Chuvas marcam a aproximação da temporada do pequi no Distrito Federal

O produtor agrícola Joel Luiz cultiva 250 pés de pequizeiro em uma propriedade na Cooperativa Nova Campuã, em São Sebastião, no Distrito Federal.
Foto: Ed Alves/CB/DA Press

TaguaCei — A chegada das primeiras chuvas ao Distrito Federal, entre o fim de setembro e outubro, anuncia a aproximação de uma das épocas mais aguardadas no Cerrado: a temporada do pequi. Conhecido popularmente como “chuva do pequi”, o período marca a transição entre a seca e o início das precipitações, fase importante para o florescimento do pequizeiro e o desenvolvimento dos frutos.

A relação entre as mudanças climáticas e o ciclo da planta faz parte dos conhecimentos tradicionais das comunidades do Cerrado. De acordo com Helenice Moura Gonçalves, doutora em agronomia e pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o pequizeiro passa por alterações fisiológicas durante a estiagem, incluindo a perda de folhas, como forma de enfrentar a escassez de água.

“Em muitas regiões, o florescimento começa no final da estação seca, e a chegada das chuvas coincide com uma fase importante do desenvolvimento reprodutivo, favorecendo o crescimento dos frutos”, explica a pesquisadora.

Segundo Helenice, o conhecimento popular e a ciência se complementam na observação dos ciclos da natureza. A tradição também está presente na história de agricultores que cultivam o fruto no DF, mantendo práticas que atravessam gerações.

Cultivo do pequi carrega história familiar

Em Brazlândia, o engenheiro agrônomo Matheus de Andrade Destro, de 29 anos, mantém uma produção de pequi que começou há mais de três décadas, a partir de sementes trazidas pelo pai, Nelson César Destro, que trabalhou na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

Durante mais de dez anos de trabalho em terras indígenas, Nelson teve contato com lideranças do povo Kayapó, na região do Xingu. Ao retornar ao Distrito Federal, trouxe 25 sementes recebidas de integrantes da Aldeia Piaraçu.

“Mais de 30 anos depois, essas sementes deram origem a árvores que hoje produzem frutos, e colhemos até os frutos dos netos daquelas primeiras plantas”, conta Matheus.

O agrônomo também recorda uma frase do líder indígena Bedjai sobre a importância do cultivo do pequizeiro: “O pequi é coisa para sempre, onde se planta, nunca acaba”.

Para a safra deste ano, a expectativa do produtor é colher até duas toneladas do fruto. Ele e o pai acompanham todas as etapas da produção, desde a preparação de mudas enxertadas até o congelamento da polpa.

Durante o início da temporada, a colheita ocorre duas vezes por semana. No período de maior produção, o trabalho passa a ser diário. Os frutos que apresentam imperfeições também são aproveitados: a polpa é retirada, enquanto as sementes podem ser utilizadas como porta-enxertos para novas plantas.

Apesar da produção local, parte dos pequis comercializados no Distrito Federal ainda vem de regiões mais quentes do Norte do país, enquanto os cultivos brasilienses ampliam gradualmente sua capacidade produtiva.

Variedade sem espinhos amplia alternativas de cultivo

A produção de pequi apresenta variações entre os anos, fenômeno conhecido como bienalidade e comum em espécies frutíferas perenes. Para oferecer novas alternativas aos agricultores, a Embrapa lançou cultivares de pequizeiro sem espinhos.

De acordo com Helenice, essas variedades têm origem em mutações naturais identificadas em regiões do Xingu e do Tocantins. O trabalho de pesquisa consiste em reproduzir e selecionar esses materiais, ampliando as opções disponíveis para o cultivo.

A produção comercial pode complementar o extrativismo tradicional e gerar renda para agricultores, além de contribuir para diminuir a pressão sobre as populações nativas da espécie.

Chuvas são decisivas para a produção no DF

Em São Sebastião, o agricultor Joel Luiz, de 72 anos, conhecido como Bigode, cultiva 250 pés de pequi na Cooperativa Nova Campuã. Natural de São José do Xingu, em Mato Grosso, ele aprendeu a lidar com o fruto por meio da experiência familiar na agricultura.

Como a plantação não conta com irrigação, o desenvolvimento dos frutos depende diretamente das condições climáticas. Por isso, o produtor acompanha o tempo e observa a chegada das chuvas, especialmente durante a floração.

“Demorou para chover. Quando flora e está sol demais, seca mais rápido. O pequi não é irrigado, por conta do gasto com água, mas a chuva, quando vem, ajuda muito”, relata.

A falta de precipitação nessa fase pode comprometer a formação dos frutos. “Se não chover, em vez de germinar, faz é secar. É o clima, não é? Não tem muito o que fazer”, avalia o agricultor.

A expectativa de Joel é começar a colher e vender a produção em dezembro. Ele comercializa os pequis na própria chácara e recebe encomendas de clientes do Distrito Federal e de Goiás.

A preocupação dos agricultores com a estiagem também é apontada pela pesquisa agronômica. Segundo Helenice, períodos prolongados sem chuva podem prejudicar o desenvolvimento das flores e provocar a queda dos frutos antes da maturação, reduzindo a produtividade.

Coleta sustentável ajuda a preservar o Cerrado

Além das condições climáticas, os cuidados durante a colheita são importantes para garantir a continuidade da produção e preservar o meio ambiente. A orientação da pesquisadora é priorizar os frutos que caem naturalmente no chão, respeitando o período de maturação.

Também é necessário evitar a retirada de toda a produção de uma mesma área. Parte dos frutos deve permanecer disponível para a alimentação dos animais e para a regeneração natural da espécie.

Outras medidas incluem não quebrar galhos durante a coleta e proteger os pequizeiros contra incêndios, que representam uma ameaça à vegetação do Cerrado.

A espécie também está presente em áreas urbanas do Distrito Federal, incluindo o Parque da Cidade e quadras residenciais. Mesmo em ambientes com asfalto, solo compactado e iluminação artificial, o pequizeiro mantém sua importância ecológica.

Para Helenice, a preservação dessas árvores contribui para a biodiversidade e ajuda a manter viva a identidade do Cerrado na capital federal.

A temporada do pequi, portanto, representa não apenas uma oportunidade de renda para os produtores, mas também a continuidade de tradições culturais e práticas de preservação de um dos frutos mais emblemáticos do bioma.

Fonte: Correio Braziliense

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