Lula e Trump expõem visões opostas sobre multilateralismo em discursos na ONU

TaguaCei — Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump apresentaram, nesta terça-feira (22), visões distintas sobre o papel das instituições internacionais durante a abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Enquanto Lula defendeu o fortalecimento do multilateralismo e uma maior participação dos países nas decisões globais, Trump criticou a atuação de organismos internacionais e enfatizou a soberania dos Estados Unidos. O posicionamento de Lula ocorre em meio às recentes divergências entre Brasil e Estados Unidos e a uma relação marcada por disputas comerciais e políticas.

Lula abriu tradicionalmente a sessão destinada aos chefes de Estado e afirmou que a ONU atravessa um dos momentos mais críticos de sua história. Segundo o presidente brasileiro, a credibilidade da organização está em baixa devido, entre outros fatores, à dificuldade do Conselho de Segurança em responder aos conflitos armados.

O petista defendeu a retomada da capacidade de atuação dos organismos multilaterais e voltou a defender uma reforma do Conselho de Segurança, com ampliação da representação dos países. A posição faz parte de uma reivindicação brasileira apresentada por Lula desde seu primeiro discurso na Assembleia Geral, em 2003.

“Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel”, afirmou Lula.

O presidente brasileiro também colocou o multilateralismo, a democracia e a soberania entre os principais desafios da atual conjuntura internacional. Para Lula, conflitos devem ser enfrentados prioritariamente por meio da diplomacia.

A fala ocorre em um momento de forte disputa política no Brasil. Nas últimas semanas, Lula também tem abordado temas relacionados à soberania nacional e às relações com os Estados Unidos, enquanto o cenário eleitoral brasileiro se aproxima. O presidente já havia afirmado, em seu discurso na ONU, que o Brasil não deve se subordinar a interesses de outras nações.

Trump critica organismos internacionais

Na sequência, Donald Trump adotou uma abordagem diferente. O presidente dos Estados Unidos criticou a atuação de organismos internacionais e afirmou que não existe um governo global.

Trump também atacou o que chamou de agenda de “burocratas globalistas” e criticou iniciativas que, segundo ele, ampliariam a interferência de instituições internacionais sobre os países. A Casa Branca resumiu o discurso como uma defesa da soberania americana e da utilização do poder dos Estados Unidos para proteger seus interesses.

“Não existe governo global e, enquanto eu for presidente, não haverá taxas globais”, declarou Trump.

O presidente americano também criticou a Corte Penal Internacional, o Conselho de Direitos Humanos da ONU, a UNESCO e a Organização Marítima Internacional.

Irã e Venezuela entram no discurso de Trump

Grande parte da fala de Trump foi dedicada ao Irã. O presidente afirmou que não permitirá que o país obtenha uma arma nuclear e defendeu a manutenção da pressão econômica sobre Teerã.

Trump também mencionou operações americanas na Venezuela e afirmou que os Estados Unidos estão dispostos a utilizar seu poder militar para defender interesses considerados estratégicos no Hemisfério Ocidental.

O discurso ainda tratou de Cuba, imigração, cartéis de drogas, tecnologia e da atuação dos Estados Unidos no cenário internacional.

Conselho de Segurança divide os dois presidentes

Embora Lula tenha criticado o funcionamento do Conselho de Segurança, sua proposta é ampliar e reformar o órgão para aumentar sua representatividade.

O presidente brasileiro argumenta que a atual estrutura, especialmente o poder de veto dos cinco membros permanentes, dificulta a tomada de decisões diante de guerras e crises internacionais.

Trump, por outro lado, citou decisões recentes do Conselho que foram favoráveis aos interesses dos Estados Unidos, especialmente em relação ao Irã. A diferença evidencia duas concepções sobre o organismo: Lula defende mudanças para ampliar sua representatividade, enquanto Trump enfatiza a capacidade de ação soberana dos Estados Unidos.

Guerra e diplomacia

Os dois presidentes também apresentaram abordagens diferentes sobre conflitos armados.

Lula afirmou que “a guerra é o fracasso total da política” e defendeu a diplomacia como instrumento para a solução de crises internacionais. O presidente brasileiro relacionou a atual escalada de conflitos à fragilização dos mecanismos multilaterais.

Trump, embora tenha falado sobre negociações de paz, apresentou o poder militar americano como um dos instrumentos centrais de sua política externa. Em seu discurso, destacou operações realizadas contra ameaças que considera estratégicas para os Estados Unidos.

Brasil e Estados Unidos em momento de tensão

Os discursos ocorreram em um contexto de atritos entre os governos brasileiro e americano. Além das divergências comerciais, os dois países têm apresentado posições diferentes sobre temas como soberania, política externa, conflitos internacionais e atuação de organismos multilaterais.

No Brasil, o debate também se conecta às discussões sobre as eleições de 2026, enquanto Lula tem utilizado a defesa da soberania nacional como um dos eixos de seus pronunciamentos recentes.

A relação entre Brasília e Washington também tem sido acompanhada no contexto das discussões envolvendo o Banco Master e o BRB, além de outros assuntos econômicos e diplomáticos.

Os discursos na ONU, portanto, expuseram duas respostas diferentes para uma mesma questão: como os países devem lidar com uma ordem internacional marcada por guerras, disputas econômicas e crises de representação. Lula defendeu a recuperação da capacidade das instituições multilaterais; Trump enfatizou a soberania e a capacidade de ação individual dos Estados Unidos.

Fonte: Metrópoles

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