A fim de recuperar terreno perdido pela concorrência, empresa anuncia plataforma de inteligência artificial conversacional. Plano é competir com OpenAI e Nvidia
A Apple anunciou durante a WWDC (Worldwide Developers Conference) 2026, na última semana, uma ampla reformulação da Siri, que passa a se chamar Siri AI e deixa de atuar apenas como uma assistente controlada por voz para se tornar uma plataforma de inteligência artificial conversacional. A versão beta da novidade será disponibilizada ainda este ano.
Com a atualização, a Siri passa a competir diretamente com ferramentas como ChatGPT, Claude e Gemini. Além de responder perguntas, a assistente será capaz de manter conversas contínuas, criar planos detalhados, participar de sessões de brainstorming e fornecer feedback sobre documentos. A Apple também lançará um aplicativo dedicado para a nova plataforma.
A atualização faz parte de uma estratégia mais ampla de integração da inteligência artificial ao ecossistema da Apple. No MacOS, a Siri AI foi incorporada ao Spotlight, permitindo que os usuários encontrem informações e acionem a assistente de qualquer lugar do sistema. Já no WatchOS, a ferramenta poderá ser utilizada diretamente pelo Apple Watch para responder perguntas e executar ações sem a necessidade de recorrer ao iPhone.
Uma das principais atualizações é a chamada “consciência de tela”. A Siri AI poderá acessar informações exibidas no dispositivo e utilizá-las como contexto para responder às solicitações dos usuários. A assistente também contará com conhecimento atualizado sobre acontecimentos e informações gerais, ampliando sua capacidade de interação.
A interface foi redesenhada para os modelos mais recentes de iPhone e passa a funcionar diretamente pela Dynamic Island. Em vez do tradicional efeito luminoso na tela, a Siri exibirá novas animações e apresentará respostas por meio de cartões de texto. Os usuários poderão ativá-la por comando de voz, utilizando “Hey Siri”, pelo botão lateral do aparelho ou iniciando conversas por texto diretamente na Dynamic Island.
A experiência de voz também recebeu melhorias. Os usuários poderão personalizar a velocidade e a expressividade da fala da Siri, enquanto o sistema de ditado foi aprimorado para oferecer maior precisão na identificação de palavras, pontuação e uso de letras maiúsculas.
Nova estratégia
As mudanças ocorrem também em um contexto de forte pressão para que a Apple redefina sua estratégia e recupere o terreno perdido na corrida da Inteligência Artificial. A empresa historicamente foi focada em hardware premium e no processamento local de dados para defender a privacidade dos usuários, a empresa acabou ficando em desvantagem e demorou a reagir frente ao avanço rápido de concorrentes como Google, Microsoft e Meta.
Enquanto a Apple manteve uma abordagem cautelosa, focada no processamento local em dispositivos para garantir a privacidade dos usuários, a Microsoft, das empresas tradicionais, assumiu a vanguarda da inteligência artificial ao integrar rapidamente a tecnologia da OpenAI (criadora do ChatGPT) em seus softwares e produtos de produtividade.
Além da Microsoft, a Apple também foi desbancada pela Nvidia, o que representou a mudança no centro de gravidade do mundo da tecnologia, que passou a ser focada em em IA. A Nvidia atingiu o topo do mercado financeiro mundial ao fornecer seus chips e processadores gráficos (GPUs) que representam o monopólio de processamento de IA, necessária para construir, treinar e rodar os grandes modelos de linguagem que alimentam a inteligência artificial atual.
Esse atraso para investir em IA fez com que a empresa que liderava o ranking das empresas listadas na bolsa de valores ficasse cerca de US$ 600 bilhões atrás da líder Nvidia.
Massificação
Para o professor do Uniceplac e mestre em tecnologia Pedro Manoel Ribeiro Rosa, os anúncios apresentados durante a WWDC 2026 representam uma tentativa clara da Apple de recuperar espaço em um setor que passou a ser dominado por concorrentes nos últimos anos.
Segundo o especialista, entre 2022 e 2025, a empresa assistiu ao avanço acelerado de companhias como OpenAI, Google e Microsoft, que assumiram a liderança da inteligência artificial generativa, enquanto a Siri permaneceu praticamente sem grandes evoluções. “A reformulação da Siri, a expansão da Apple Intelligence e a nomeação de John Ternus para liderar a próxima fase da empresa são sinais de que a companhia busca recuperar o tempo perdido”, afirma.
Na avaliação de Rosa, os impactos da nova estratégia não devem ser percebidos imediatamente pelo mercado, mas podem se tornar significativos ao longo dos próximos anos. “O verdadeiro impacto está na integração da IA ao sistema operacional. Dificilmente alguém abandonará o ChatGPT ou o Gemini apenas porque atualizou o iPhone. Mas, se a inteligência artificial estiver presente de forma natural no uso diário dos dispositivos, milhões de pessoas passarão a utilizá-la sem sequer perceber”, explica.
“Historicamente, a Apple raramente vence por ser a primeira. Ela vence quando transforma uma tecnologia existente em algo simples e massificado. Se a nova Siri realmente funcionar como prometido, a empresa poderá fazer com a inteligência artificial o mesmo que fez com essas categorias de produtos”, avalia.
Rosa também relembra que a trajetória da Apple na inteligência artificial começou de forma promissora com o lançamento da Siri, em 2011. No entanto, a tecnologia foi tratada durante anos como um recurso complementar, enquanto a companhia priorizava áreas como privacidade, desenvolvimento de chips próprios e processamento local de dados.
Com a popularização do ChatGPT a partir de 2022, a empresa passou a ser vista como uma das gigantes da tecnologia que mais demoraram a reagir ao avanço da inteligência artificial generativa. Agora, segundo o professor, a estratégia é integrar a IA em todo o ecossistema da marca.
Na avaliação de Dhiego Soares, empresário do setor de tecnologia e presidente do Global Tech Institute, a atual disputa em torno da inteligência artificial pode ser comparada a um dos momentos mais decisivos da história recente da internet. Segundo ele, o embate entre grandes empresas do setor repete, em nova escala, a chamada “guerra dos navegadores”, travada no fim dos anos 1990.
*Estagiário sob a supervisão de Carlos Alexandre de Souza
Com informações do Correio Braziliense



