Ciúme e machismo mantêm o ciclo da violência contra a mulher

Levantamento inédito ouviu homens condenados por feminicídio e revelou como os estereótipos de gênero ajudam a perpetuar violência

Ser uma mulher “pra frente”, “arranjar barraco” ou manter amizade com mulheres solteiras são comportamentos considerados reprováveis por homens condenados por feminicídio. O ciúme, a traição e a defesa da honra aparecem entre os gatilhos citados pelos agressores para o cometimento dos crimes. As constatações fazem parte do Panorama da Violência Contra as Mulheres no Distrito Federal, lançado ontem. O estudo, feito pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do DF (IPEDF), em parceria com a Secretaria da Mulher, traz um retrato inédito sobre as diferentes formas de violência de gênero e os fatores que contribuem para sua perpetuação. 

A pesquisa teve dois objetivos centrais: mensurar a violência contra a mulher no DF e compreender as motivações de homens condenados por feminicídio contra parceiras. O levantamento entrevistou 5.093 pessoas em diferentes regiões do Distrito Federal. Destas, 1.541 mulheres responderam a um questionário detalhado sobre experiências de violência. Paralelamente, 39 homens condenados por feminicídio participaram, de forma voluntária, de entrevistas realizadas dentro do sistema prisional.

De acordo com a governadora Celina Leão (PP), a pesquisa surgiu da necessidade de produzir dados oficiais capazes de orientar políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero. “A institucionalização de pesquisas públicas dá um caminho, um rumo do que está acontecendo e de como enfrentar esse desafio”, afirmou. Para garantir a continuidade do levantamento, ela anunciou que assinará um decreto institucionalizando a pesquisa, que passará a ser realizada a cada dois anos na capital federal.

A governadora cobrou o desmantelamento das estruturas machistas que alimentam o crime no DF: “Não é a roupa da mulher que vai definir quem ela é, não é a vida pessoal dela que vai definir quem ela é. A ‘honra’ masculina tem contribuído para matar as nossas mulheres”.

O presidente do IPEDF, Manoel Clementino, destacou que uma das inovações do levantamento foi ampliar as formas de identificação da violência e incluir 28 tipificações previstas na Lei Maria da Penha. Segundo ele, a metodologia buscou captar situações que nem sempre são reconhecidas como violência pelas vítimas ou pelos próprios agressores. “Nem sempre o homem que pratica a violência reconhece, nem sempre a mulher que sofre a violência se sente à vontade para dizer que sofreu uma violência. Então, foram criados mecanismos dentro do instrumento de pesquisa para fazer essa identificação”, detalhou. 

Clementino reforçou que compreender as motivações dos crimes é fundamental para a formulação de políticas públicas voltadas não apenas à proteção das mulheres, mas também à prevenção da violência. “Esses ambientes traumáticos e violentos contribuem para a reprodução do comportamento futuro dos agressores. São fatores que precisam ser trabalhados na cultura de formação dos homens para que não resultem em violência no futuro”, ressaltou.

Sobrevivência

Alice* (nome fictício), 57, viveu anos de violência doméstica antes de conseguir romper o ciclo de agressões. “Eu reconhecia a violência, mas não tinha força para sair e também não tinha conhecimento sobre o comportamento narcisista. Achava que ele ia mudar”, relatou. A vítima contou que sofreu diferentes formas de violência ao longo dos anos, mas que a psicológica foi a mais difícil de identificar. “A violência psicológica te deixa imobilizada, incapaz, desmotivada, com um sentimento de inferioridade. Só fui perceber o quanto ela me afetou quando saí das mãos do agressor”, afirmou.

As agressões começaram ainda na adolescência, quando ela tinha 13 anos, e se prolongaram até os 21. Alice relatou episódios de espancamento, perseguição, ameaças de morte e tentativas de homicídio. “No namoro ele já me batia por ciúmes. Depois de casados, quis me matar. Eu acordava sendo amordaçada e, outras vezes, sufocada com um travesseiro. Vivia roxa dos socos que levava no rosto e nos ouvidos”, recordou. Em um dos episódios mais graves, o agressor disparou contra ela após uma discussão. “Eu estava dentro do carro quando ele sacou a arma e atirou. Fui atingida no ombro e no pulso. Nesse dia ele foi preso”, contou.

A sobrevivente afirmou que só conseguiu romper o silêncio após ser baleada e que a prisão do agressor foi decisiva para interromper as violências. Hoje, ela atua na conscientização sobre o enfrentamento ao feminicídio e incentiva outras mulheres a buscarem independência e ajuda especializada. “Só saí do silêncio quando fui alvejada por um tiro, e o ciclo só foi rompido quando o agressor foi preso”, disse. Como conselho para outras vítimas, ela é enfática: “Denuncie, estude, se profissionalize, pense no seu futuro e nunca volte para o agressor, porque tudo vai se repetir novamente”.

