TaguaCei — O mural improvisado na sala de L.S., 41 anos, reúne fotografias da filha, M.S., e se tornou uma forma de manter viva a memória da jovem. Entre as imagens, está também a lembrança de um dos maiores vínculos que restaram à família: o neto de 4 anos, filho de M.S., que passou a ser criado pela avó depois que a mãe foi vítima de feminicídio. “A gente não veio ao mundo para enterrar nossos filhos”, desabafa L.S. Ao olhar para o menino, porém, encontra traços que considera semelhantes aos da filha. “Esse menino é a cara dela. Até o jeito é o mesmo.”
M.S. tinha 19 anos quando foi abusada e assassinada pelo próprio pai, em Planaltina. Natural do interior de Minas Gerais, a jovem havia se mudado para o Distrito Federal em busca de melhores oportunidades e queria estudar. Ela foi morar com o pai, mas a convivência era marcada por conflitos. Em setembro de 2025, entrou para as estatísticas de feminicídio no DF, que registrou 29 casos naquele ano.
Na época, o filho de M.S. tinha 3 anos. Depois da morte da mãe, ele passou a viver definitivamente com a avó, em um vilarejo de Buritis, em Minas Gerais.
“Como um pai ‘dá a vida’, ajuda a criar e tira do mundo? Essa é a maior covardia que alguém pode fazer. Ainda não consigo entender”, afirma L.S. Desde então, ela assumiu praticamente todas as tarefas relacionadas ao neto: alimentação, acompanhamento escolar, brincadeiras, medicamentos, passeios e rotina de sono.
Durante a conversa com a reportagem, ela ajudava o menino nas atividades escolares. “Mostra para a tia que você já conhece as letras do alfabeto”, dizia, orgulhosa.
A história de L.S. se repete em muitas famílias atingidas pelo feminicídio. Quando uma mulher é assassinada, os filhos deixados para trás frequentemente passam a ser cuidados por outras mulheres da família. Dados da Secretaria da Mulher do Distrito Federal (SMDF) mostram que sete em cada 10 órfãos do feminicídio atendidos pelo programa Acolher Eles e Elas são criados por mulheres da própria família.
Avós, tias, irmãs, primas e outras parentes somam 114 dos 161 casos acompanhados pelo programa. As avós representam, sozinhas, quase 43% dos responsáveis pelos cuidados.
“O feminicídio não mata apenas a mãe. Ele transfere a criação dos filhos para outra mulher da mesma família, quase sempre uma geração acima, que assume o cuidado em condições que não escolheu e sem preparo prévio”, explica Mayara Souza, da Subsecretaria de Enfrentamento à Violência contra a Mulher da SMDF.
Entre 2015 e setembro de 2026, o feminicídio deixou 503 órfãos no Distrito Federal. Desses, 65,2% eram menores de idade quando o crime ocorreu.
Para o neto de L.S., as fotografias da mãe ajudam a preservar a memória dela. Ao observar uma imagem em que M.S. aparece grávida, o menino aponta e diz: “Naquela foto, eu estava na barriga da mamãe”.
Segundo a avó, ele costuma olhar as fotografias espalhadas pela casa, mas ainda faz poucas perguntas. “Fala que a mãe é uma estrelinha e que vai voltar. Eu concordo. Em algum tempo e espaço, vamos nos reencontrar”, afirma L.S.
Mulheres que se tornam cuidadoras
Depois do feminicídio da filha, L.S. foi procurada pelo projeto Amparar, do Núcleo de Atenção às Vítimas (Nuav), do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). A iniciativa oferece atendimento psicológico e jurídico a vítimas indiretas de crimes violentos, além de sobreviventes de tentativas de feminicídio.
O objetivo é garantir direitos e oferecer acolhimento às famílias que precisam reorganizar a vida depois de uma tragédia.
“Nosso primeiro cuidado é proporcionar um espaço de escuta seguro em que possam expressar como têm vivido não apenas o luto, mas toda a desestruturação familiar decorrente do crime”, explica Ana Júlia Luizon, psicóloga formada pela Universidade de Brasília (UnB) e residente no Nuav.
