Brasileiros trocam de emprego em ritmo recorde e impulsionam rotatividade

247 – O mercado de trabalho brasileiro vive um momento de forte movimentação, com milhões de trabalhadores deixando seus empregos voluntariamente em busca de melhores oportunidades. O fenômeno ocorre em meio à queda do desemprego e ao aquecimento da economia. As informações foram publicadas originalmente pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Um exemplo desse movimento é o da recepcionista bilíngue Vanessa Passos, de 42 anos. Após nove meses em um emprego formal, ela pediu demissão para assumir uma nova função que oferece salário maior, benefícios mais atrativos, melhor plano de saúde, possibilidade de crescimento profissional e um local de trabalho mais próximo de sua residência, na zona leste de São Paulo.

Formada em Gestão de Recursos Humanos e com pós-graduação em Psicologia Organizacional, Vanessa acredita que a mudança poderá abrir portas para futuras promoções. “Minha amiga fez igual e hoje recebe o dobro do que eu vou começar a ganhar agora.”

Pedidos de demissão atingem máxima histórica

A decisão de Vanessa reflete uma tendência observada em todo o país. Levantamento da consultoria 4intelligence, com base em dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), mostra que 9,1 milhões de trabalhadores com carteira assinada pediram demissão nos 12 meses encerrados em abril deste ano.

O número representa o maior volume registrado desde o início da série histórica, iniciada em dezembro de 2004. O cenário é impulsionado por um mercado de trabalho mais favorável aos trabalhadores, que encontram novas vagas com maior facilidade.

Os dados acompanham a queda da taxa de desemprego, que chegou a 5,8% no trimestre encerrado em abril, o menor nível para o período desde o início da série histórica da Pnad Contínua, do IBGE.

Rotatividade supera metade dos trabalhadores formais

Além do recorde de pedidos de demissão, a rotatividade da mão de obra também atingiu patamares inéditos. Segundo o economista Bruno Imaizumi, responsável pelo estudo da 4intelligence, a taxa de rotatividade alcançou 52,6% em abril.

“Um pouco mais da metade dos trabalhadores formais trocaram de emprego em 12 meses”, observa o especialista.

Para Imaizumi, o resultado está diretamente ligado ao aquecimento da economia. Como grande parte dos postos de trabalho disponíveis exige qualificação média ou básica, os trabalhadores conseguem migrar com relativa facilidade para vagas que ofereçam remuneração ou condições mais vantajosas.

Falta de compromisso entre empresas e trabalhadores

O professor sênior da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Hélio Zylberstajn, avalia que a elevada rotatividade tem causas estruturais e conjunturais.

Segundo ele, há um baixo nível de comprometimento entre empresas e empregados no Brasil. “Não existe muito compromisso, não existe muita ética no mercado de trabalho. As empresas não investem nos trabalhadores, porque elas imaginam que eles não vão ficar muito tempo. E os trabalhadores não investem nas empresas pela mesma razão”, afirma.

Na avaliação do especialista, essa dinâmica cria um ciclo que dificulta a construção de vínculos duradouros e favorece trocas frequentes de emprego, especialmente em períodos de expansão econômica.

Jovens e escolarizados lideram mudanças

Em números absolutos, os pedidos de demissão concentram-se principalmente entre trabalhadores com ensino médio e cerca de 40 anos de idade, grupo que representa parcela significativa da força de trabalho nacional.

No entanto, proporcionalmente, os desligamentos voluntários são mais frequentes entre jovens e profissionais com maior nível de escolaridade. Entre os trabalhadores com ensino superior incompleto, a participação dos pedidos de demissão chegou a 43% do total de desligamentos, acima da média geral de 36,7%.

Entre os mais jovens, o destaque ficou para trabalhadores de até 17 anos, cuja participação dos desligamentos voluntários alcançou 44% nos 12 meses até abril.

Setor de serviços concentra forte aumento da rotatividade

O setor de serviços, responsável por 57% dos empregos formais e por cerca de 70% do Produto Interno Bruto (PIB), é um dos segmentos que mais registraram aumento na movimentação de trabalhadores.

Estudo da Fecomercio-SP mostra que a rotatividade no setor passou de 42% em 2021 para 50% neste ano. Ao mesmo tempo, o tempo médio de permanência dos empregados caiu de 25 meses para 18 meses.

O levantamento também aponta crescimento de aproximadamente 80% nas admissões desde 2021, reforçando a percepção de um mercado aquecido, porém mais instável.

Impactos para empresas e economia

Para Bruno de Souza Pinto, assessor econômico da Fecomercio-SP, a elevada rotatividade traz custos relevantes para as empresas e para a economia.

“Para a empresa e para a economia, a alta rotatividade da mão de obra é ruim, porque ela traz custos”, afirma.

Segundo o economista, além das despesas com rescisões, as companhias precisam investir constantemente na contratação e no treinamento de novos funcionários, o que pode reduzir a produtividade.

Zylberstajn compartilha avaliação semelhante. Para ele, quando os trabalhadores permanecem pouco tempo nas empresas, deixam de acumular experiência suficiente para elevar sua produtividade. Como consequência, empresas investem menos em qualificação e os ganhos salariais também ficam limitados. “A produtividade não crescendo, a empresa perde e o trabalhador perde, porque ele poderia ganhar mais se fosse mais produtivo.”

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