A crise na pré-campanha de Flávio Bolsonaro, senador do PL do Rio de Janeiro e pré-candidato à Presidência, fez o parlamentar queimar pontes com agro e evangélicos em crise após o caso Vorcaro afetar mercado, produtores e lideranças religiosas.
Reportagem do jornal O Globo aponta que embora aliados ainda adotem publicamente um tom de cautela, interlocutores admitem que o escândalo interrompeu a aproximação de Flávio com empresários, investidores, produtores rurais e pastores influentes. A campanha avaliava que vinha conseguindo reduzir resistências nesses setores antes da repercussão negativa do caso.
Reação entre evangélicos
Entre lideranças evangélicas, o impacto foi imediato. O áudio em que Flávio cobra dinheiro de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, provocou irritação em parte do segmento, especialmente porque o senador vinha minimizando publicamente sua relação com o banqueiro.
No grupo de WhatsApp “Aliança”, que reúne lideranças evangélicas alinhadas ao bolsonarismo, como Silas Malafaia, Robson Rodovalho, Renê Terra Nova e Estevam Hernandes, o episódio passou a dominar as conversas nos últimos dias.
Segundo relatos, pastores reconheceram a gravidade política da situação, mas decidiram aguardar novos desdobramentos antes de declarar eventual rompimento com a pré-campanha.
O bispo Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, classificou o episódio como um “balde de água fria” na pré-campanha presidencial do senador.
“Foi muito negativo tanto o fato em si, da aproximação com Vorcaro, como a explicação em prestações. Claro que abalou o segmento, mas estamos todos em modo de espera para ver o que é crime e o que é apenas narrativa. Os próximos dias e semanas vão ser importantes”, afirmou.
Malafaia cobra explicações
O pastor Silas Malafaia, próximo à família Bolsonaro, foi um dos primeiros a se manifestar sobre o caso e vem demonstrando descontentamento com a situação.
“A relação de Flávio com evangélicos esfria, sim, se tiver comprovação de que recebeu dinheiro para mais coisa que o filme. Por enquanto, estamos todos com cautela. Se tiver mais coisa, será difícil apoiar; mas, se não tiver, vamos com Flávio”, disse o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo.
Rodovalho afirmou ainda que Michelle Bolsonaro voltou a ganhar força em conversas internas do segmento como possível alternativa, caso a crise envolvendo Flávio se aprofunde.
“Michelle não perderia nada do que já foi conquistado da transferência de votos do Bolsonaro pai. Ela está no partido e é viável, mas vamos esperar o presidente Bolsonaro decidir”, declarou.
A ex-primeira-dama foi questionada publicamente, pela primeira vez, sobre o envolvimento do senador com Vorcaro. Ela evitou opinar e afirmou que o pré-candidato à Presidência é quem deve se posicionar.
Desgaste na Faria Lima
No mercado financeiro, a repercussão do caso dominou conversas durante a Brazil Week, em Nova York, realizada na semana passada. O episódio ampliou dúvidas entre empresários e investidores que vinham enxergando Flávio como o nome mais competitivo da direita para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O desgaste aumentou após a revelação de que o senador também procurou Daniel Vorcaro depois da primeira prisão do banqueiro, quando ele cumpria medidas restritivas em São Paulo.
Nas últimas semanas, o entorno de Flávio vinha intensificando reuniões reservadas com gestores, banqueiros e empresários. O objetivo era apresentar o senador como um bolsonarista menos radical, comprometido com responsabilidade fiscal e previsibilidade econômica.
Com o avanço da crise, auxiliares passaram a defender uma aceleração dos anúncios de propostas econômicas e da agenda pública do senador, em uma tentativa de evitar que a deterioração de sua imagem se consolide no setor financeiro.
Agenda em São Paulo
Foi nesse contexto que Flávio desembarcou novamente em São Paulo para uma agenda voltada a conter o desgaste. O senador participou de um almoço reservado com executivos ligados à Faria Lima e, à noite, reuniu-se com empresários do turismo, hotelaria, aviação e serviços.
A campanha também acompanhou de perto oscilações no mercado, inclusive a alta do dólar, após a primeira revelação do site Intercept Brasil. A partir desse momento, empresários e operadores financeiros passaram a citar com mais frequência alternativas dentro da direita, especialmente o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, do Novo.
Zema já tinha trânsito consolidado no mercado financeiro, em razão de seu perfil empresarial e de seu discurso liberal. Publicamente, porém, ainda não há disposição de aliados para verbalizar movimentos mais bruscos.
O presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, Paulo Skaf, responsável por organizar um encontro de Flávio com empresários há dois meses, evitou antecipar qualquer mudança de posição.
“Está cedo”, afirmou.
Busca por plano B
Entre empresários e parlamentares ligados ao agronegócio, interlocutores dizem que o apoio ao bolsonarismo permanece majoritário. Ainda assim, admitem que cresceu entre parte dos produtores e lideranças rurais o desejo por uma alternativa de direita menos exposta a turbulências políticas.
A resistência ao nome de Flávio já existia antes da crise envolvendo Vorcaro. Desde a desistência do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, da disputa presidencial, parte do setor vinha demonstrando preferência por nomes como Ronaldo Caiado, do PSD, e Romeu Zema.
Ambos são vistos por esses interlocutores como políticos de perfil mais executivo e com maior capacidade de diálogo com o setor produtivo. O caso Master aprofundou esse movimento.
Zema passou a ser observado com mais atenção por segmentos ligados ao discurso liberal e empresarial. Caiado, por sua vez, mantém força junto ao setor rural e segue com forte interlocução com a Frente Parlamentar Agropecuária.
Apesar do desgaste, integrantes da bancada ruralista minimizam a possibilidade de afastamento em relação a Flávio.
“O Vorcaro é tóxico, mas nosso entendimento é que isso é uma marola que passa”, afirmou o deputado Lafayette de Andrada, do PL de Minas Gerais, integrante da Frente Parlamentar Agropecuária.
PL mede impacto da crise
Dirigentes do PL admitem que os próximos dias serão decisivos para avaliar os efeitos políticos do caso. O partido estabeleceu um prazo de 15 dias para medir o impacto da crise e analisar se Flávio Bolsonaro manterá viabilidade eleitoral diante dos novos desdobramentos.
Após ser pressionado por aliados, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, admitiu que havia dado esse prazo. Em seguida, modulou o discurso e afirmou que Flávio tem sua força política “mais sólida do que nunca”.
A crise ocorre em meio a mudanças na equipe de comunicação da pré-campanha. A insatisfação de aliados já havia provocado a saída do publicitário Marcello Lopes, conhecido como Marcellão, que deixou o entorno do senador após uma semana considerada crítica para a imagem do pré-candidato.
Com informações do portal 247
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