A equipe também identifica direitos que muitas vezes as próprias famílias desconhecem e trabalha para garantir proteção integral às vítimas indiretas.
Segundo a psicóloga, muitas dessas famílias já enfrentavam situações de vulnerabilidade social antes do feminicídio, marcadas por questões de gênero, raça e classe. Com a morte da mulher, essas dificuldades podem se aprofundar.
Em alguns casos, por exemplo, a família precisa mudar de endereço. Nesses momentos, o MPDFT pode atuar em conjunto com a Secretaria de Educação para garantir que as crianças continuem tendo acesso à escola.
Ana Júlia explica que muitas das mulheres que assumem a guarda já exerciam funções de cuidadoras dentro da família. Por isso, costumam colocar as necessidades dos outros acima das próprias.
“Foram socializadas para o cuidado, para o maternar. Costumam chegar ao atendimento falando mais de outros familiares do que de si mesmas e dos seus sofrimentos. Então, trabalhamos para que elas consigam olhar também para suas próprias necessidades”, afirma.
No caso de L.S., a violência doméstica também fez parte da história vivida por ela e pela filha.
“Hoje, digo para todas: ‘Se ele ousar levantar a mão para você, vá embora’”, relata.
A responsabilidade pelo neto se transformou em uma das principais razões para continuar. Ela conta que chegou a ser informada de que o pai da criança poderia tentar obter a guarda judicialmente.
“Vou lutar por ele. Esse menino é minha vida e não vou perdê-lo jamais”, afirma.
“Deus chamou”
M.P., 56 anos, também precisou reconstruir a própria vida depois de perder a filha, I.P., de 36 anos. Hoje, ela mora sozinha com quatro netos: um casal de gêmeos de 11 anos, um menino de 9 e uma menina de 8.
A família recebe acompanhamento do projeto Amparar. Há um ano, M.P. convive diariamente com a ausência da filha.
“Cuidar das crianças é trabalhoso, mas não é mais difícil que perder uma filha. Essa dor não passa”, afirma.
Os cinco vivem em um apartamento de um quarto, na Asa Norte. Alimentação, educação e saúde estão entre as principais prioridades. “Vivemos no aperto, mas não falta o básico. Agora, estão até fazendo tratamento dentário”, conta.
I.P. enfrentava há anos problemas relacionados à dependência química. Segundo a mãe, viveu períodos de recuperação e recaídas. Apesar das dificuldades, estudava enfermagem e trabalhava.
Durante uma recaída, foi atraída para uma emboscada por um homem e posteriormente assassinada. Na época, estava grávida.
M.P. decidiu não esconder das crianças as circunstâncias da morte da mãe.
“Disse que Deus chamou a mamãe para morar com Ele e que ficaríamos apenas na saudade. Expliquei que a tiraram de nós e me perguntaram se foi feminicídio. Assenti”, relata.
A avó afirma que os netos têm contato frequente com notícias sobre violência e, por isso, conseguem compreender algumas situações. Ela também conversa com eles sobre prevenção e segurança.
“Converso sobre tudo. Oriento para que fiquem atentos a possíveis situações de abuso e os fiz decorar os telefones mais importantes para pedirem ajuda quando necessário”, diz.
Para Ana Júlia Luizon, a maneira de explicar a morte deve respeitar a idade e a capacidade de compreensão da criança.
“É preciso permitir que a criança participe desse momento de luto e não fique no vazio. Deve-se garantir que essa informação seja transmitida de forma acolhedora e segura”, orienta.
Além do Amparar, os netos de M.P. também são acompanhados pelo programa Acolher Eles e Elas.
Atendimento às famílias
O programa da Secretaria da Mulher funciona em rede e busca reduzir a burocracia para que o atendimento chegue às famílias. A inclusão pode ocorrer por procura espontânea ou por encaminhamento da Polícia Civil, que comunica à SMDF quando identifica filhos de mulheres vítimas de feminicídio.
