Investigação aponta que mais de US$ 12 milhões foram enviados ao exterior, mas apenas US$ 2,8 milhões retornaram ao Brasil; dinheiro passou por fundo ligado a advogado do deputado cassado Eduardo Bolsonaro
247 – A Polícia Federal identificou uma divergência considerada “severa” entre os valores transferidos ao exterior e os recursos que ingressaram no Brasil para financiar o filme “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre o ex-mandatário Jair Bolsonaro (PL). Segundo os investigadores, mais de US$ 12 milhões foram enviados a um fundo nos Estados Unidos, enquanto apenas US$ 2,8 milhões tiveram entrada registrada no país. A diferença, superior a US$ 9,2 milhões, levou a corporação a aprofundar as apurações sobre o destino do dinheiro e a possibilidade de utilização do projeto cinematográfico para encobrir movimentações financeiras irregulares.
As informações, segundo o G1, constam em documentos apresentados pela Polícia Federal para justificar a prorrogação da investigação. De acordo com a reportagem, os recursos partiram da Entre Investimentos, empresa ligada ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e foram direcionados ao fundo estadunidense Havengate, administrado por Paulo Calixto, advogado do ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro.
A principal questão examinada pelos investigadores é se os valores transferidos foram efetivamente empregados na produção do longa-metragem ou se a realização do filme foi utilizada para justificar operações financeiras com outras finalidades.
Em um dos documentos, a Polícia Federal sustenta que o projeto pode ter “servido como narrativa de cobertura para a ocultação, simulação e desvio de recursos”.
A corporação considera necessário aprofundar a análise dos registros financeiros para identificar a destinação dos valores e verificar a correspondência entre as transferências internacionais e as despesas efetivamente realizadas.
“Torna-se, portanto, indispensável submeter todo o acervo documental e bancário a um rigoroso exame pericial forense para confrontar os aportes internacionais, a contabilidade da produtora brasileira e o lastro das despesas declaradas”, afirma a Polícia Federal.
Produtora declarou custo de R$ 75,1 milhões
A investigação também examina os valores apresentados pela Go UP Entertainment, empresa responsável pela realização de “Dark Horse”.
Em junho deste ano, a produtora informou que o longa-metragem teve um custo de pelo menos R$ 75,1 milhões. A declaração consta de um documento incorporado ao inquérito da Polícia Civil que investiga a empresária Karina Ferreira da Gama, proprietária da companhia.
Segundo os registros apresentados, aproximadamente R$ 54 milhões foram gastos no exterior, enquanto R$ 20,9 milhões corresponderam a despesas realizadas no Brasil.
Os números passaram a integrar o material analisado pela Polícia Federal, que pretende confrontar os custos declarados com os registros bancários, os contratos e as transferências internacionais relacionadas à produção.
A diferença entre os valores remetidos ao exterior e aqueles que retornaram ao país é um dos pontos centrais da apuração. Os investigadores buscam esclarecer se os recursos permaneceram fora do Brasil para custear despesas efetivas da produção ou se tiveram outras destinações.
Em manifestação sobre o caso, a defesa da Go UP Entertainment afirmou que “a perícia irá revelar a lisura e legalidade de todas as captações do financiamento desta obra extraordinária em apoio a esta iniciativa histórica de minha cliente GO UP”.
PF apura repasses de Vorcaro e possível financiamento de Eduardo Bolsonaro
As investigações abrangem outras movimentações financeiras relacionadas ao projeto cinematográfico e a integrantes da família Bolsonaro.
Uma das linhas de apuração examina repasses realizados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a pedido do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Outra procura esclarecer se parte dos recursos movimentados por meio do fundo Havengate pode ter sido utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro durante sua permanência nos Estados Unidos.
A Polícia Federal também investiga a destinação de emendas parlamentares encaminhadas a organizações relacionadas à proprietária da produtora responsável pelo longa-metragem.
Eduardo Bolsonaro negou ter recebido dinheiro de um fundo ligado a Vorcaro. Segundo ele, sua condição migratória nos Estados Unidos não permitiria esse tipo de transferência. O ex-deputado também afirmou que comunicou às autoridades estadunidenses a origem dos recursos utilizados por ele.
No mesmo período em que vieram a público informações sobre as movimentações financeiras, foi divulgado um contrato no qual Eduardo Bolsonaro aparecia como produtor-executivo de “Dark Horse”.
A investigação busca estabelecer se existe relação entre as transferências internacionais, o financiamento da produção cinematográfica e eventuais despesas de pessoas vinculadas ao projeto.
Flávio Dino conduz investigação sobre emendas parlamentares
Paralelamente, outra investigação, sob responsabilidade do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), examina o direcionamento de recursos públicos a organizações relacionadas a Karina Ferreira da Gama.
Entre as entidades investigadas estão o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC), ambas presididas pela empresária.
A apuração procura esclarecer a destinação das emendas parlamentares e verificar a regularidade da aplicação dos recursos encaminhados às organizações.
A Go UP Entertainment, responsável pela produção de “Dark Horse”, não foi alvo dos mandados de busca realizados nessa investigação.
O deputado Mario Frias (PL-SP), que participa do projeto como roteirista e produtor-executivo, apresentou esclarecimentos ao STF em maio. Na ocasião, afirmou que as emendas destinadas às entidades não foram utilizadas para financiar o longa-metragem.



