O presidente Lula (PT) discutiu com a cúpula do governo respostas para o que identificam como fontes de desgaste político e eleitoral: o alto endividamento das famílias e escândalos de corrupção.
Durante reunião na noite da quarta-feira (18), no Palácio do Planalto, Lula e seus ministros reconheceram que o nível de endividamento do brasileiro neutralizaria os esforços do governo em busca de sensação de bem-estar social, como reajuste do salário mínimo e aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda.
Na reunião, a taxa de juros praticada pelo Banco Central foi, mais uma vez, alvo de críticas. No dia seguinte, Lula reclamou publicamente da política monetária, mostrando-se frustrado com a redução de apenas 0,25 ponto porcentual, para 14,75%, da taxa Selic pelo Copom (Comitê de Política Monetária). O presidente esperava que a taxa a essa altura do ano já estivesse em 14%.
Lula também disse que o caso do Banco Master é “ovo da servente” da gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e de Roberto Campos Neto na chefia do BC.
Os participantes da reunião admitiram ainda que, embora herdados de gestões passadas e investigados em seu governo, os escândalos de corrupção do Master e das fraudes do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) estão caindo na conta de Lula.
O presidente, segundo relatos, manifesta frustração com o desgaste sofrido por fraudes que têm envolvimento de seus opositores e que só vieram à tona graças às investigações encorajadas por ele na CGU (Controladoria-Geral da União), na Polícia Federal e no BC.
Lula e seus auxiliares reconheceram a dificuldade de combater a estratégia de comunicação bolsonarista, que usa os desdobramentos das investigações para afirmar que o governo é palco de corrupção, o que tem ajudado o pré-candidato à Presidência do PL, senador Flávio Bolsonaro, a avançar nas pesquisas eleitorais.
Os participantes da reunião defenderam a necessidade de repisar que os escândalos do Master e do INSS tiveram origem na gestão bolsonarista.
Na avaliação de um participante, o trabalho de combater a corrupção realizado pela Polícia Federal, Banco Central e CGU não tem sido convertido em ativo político. O diagnóstico é que a comunicação não está conseguindo mostrar que o governo está atuando contra as fraudes.
Presente à reunião, o ministro da Secom, Sidônio Palmeira, respondeu à avaliação, alegando que reagir a esses ataques não é tarefa da comunicação oficial de um governo. Apesar de convocada para discussão de uma pauta de governo, a reunião foi encerrada com essa análise da conjuntura política.
Além das críticas aos juros, há também no governo uma frustração com a não adesão do presidente do BC, Gabriel Galípolo, à estratégia de responsabilização do seu antecessor no cargo, Roberto Campos Neto, pela crise do Master.
Desde o anúncio da compra do Master pelo BRB (Banco de Brasília), Galípolo não endossou em nenhum momento as críticas a Campos Neto, encabeçadas pelo ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT).
O desapontamento com Galípolo também se estende ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao ministro da CGU, Vinicius Carvalho. Lula ficou chateado por Carvalho não ter comunicado antecipadamente sobre as fraudes dos descontos dos aposentados do INSS, que vieram a público em 2025, para que o governo pudesse adotar medidas com mais agilidade.
No caso da PF, aliados do presidente costumam criticar o vazamento de informações por agentes da corporação, com objetivo de afetar o governo. Eles enxergam a ação de bolsonaristas na PF para desgastar o presidente.
Integrantes da Polícia Federal avaliam, no entanto, que o governo não está sabendo utilizar a investigação do Master de maneira eficiente em prol da sua popularidade.
Em entrevista à Folha na última semana, o advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do grupo Prerrogativas, verbalizou a opinião de ministros palacianos ao fazer duras críticas ao trabalho da PF e na defesa Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, que vem sendo investigado por suposta ligação com as fraudes do INSS.
Amigo de Lula, o advogado disse que a PF está em disputa. Mas acredita que Andrei Rodrigues “vai tomar providências bastante enérgicas para se livrar desses elementos que colocam em xeque a credibilidade da instituição”.
Procurado pela Folha, o chefe da PF disse que o órgão atua com autonomia técnica e independência, asseguradas desde o primeiro dia de governo pelo presidente da República. “O combate à corrupção é uma diretriz do governo federal, que tem reafirmado a importância da atuação firme da Polícia Federal nessa área. As investigações são conduzidas com base na lei, com responsabilidade e respeito ao devido processo legal”, afirmou.
Já os defensores da política do BC avaliam que a guerra no Irã tem mostrado que as críticas dentro do governo à cautela na redução dos juros envelheceram rápido com os efeitos dos desdobramentos da alta do petróleo na economia mundial.
Questionados pela Folha, BC e CGU não se manifestaram.
Com informações do Jornal de Brasília
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