódio voltou a circular nas redes sociais desde que ele anunciou sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto. Segundo Teixeira, também poderá pesar sobre o senador o escrutínio relacionado a acusações de corrupção, num ambiente de campanha em que a exposição pública tende a ser permanente e intensa.
Indecisos e votos em branco podem definir o rumo da eleição
Outro elemento apontado pelos especialistas é o peso ainda elevado dos eleitores indecisos e dos votos em branco. Em disputas apertadas, esse contingente pode ser decisivo para alterar a configuração da corrida e definir o rumo do primeiro turno.
Antonio Lavareda, cientista político e sociólogo do Ipespe, afirma que Lula pode até ser ultrapassado em caso de agravamento econômico ou ampliação de escândalos. Segundo ele, o problema mais delicado para o presidente está nas projeções de segundo turno, em que o petista aparece em empate técnico com os adversários testados pelo Datafolha.
Lavareda sustenta que Lula precisa de margem mais confortável para neutralizar o impacto da abstenção entre os eleitores mais pobres, parcela social na qual costuma concentrar maior apoio. Nas palavras do cientista político, o presidente necessita de “uma gordura estatística de três ou quatro pontos de margem, por conta da abstenção diferenciada no seu caso, devido à concentração de seus votos na base da pirâmide social, onde está a maioria dos ausentes das urnas”.
Direita aparece mais fragmentada, mas Lula não divide votos à esquerda
Luciana Chong, diretora-geral do Datafolha, observa que o cenário atual também se diferencia do de 2002 porque Lula tem hoje menor vantagem mesmo sem enfrentar dispersão relevante no campo da esquerda. Naquele ano, havia outros nomes competitivos nesse espectro, como Anthony Garotinho e Ciro Gomes, o que fragmentava parte do eleitorado considerado mais próximo do campo progressista.
Agora, a dispersão está majoritariamente na direita. Além de Flávio Bolsonaro, aparecem pré-candidatos como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e outros nomes de menor expressão nacional. Segundo Chong, o comportamento desse eleitorado ainda será fundamental para compreender a dinâmica da disputa.
Ela afirma: “Vamos ter que observar o comportamento dos eleitores que hoje estão votando nos pré-candidatos de direita [fora Flávio Bolsonaro], que somados têm 13% das intenções de voto”.
Ao mesmo tempo, a diretora do instituto aponta que Lula ainda pode se beneficiar da força da máquina pública e da visibilidade do cargo. Historicamente, candidatos à reeleição tendem a melhorar sua avaliação conforme a campanha avança, sobretudo quando conseguem transformar a agenda de governo em ativo eleitoral.
Disputa aberta e ambiente desafiador para Lula
O quadro desenhado pela pesquisa de abril de 2026 indica uma eleição mais dura para Lula do que aquelas em que venceu anteriormente. A dianteira mais estreita, a rejeição elevada, a consolidação precoce da oposição e a persistência da polarização ajudam a explicar por que o presidente entra na pré-campanha em condição menos confortável do que nos ciclos de 2002, 2006 e 2022.
Embora siga na liderança, Lula enfrenta um ambiente eleitoral mais hostil e sem folga estatística expressiva. A depender da evolução da economia, da capacidade do governo de recuperar apoio popular e da dinâmica da direita em torno de Flávio Bolsonaro, a disputa poderá seguir aberta por muitos meses — com maior peso para o voto útil, para os indecisos e para a capacidade de cada candidatura resistir ao desgaste de uma campanha longa e altamente polarizada.
Com informações do portal 247
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