Estereótipos

O estudo ouviu homens e mulheres sobre estereótipos de gênero inclusos em ditados populares. O resultado revelou que tanto mulheres quanto homens concordam e reproduzem pensamentos preconceituosos relacionados às mulheres. Segundo a pesquisa, 34,9% dos entrevistados concordam que mulher é o sexo frágil; 33,3% acreditam que “tem mulher que é para casar e tem mulher que é para a cama”; 26,5% acham que “mulher de malandro gosta de apanhar”; 25,2% concordam que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”; e 9,3% repetem que “mulher no volante é perigo constante”. 

“Quando a gente fala dessa afirmação, ‘toda mulher é um pouco histérica’, no global, 35,4% concordam. Só que os homens concordam, para essa afirmação, 8,8% a mais. Na segunda afirmação, ‘mulher é o sexo frágil’, os homens concordam 18% a mais. E na afirmação ‘tem mulher que é para casar, tem mulher que é para cama’, os homens concordam 21,6% a mais”, detalhou a diretora de estudos e políticas sociais do IPEDF, Marcela Machado. 

Ainda segundo a pesquisa, 14,1% das mulheres dizem que medo ou vergonha foram decisivos para não procurar ajuda da polícia após sofrerem violência. Para Patrícia Zapponi, advogada especialista em violência de gênero e presidente da rede de proteção à vítima de violência contra a mulher Laço Branco, na maioria das vezes, a mulher que é assassinada nunca denunciou a violência: “O feminicídio nada mais é do que uma somatória, uma explosão de uma coleção de agressões”.

Janaína Penalva, professora da faculdade de direito da Universidade de Brasília (UnB), explicou que as razões que levam uma mulher a não procurar ajuda da polícia são inúmeras. “O que elas dizem normalmente é ouvido com desconfiança, seja porque não é a primeira vez que ela sofre alguma violência, seja porque ela foi à delegacia e depois voltou atrás, porque não há um reconhecimento verdadeiro da violência”, destacou. 

Segundo a professora, as mulheres têm mais dificuldade de se estabelecerem enquanto sujeitos de direito. Ou seja, cidadãs que devem ser respeitadas em sua autonomia e integridade, objetiva e subjetiva. “Em muitos territórios, em especial nos mais vulneráveis, a polícia está presente de forma também violenta. Em geral, não há confiança no sistema policial na sociedade brasileira”, pontuou. 

Segundo a pesquisa, os tipos mais frequentes de violência são: moral (62,6%), psicológica (61,5%) , patrimonial (39,6%), física (39,6%) e sexual (35,4%). “A violência psicológica está muito relacionada com o auto-reconhecimento, se reconhecer como alguém que não está num lugar, na sociedade, que não tem valor. Ao não reconhecer a violência psicológica, as mulheres estão apenas reagindo ao fato de que nunca foi possível para elas se auto-reconhecerem como alguém que merece respeito”, alertou a professora. 

A advogada Patrícia apontou que é necessário que se fale “exaustivamente” sobre misoginia, que é um problema de todas as pessoas: “Qualquer violência que ocorra dentro do lar vai reverberar no trabalho, na escola, na igreja.” Para ela, a violência é democrática: a mulher que sofre pode ser de qualquer classe social ou raça, apesar de que é necessário que se faça um recorte: as mulheres negras passam por agressões relacionadas à gênero e racialidade. 

Dados da pesquisa

  • 77,6% das mulheres ouvidas já sofreram algum tipo de violência ao longo da vida
  • Os três tipos mais frequentes de violência: moral (62,6%), psicológica (61,5%) , patrimonial (39,6%), física (39,6% ) e sexual (35,4%) 
  • 93,5% das vítimas sentem alguma consequência da violência, entre elas depressão ou tristeza, ansiedade ou estresse, medo, raiva, baixa autoestima ou sentimento de vulnerabilidade 
  • 58,3% das mulheres que relataram ter passado por violência, disseram que filhos ou enteados presenciaram
  • 14,1% das mulheres dizem que medo ou vergonha foram decisivos para não procurar ajuda da polícia após sofrerem violência
  • 5.093 pessoas foram ouvidas, sendo 2.221 homens 
  • 39 homens presos por feminicídio deram entrevistas mais detalhadas

 *Estagiária sob supervisão de Eduardo Pinho

Quer ficar por dentro do que acontece em Brasília, no Brasil e no mundo? Siga o perfil do TaguaCei no Instagram, no Facebook, no Youtube, no Twitter, e no Tik Tok.

Faça uma denúncia ou sugira uma reportagem sobre Ceilândia, Taguatinga, Sol Nascente/Pôr do Sol e região por meio dos nossos números de WhatsApp: (61) 9 9916-4008 / (61) 9 9825-6604.

Artigos Relacionados:
Compartilhar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *