A vida de quem depende do transporte coletivo para se deslocar entre o Entorno e o Distrito Federal pode ficar mais cara a partir de sábado (23/8). Cerca de 380 mil trabalhadores que fazem o trajeto diariamente podem ser afetados pelo reajuste de 2,91% nas passagens, autorizado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). O aumento estava suspenso desde fevereiro, após pressão dos governos do DF e de Goiás.
Na Rodoviária do Plano Piloto, onde as filas longas e o sol forte fazem parte da rotina, a notícia foi recebida com indignação. A diarista Reneide de Souza, 56 anos, moradora de Valparaíso I, gasta R$ 7,70 por viagem. “É um absurdo esse aumento. A gente trabalha em Brasília, paga caro, e nem circular tem onde eu moro”, reclamou.
A diarista Reneide de Souza pega quatro conduções por dia(foto: Bruna Gaston CB/DA Press)
O peso no orçamento já é sentido por quem precisa pegar mais de uma condução. As faxineiras Rita de Cássia Silva e Maria Margarida de Paula, que moram em Águas Lindas de Goiás (GO), gastam, juntas, cerca de R$ 32 por dia, apenas com transporte. “São quatro ônibus todo dia, ida e volta. Mais de R$ 500 do salário vai só para isso”, lamentaram.
Para o pedreiro José Marques, 54, que sai da Cidade Ocidental (GO) para trabalhar na construção civil no Plano Piloto, a queixa vai além do preço. “Gasto por volta de R$ 130 por mês, mas pago caro para voltar em pé. Venho cansado do trabalho e ainda tem lotação e demora”, relatou.
José Marques reclama dos ônibus caros e em péssimas condições(foto: Bruna Gaston CB/DA Press)
Impasse
Em fevereiro, o reajuste havia sido suspenso por seis meses, prazo para que fosse implementado o Consórcio Interfederativo DF-Goiás-União, anunciado pelo governador Ibaneis Rocha (MDB) e pelo governador em exercício Daniel Vilela (MDB). A proposta era subsidiar tarifas e criar uma gestão integrada para melhorar a qualidade do transporte, afirma a Secretaria de Estado do Entorno do DF.
O secretário de Transporte e Mobilidade do DF, Zeno Gonçalves, reforça que a situação depende de decisão federal. “Concluímos o protocolo de intenções e a lei de criação do consórcio, mas estamos aguardando a União. Quando a tarifa aumenta, aumenta o vale-transporte, e muitos trabalhadores podem perder o emprego. Por isso, estamos tentando dialogar com a ANTT para tentar concluir a questão do consórcio”, ressaltou.
Em nota, a ANTT afirmou que a suspensão do aumento atendeu ao pedido do Ministério dos Transportes. Quanto ao prazo do reajuste da tarifa, a agência ressaltou que o tema está em avaliação. “A ANTT informa que o tema está em avaliação pela Diretoria Colegiada e o prazo vai até 23 de agosto de 2025”, informou.
O governo de Goiás se manifestou contra o reajuste. Segundo nota, o impacto é “significativo e desigual”, já que encarece o custo direto para os usuários e pode desestimular a contratação de trabalhadores residentes no estado. “O aumento não deve ser aplicado até que se conclua a negociação do Consórcio Interfederativo DF-Goiás-União, justamente para criar um modelo mais justo de gestão, qualidade e subsídio tarifário. O governo entende que o reajuste agrava um serviço já precário e amplia desigualdades sociais”, avaliou.
O subsecretário de políticas para cidades e transporte da SGG, Miguel Angelo Pricinote, e o secretário do Entorno do DF, Pábio Mossoró, reforçam a cobrança à União. “Em fevereiro, o governador em exercício, Daniel Vilela, ao lado do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, anunciaram a intenção de criar o Consórcio Interfederativo para gestão do transporte semiurbano do Entorno. Na mesma ocasião, o governo de Goiás comunicou a decisão oficialmente ao Ministério dos Transportes, por meio do Grupo de Trabalho instituído para o tema.”
Os governos do DF e de Goiás ressaltam que, até o momento, não houve resposta da União. Com isso, afirmam terem tomado medidas. “Diante da ausência de encaminhamentos, em julho o governo de Goiás protocolou novo ofício, desta vez à Casa Civil da Presidência da República. Até agora, não houve manifestação formal do governo federal sobre a adesão da União ao consórcio”, afirmaram.
Procurada pela reportagem, a Casa Civil informou que não irá se manifestar sobre o assunto.
Novos valores
Segundo a Secretaria de Estado do Entorno do DF, com o reajuste de 2,91%, a estimativa é de que as 5 principais linhas passem a custar os seguintes valores:
Águas Lindas–Brasília: de R$ 10,85 para R$ 11,15
Planaltina de Goiás–Plano Piloto: de R$ 11,05 para R$ 11,35
Valparaíso–Brasília: de R$ 8,90 para cerca de R$ 9,15
Luziânia–Plano Piloto: de R$ 12,15 para R$ 12,50
Santo Antônio do Descoberto–Taguatinga: de R$ 9,65 para aproximadamente R$ 9,95
Os números são estimativas com base nos percentuais da ANTT e podem variar conforme a linha.
Com informações do Correio Braziliense
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