Projeto ajuda presos a sair do crime e a entrar no mercado de trabalho

Projeto fundado por ex-detento atua em quatro unidades e, no DF, tem parceria com a Novacap sob a Lei de Execução Penal (LEP)

Durante cinco dias por semana, oito horas por dia, um homem de 56 anos monitorado por tornozeleira eletrônica consegue experimentar uma rotina que, para a maioria das pessoas, parece comum: pegar transporte público, cumprir uma jornada de trabalho, conversar com colegas e sentir o sol no rosto durante o caminho. Para ele, porém, cada expediente representa um passo em direção à liberdade.

Condenado por tráfico de drogas e em sua quarta passagem pelo sistema prisional, Carlos* passou a integrar o Projeto Recomeçar, iniciativa de ressocialização que oferece trabalho, qualificação profissional e acompanhamento psicossocial a pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema penitenciário. Entre as atividades desenvolvidas estão a manutenção de jardins, serviços de serralheria, obras de concretagem e funções de recepção.

Atualmente, a organização atua em quatro unidades da Federação: duas no estado de São Paulo (Ferraz de Vasconcelos e São José do Rio Preto), uma em Recife (PE) e outra no Distrito Federal, onde funciona desde 2021 em parceria com a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), com mais de 300 reeducandos acolhidos.

O Projeto Recomeçar atua na ressocialização de pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema prisional, oferecendo trabalho, qualificação profissional e acompanhamento psicossocial

Ao longo da trajetória, o projeto já atendeu a mais de 120 mil pessoas. Segundo a organização, 4.467 participantes passaram por ações de desenvolvimento, 1.150 tiveram acesso a oportunidades de geração de renda, 3.610 receberam qualificação profissional e 66 ingressaram no ensino superior. O resultado mais expressivo, porém, está na reincidência criminal: enquanto a taxa nacional é de 42,5%, de acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), entre os participantes do programa o índice é de apenas 1%.

“Entrar para o crime é fácil. Sair é que é difícil”, resume Carlos, ao relatar os desafios de abandonar definitivamente o mundo do crime.

Morador de Ceilândia (DF), ele enfrenta diariamente longos deslocamentos de ônibus e metrô para chegar ao trabalho. Casado e pai de cinco filhos, afirma que as dificuldades financeiras tiveram peso em suas escolhas.

“Eu sabia o quanto o trabalho era desvalorizado no país, mas precisava colocar comida dentro de casa. Era dinheiro para sustentar sete pessoas. Acabei buscando um caminho que prometia retorno rápido e fácil. Foi pelo dinheiro”, admite.

Carlos recebe cerca de R$ 1,5 mil por mês pelo trabalho realizado no projeto — valor que, segundo ele, ajuda a sustentar a família e a planejar uma nova vida fora do crime.

Hoje, porém, ele diz enxergar o trabalho de outra forma. “Depois de tantos anos fugindo de ser trabalhador, hoje entendo o valor disso. Enfrento dificuldades todos os dias, mas é um dinheiro limpo. Por meio das oficinas, consegui uma bolsa integral para cursar direito. Agora tenho novos planos de vida”, conta.

Reconstruindo identidades 

A assistente social Giuliana Sidrim, 25 anos, gestora regional do projeto, explica que a preparação vai muito além da oferta de emprego. Segundo ela, muitos participantes deixam o sistema prisional sem documentos, sem referências profissionais e até sem perspectiva de pertencimento social.

“Trabalhamos questões relacionadas à autoestima, identidade, vínculos familiares e projeto de vida. Também oferecemos oficinas sobre elaboração de currículo, comportamento em entrevistas de emprego, simulações de processos seletivos e orientação para emissão de documentos”, explica.

De acordo com Giuliana, um dos maiores desafios é reconstruir a autonomia e o pertencimento social após anos de privação de liberdade. “Muitos saem sem saber por onde começar. Nosso objetivo é devolver ferramentas para que eles consigam reconstruir a própria trajetória e se reconhecer novamente como cidadãos.”

A trajetória de Bruno*, 27 anos, ilustra esse processo de reconstrução. Também condenado por tráfico de drogas, ele relata que teve os primeiros contatos com o sistema socioeducativo ainda na adolescência e passou boa parte da juventude entrando e saindo de instituições de internação e unidades prisionais.

“Eu não sabia mais quem eu era fora da prisão. Não tive tempo de ter uma esposa ou de construir uma família, por exemplo”, conta.

Por meio do acompanhamento individual oferecido pela iniciativa, ele ingressou em um curso técnico em Edificações no Instituto Federal de Brasília (IFB), que deve concluir nos próximos meses. A expectativa é deixar o sistema prisional ainda neste ano já com uma profissão e uma nova perspectiva de futuro.

O papel dos voluntários 

O apoio psicológico é uma das frentes centrais do projeto. Os atendimentos são realizados por voluntários e estagiários das áreas de psicologia, serviço social, pedagogia e direito.

Hadassa Lisboa, 22 anos, cursa psicologia e participa da iniciativa desde abril deste ano por meio de uma parceria com o Centro Universitário de Brasília (Ceub). Segundo ela, os relatos ouvidos durante os atendimentos mostram desafios que vão muito além da busca por emprego.

“Os detentos relatam dificuldades para dormir devido ao barulho constante, com conversas, movimentação intensa e o fechamento das grades. Com frequência, também falam do medo permanente de voltar ao crime e do impacto emocional da rejeição familiar. É um processo que exige uma escolha diária para não retornar a esse caminho”, explica.

Os atendimentos individuais funcionam como sessões terapêuticas e podem se estender ao longo do tempo. Dependendo da necessidade, familiares também recebem acompanhamento.

Interessados em atuar como voluntários devem entrar em contato pelo número (61) 99678-4958.

Fundado por um ex-detento

A história do Projeto Recomeçar está diretamente ligada à trajetória de seu fundador, o paulista Leonardo Moraes Precioso, 40 anos. Muito antes de a iniciativa chegar a Brasília, a ideia começou a ser construída dentro de uma cela.

Leonardo sonhava em ser jogador de futebol profissional e chegou a atuar nas categorias de base de clubes paulistas. O projeto, no entanto, não se concretizou. Dificuldades financeiras e escolhas que ele próprio classifica como equivocadas o levaram ao mundo do crime. Condenado por participação em um sequestro, ele passou mais de sete anos no sistema prisional.

Foi durante o período de reclusão que começou a enxergar novas possibilidades. “Foi na prisão que troquei cartas com o fundador da Gerando Falcões e comecei a perceber que existia um caminho diferente daquele que eu tinha seguido até então”, relembra.

Após conquistar a liberdade, Leonardo passou a atuar em projetos sociais voltados a populações vulneráveis. A experiência o fez perceber que muitos egressos enfrentavam as mesmas barreiras que ele encontrou ao deixar a prisão, especialmente a dificuldade de inserção no mercado de trabalho e de reconstrução da própria trajetória.

“Quando entro em uma unidade prisional hoje, encontro pessoas que viveram histórias muito parecidas com a minha. Eu sei o que é sair dali e encontrar portas fechadas. Por isso, fazemos questão de mostrar que existe vida depois da prisão e que uma oportunidade pode mudar uma trajetória inteira”, afirma.

*Nome fictício para resguardar a real identidade dos entrevistados.

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