Queda histórica no analfabetismo mostra importância das políticas públicas

Pela 1ª vez desde 2016, Brasil tem menos de 5% da população sem saber ler e escrever. Redução leva País a chegar ainda mais perto da erradicação do analfabetismo

O Brasil passou por uma silenciosa, mas potente revolução nos últimos anos, com a queda no índice de analfabetismo que, no ano passado, pela primeira vez desde 2016, ficou abaixo de 5% da população com 15 anos ou mais, de acordo com o módulo Educação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE.

A conquista desses milhões de brasileiros que descobriram uma nova realidade a partir da educação se traduz, para além de números, em maior inclusão e cidadania, além de mais autonomia e da abertura de novos horizontes fechados até então.

De acordo com o levantamento, ainda há 8,4 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever, mas esse número vem caindo sensivelmente, como reflexo de políticas públicas de estímulo à educação e à permanência na escola, intensificadas nos últimos três anos, apesar dos retrocessos do governo de Jair Bolsonaro (PL).

“Quanto custa não investir? Essa é pergunta que a gente tem que saber. Não investir significa atraso, significa analfabetismo, significa não competitividade, significa não produtividade, significa não qualidade. E esse país não quer morrer exportando soja, milho ou carne de frango. A gente quer exportar conhecimento, inteligência, porque é isso que dá direito desse país ser um país rico”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sexta-feira (19), quando os números do IBGE foram divulgados, sobre a importância de se investir em políticas sociais.

“Pela primeira vez na história, nós atingimos, na população de mais de 15 anos, menos de 5% de analfabetos no Brasil. Nós temos hoje 4,9% de analfabetos. E sabe que a Unesco fala disso, sabe o que os organismos internacionais falam disso? Fala que um país, quando atinge menos de 5% de adultos analfabetos, elimina o problema estrutural do analfabetismo. Ele está se encaminhado para a erradicação do analfabetismo”, comemorou o ministro da Educação, Leonardo Barchini.

Recortes

A maior parte dos que seguem analfabetos (58%) têm 60 anos ou mais, o que corresponde a 4,9 milhões de pessoas. Nesse grupo, a taxa de analfabetismo das mulheres (13,7%) passou a ser menor que a dos homens (14,1%), também pela primeira vez.

Os pretos e pardos seguem sendo os mais atingidos — mais um dado que demonstra a existência de um racismo histórico, estrutural e ainda resiliente. A taxa de analfabetismo nesse estrato é de 20,6%, quase três vezes superior à de brancos, 7,3%, no mesmo grupo etário. Mas, nessa faixa, as quedas foram bastante sensíveis. Os 60+ representavam 20,5% dos analfabetos em 2016. Somente entre 2023 e 2025, o índice passou de 15,4% para 13,8%.

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A melhora nessa faixa etária pode estar relacionada ao Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação de Jovens e Adultos (Pacto EJA), do Ministério da Educação. De acordo com a pasta, “os dados revelam uma redução de cerca de 592 mil pessoas não alfabetizadas apenas no último ano, uma aceleração mais de três vezes superior ao ritmo de queda observado nos anos anteriores da década”.

Além disso, o MEC apontou que o Censo Escolar de 2025 “registrou uma interrupção na tendência de queda constante no número de matrículas na educação de jovens e adultos (EJA) para o ensino fundamental, vista desde 2017”, indicando menos pessoas com essa necessidade.

Zara Figueiredo, secretária de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão do MEC, declarou: “sabemos que ainda temos desigualdades significativas e não iremos descansar até que todos tenham oportunidades plenas, mas celebramos os avanços do país com a convicção de que estamos no caminho certo”.

Faixas mais jovens

Considerando apenas a faixa entre os 15 e os 59 anos, a taxa de analfabetismo caiu para 2,6%. E um dado relevante foi aferido entre os que têm 25 anos ou mais: 51,3% têm o ensino médio completo, algo também inédito, de acordo com o IBGE.

O segmento têm percentuais maiores de pessoas que sabem ler e escrever e, por isso, as quedas também foram menos impactantes, mas igualmente relevantes. Em 2016, pessoas analfabetas com 15 anos ou mais (até os 59 anos), eram 6,7%. Em 2023, estava em 5,4% e agora está em 4,9%.

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“A diferença entre esses grupos da população reforça a importância de políticas de manutenção de crianças e jovens na escola, bem como aquelas específicas para alfabetização de adultos e idosos. Também indica que as novas gerações tiveram maior acesso à escolarização e foram alfabetizadas ainda na infância. Portanto, o analfabetismo segue mais associado aos idosos”, ressalta o analista da pesquisa, William Kratochwill.

Outro dado trazido pelo levantamento é que homens (77,4%) e pessoas pretas ou pardas (77,8%) de 15 a 17 anos têm menos frequência no ensino médio do que mulheres (84%) e pessoas brancas (84,9%).
Em que pese os avanços obtidos, alguns dados mostram desafios que ainda precisam ser superados, especialmente entre negros e jovens. Os maiores percentuais de abandono escolar ocorrem a partir dos 16 anos: 18,5% deixaram a escola nessa idade, 20% aos 17 anos e 17,6% aos 18 anos.

Um em cada quatro jovens (25,6%) de 14 a 29 anos não tem interesse em estudar. Trabalho (26,2%) e gravidez (24,7%) são principais motivos para mulheres de 14 a 29 anos abandonarem estudos.
Para lidar com essas questões, uma das apostas do governo é o programa Pé-de-Meia, de incentivo financeiro-educacional voltado a estudantes matriculados no ensino médio público e beneficiários do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico).

Desde a sua criação, em 2024, o programa atendeu 5,6 milhões de estudantes. Segundo o MEC, de lá para cá, o número de alunos fora do ensino médio foi reduzido quase pela metade: “enquanto em 2022 a taxa de abandono escolar era de 6,4%, em 2024 ela caiu para 3,6%, uma diminuição de 43%. Além disso, a taxa de reprovação escolar também recuou em 33% no mesmo período, e o atraso escolar (distorção idade-série) sofreu queda de 27,5%, entre 2022 e 2025”.

Crianças e adolescentes

Também relevante é o fato de que, segundo o IBGE, o número de crianças entre seis e 14 anos frequentando o ensino fundamental superou em um ponto percentual a meta do Plano Nacional da Educação (PNE), ao alcançar 96% desse público.

O dado é importante, mesmo sendo inferior ao período imediatamente antes da pandemia. “Essas crianças podem não ter se adaptado às aulas online ou podem ter sido tiradas da escola pelos pais durante a pandemia. Assim, esse período criou um grupo de crianças que perderam um ou dois anos de estudo, ficando, então, atrasados”, avalia Kratochwill.

Na faixa dos zero a três anos, 64% das crianças de zero a um ano e 57% daquelas com dois a três anos que não frequentavam creche estavam fora da escola por opção dos pais ou responsáveis. Esse foi o motivo mais citado na pesquisa em todas as grandes regiões.

O segundo motivo mais citado foi não ter escola/creche na localidade, falta de vaga ou a não aceitação da matrícula por causa da idade da criança. Entre as crianças de zero a um ano, 28% dos responsáveis apontaram esse fator; entre as de dois a três anos, o percentual foi de 33,4%.

Norte e Nordeste foram as regiões mais afetadas por esse tipo de barreira. No Norte, 35% dos bebês e 44,5% das crianças de dois a três anos estavam fora da creche por esse motivo, enquanto no Nordeste, os percentuais foram 36% e 37%, respectivamente.

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