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‘Corpo da paz’ é destaque em exibição no Festival de Brasília nesta terça (16/9)

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Filme do paraibano Torquato Joel, coloca na tela a relação tensa entre Brasil e Estados Unidos sob o pano de fundo da guerra fria

Brasil e Estados Unidos, com passado de serem irmanados, despontam no longa paraibano Corpo da paz, de Torquato Joel, atração de hoje na competitiva do festival. Visualmente, o filme bebe das imagens de David Halliday (inspiração para o fotógrafo Rodolpho de Barros). Em tom sépia, as imagens remeteram às amareladas fotografias da família de Torquato, dono de infância rememorada em preto e branco. Corpo da paz, para além da “curuba” (regionalismo para escabiose, a sarna) resgata diretas memórias de Torquato. “Lembro bem que, eventualmente, minha mãe preparava um almoço para recepção de um novo pesquisador recém-chegado ao DNOCS (Centro de Pesquisas do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca). O centro encerrava uma bolha de fartura diante da pobreza que o circundava. Ao redor, sobreviviam pequenos agricultores, muitos meeiros, que tinham o algodão mocó como principal fonte de renda”, explica.

Filmado desde 2019, o longa foi finalizado, agora, com recursos aprovados pela Lei Paulo Gustavo. Na trama, no sertão paraibano dos anos de 1960, o garoto Teobaldo (Giovanni Sousa) trava contato com Greg (Vinicius Guedes), pesquisador americano recém-chegado à região. Entre ambos, há Gentil (Alex Oliveira), elemento do receptivo ao estrangeiro, que o diretor adianta “ser uma expressão emblemática do fenômeno social do viralatismo”. “É um filme minimalista e de sutilezas, principalmente por conta da repressão na época em que as falas eram à boca miúda”, avalia. Num contraponto, o premiado diretor do curta Passadouro (1999) reforça que o imperialismo não é questão de hoje — “contudo, diferentemente do período da Guerra Fria, eles escancaram agora as pretensões de sempre, sem nenhum pudor”.Play Video

Na “gama plural de cinematografias” em que bebeu, o paraibano de Sousa aponta nomes de Vladimir Carvalho e Linduarte Noronha (de Aruanda). “Ambos foram referência a toda uma geração que pensava cinema em termos das questões sociais”, diz.

Ex-estudante de engenharia e jornalista (nunca posto em campo), o artista de Transubstancial (curta sobre Augusto dos Anjos), por anos viveu “enfurnado nas salas de cinema”. Cioso de um cinema que equilibre simplicidade, “sem perder a profundidade”, Torquato vibra com os jovens interioranos que fazem curtas sob olhares singulares, embalados por dicas dele na Paraíba e no Rio Grande do Norte.

Em Brasília, há 26 anos, o curta Passadouro rendeu ótima surpresa de reconhecimento. “Diante da imensa plateia do Cine Brasília, lembro que eu travei; sequer consegui dizer uma palavra no palco”. No novo filme, a inconformidade (com o estado das coisas), brota da ótica de uma criança. “Há sincronicidade na exibição do filme. Corpo da paz é sobre soberania em duas instâncias: soberania de um povo em seu território e soberania sobre seu próprio corpo, o território mais sagrado, pessoal e intransferível”, adianta.

Com informações do Correio Braziliense

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