Também são realizadas ações de busca ativa e visitas aos domicílios.
De acordo com Mayara Souza, entre as principais dúvidas das responsáveis estão questões relacionadas à guarda e à tutela. Nesses casos, a SMDF articula o atendimento com a Defensoria Pública do Distrito Federal.
Um dos desafios é localizar órfãos de crimes ocorridos antes da criação do programa, em 2023. Mudanças de endereço e telefone dificultam a localização dessas famílias.
O acompanhamento escolar também é realizado de forma contínua, por meio da comprovação de matrícula e de ações conjuntas com a Secretaria de Educação quando são identificadas situações que exigem maior atenção.
A difícil ressignificação do luto
Mesmo mantendo uma relação próxima com os netos, M.P. evita compartilhar com as crianças algumas das próprias dores.
“Querendo ou não, fico sobrecarregada e sinto necessidade de falar sobre isso com um adulto. Compartilhar essas dores com as crianças pode fazê-las se sentirem um fardo em minha vida. E isso não é verdade. Eles são tudo para mim”, afirma.
Para Ana Júlia, cada família encontra uma maneira própria de elaborar a perda. O processo envolve reorganizar a rotina e construir novas formas de conviver com uma ausência que permanece presente.
“A reorganização da rotina e a ressignificação do sofrimento levam tempo e se sustentam no fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários, com uma rede de apoio que torne isso possível”, explica.
As crianças também carregam a memória da mãe. Revisitam fotografias, lembram histórias e falam sobre os momentos vividos ao lado dela.
“Não choram. Só sentem saudade”, conta M.P.
No cotidiano, a família tenta criar novas memórias. Assistem a filmes, passeiam no parque e jogam bola.
“É amor, não é?”, resume a avó.
Onde buscar ajuda
Projeto Amparar — MPDFT
Oferece acolhimento multidisciplinar, orientação jurídica e acompanhamento psicológico para vítimas indiretas de crimes violentos. O atendimento pode ser solicitado por meio de formulário on-line no site do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios.
Programa Acolher Eles e Elas — SMDF
Oferece auxílio financeiro mensal e acompanhamento psicossocial aos órfãos do feminicídio. A inclusão pode ocorrer por encaminhamento da Polícia Civil, busca ativa da Secretaria da Mulher ou procura espontânea da família nas unidades de atendimento.
A responsabilidade que recai sobre as mulheres
Para Ingrid Martins, advogada, mestre e doutoranda em Direito pela UnB e especialista em direitos humanos e violência contra as mulheres, a concentração da responsabilidade sobre as mulheres está relacionada à divisão sexual do trabalho.
Segundo ela, quando uma mãe é assassinada, a responsabilidade pelo cuidado dos filhos geralmente é transferida para outra mulher da família, principalmente a avó materna.
O impacto também é econômico. A necessidade de cuidar das crianças pode fazer com que uma responsável deixe o trabalho ou reduza sua renda, ao mesmo tempo em que aumentam as despesas com alimentação, saúde, educação e acompanhamento psicológico.
Para a especialista, o feminicídio também produz consequências que podem atravessar gerações, reduzindo oportunidades de estudo, trabalho e mobilidade social.
Ingrid defende ainda que essas famílias sejam tratadas como titulares de direitos e não como beneficiárias de ações baseadas apenas na solidariedade.
“Comoção é passageira; direito exige resposta permanente do Estado”, afirma. Para ela, a responsabilidade do poder público não termina com a prisão do agressor, especialmente quando houve falha na prevenção da violência.
Para preservar as famílias, a reportagem utilizou apenas as iniciais dos nomes das entrevistadas.
Fonte: Correio Braziliense
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Nota de transparência: Esta reportagem foi produzida com o auxílio de inteligência artificial para organização e aprimoramento do texto, passando por revisão, checagem e edição humana antes de sua publicação.



