Passageiros reclamam de tarifa alta e ônibus sem qualidade no Entorno

Lídia Faustino, 25 anos, estava há 40 minutos na fila para embarcar no ônibus rumo a Luziânia. Depois de 48 horas de trabalho como enfermeira no Lago Sul, ela só queria voltar para casa sentada num ônibus bem conservado e seguro. Mas isso dificilmente acontece. Sua rotina é dura. Acorda às 4h30, pega o ônibus às 5h30 e chega ao serviço às 8h. Nesse horário, embarcar sentada é impossível. “O ônibus sempre chega lotado na parada, enfrento a viagem toda em pé”, lamenta. Assim como Lídia, cerca de 175 mil passageiros utilizam as mais de 400 linhas que conectam o Entorno ao Distrito Federal.

Entre as queixas mais comuns, está o alto valor das tarifas que, na última semana, ficariam ainda mais cara, por determinação da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) em 18 de fevereiro. O aumento sobre as passagens seria de 2,91%. No caso de Luziânia, as tarifas passariam de R$ 10,70 a R$ 12,05. Dois dias depois, o governador Ibaneis Rocha (MDB) anunciou a criação de um convênio interfederativo com os governos federal e de Goiás tentar reduzir o preço médio das passagens de ônibus do Entorno.

E, no último sábado, o Ministério dos Transportes comunicou à Secretaria de Estado do Entorno do DF (SEDF) a suspensão do reajuste, adiado por, pelo menos, seis meses, após pedidos encaminhados pelos executivos de Goiás e do DF. Para Lídia, a suspensão do aumento das tarifas é um alívio, porém a expectativa para a melhora na prestação do serviço permanece.

Quebras constantes

“Semana passada, o ônibus quebrou e acabei chegando atrasada no trabalho. Isso porque, somente de ida, pago R$ 15,80, somando a passagem de Luziânia a Brasília e o circular até o Lago Sul. É um desrespeito”, destaca Lídia. Por mês, os valores totalizam R$ 252,80. “Com esse dinheiro, eu poderia fazer uma poupança de emergência para as minhas filhas, porque nunca sabemos quando as crianças vão ficar doentes ou não”, diz a enfermeira, que é mãe de duas meninas, de 5 e 7 anos.

Segundo o economista Ian Lopes, a despesa com as passagens afeta fortemente o orçamento das famílias que vivem no Entorno. “Em muitos casos, o dinheiro é contado nos detalhes para os gastos mensais, fazendo com que os trabalhadores precisem cortar custos não essenciais, como atividades de lazer e autocuidado, para priorizar saúde, alimentação, transporte para o trabalho e afins. Esses cortes podem acontecer para não faltar dinheiro no fim do mês”, explica.

Para o vigilante Myykon Rodrigues, 25, o alto valor das passagens dificultou, por muito tempo, a conquista de um emprego no Plano Piloto, onde normalmente os salários são melhores. No momento, ele, que é morador do Jardim Ingá, trabalha em um condomínio da Asa Sul durante as madrugadas. “Saio de casa às 17h e chego na Rodoviária às 19h. Depois, pego o circular. Além da má qualidade dos ônibus, ficamos (a população) com medo de passar muito tempo nas paradas, sempre escuras e perigosas”, relata.

Descaso

Rosimar Maria Romão, 58, mora em Valparaíso e trabalha no setor de hotelaria em um hospital particular na Asa Sul. Além da tarifa cara — R$ 8,85 —, a passageira reclama do mau estado dos coletivos. “São ônibus muito empoeirados, com assento desconfortável e sujeira. Vi até baratas em alguns deles. Isso sem contar os profissionais mal-humorados”, descreve.

Devido às paradas cheias e ao congestionamento, o trajeto que deveria durar cerca de 40 minutos se multiplica. “Durante a semana, se eu perco o ônibus das 9h, o próximo passa quase duas horas depois. Aos finais se semana, a situação piora com a redução das linhas”, ressalta.

O porteiro João Antônio da Silva, 62, faz um trajeto parecido há 15 anos. Morador do Jardim Céu Azul, também em Valparaíso, ele trabalha de madrugada em um prédio residencial na Asa Norte, de três a quatro vezes por semana. O sofrimento também é semelhante ao de Rosimar. “Além de sujos, os ônibus não têm amortecedores, então, se passamos em um quebra-molas muito grande, levamos uma pancada. Mas tudo isso não é novidade”, lamenta.

Quem se aproveita da situação de descaso são os motoristas de transportes clandestinos que, na fila dos ônibus de Planaltina de Goiás, oferecem viagens de carro a R$ 12, quase R$ 1 a mais que a tarifa para o município. O anúncio para fazer a viagem sentado num carro é uma das tentações. “É mais caro, mas consigo descansar e chego em casa mais rápido”, diz uma usuária desse transporte que não quis se idenficiar.

Falta de incentivos

Questionada sobre as reclamações recorrentes acerca dos coletivos que conectam o Entorno ao DF, a Associação Nacional das Empresas de Transporte Rodoviário de Passageiro (Anatrip) destaca que os problemas são resultados da falta de incentivos governamentais e da ausência de políticas públicas de financiamento e subsídio ao setor.

“Ao contrário do que ocorre no Distrito Federal, onde o governo subsidia aproximadamente 55% do valor da passagem — garantindo que o passageiro pague menos da metade do custo real do serviço —, no Entorno não há qualquer subsídio governamental. Isso significa que 100% do custo da operação é arcado exclusivamente pelo passageiro, o que torna as tarifas elevadas e dificulta a realização de investimentos na renovação da frota e na melhoria da infraestrutura dos serviços”, declara.

Outros desafios destacados pela Anatrip incluem o preço do combustível, que representa 40% do custo operacional das empresas; as despesas com a manutenção da frota, que enfrentam trânsito intenso e por longas distâncias; o custo da mão de obra; os seguros e taxas; e a “concorrência desleal com o transporte clandestino”.

Gestão integrada

Conforme divulgado em 20 de fevereiro, a criação de um convênio interfederativo, por parte do GDF, com os governos federal e de Goiás visa reduzir o preço médio das passagens de ônibus do Entorno. Para que o preço final das passagens não atinja os usuários do transporte público, os governos vão pagar um subsídio. A estimativa é que o valor a ser pago seja de R$ 67 milhões por ano, tanto para o DF quanto para Goiás. O governo federal não arcará com esses custos. Espera-se que, com esse aporte, as tarifas tenham um preço médio de R$ 8.

Segundo a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob), a criação de um consórcio interfederativo depende da aprovação, nas casas legislativas do DF e de Goiás, de leis que autorizem a participação das respectivas unidades da Federação no referido consórcio. Mesmo após a constituição do convênio, será necessário obter a delegação da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para gerir os contratos em vigor do transporte semiurbano. Somente a partir disso que DF e Goiás poderão destinar os subsídios anunciados para reduzir os valores das tarifas de ônibus do Entorno.

“A população do Entorno espera muito por essas mudanças no transporte semiurbano, que tem passagens caras e opera por meio de contratos precários com uma frota acima da idade recomendada, que deixa muito a desejar. Esses passageiros que se deslocam diariamente, sobretudo para trabalhar no DF, almejam um sistema de transporte semelhante ao de Brasília”, ressalta o secretário de Transporte e Mobilidade do DF, Zeno Gonçalves.

O objetivo desta integração é, segundo a secretária do Entorno do DF de Goiás, Caroline Fleury, redesenhar as linhas do Entorno para o DF, aumentando a quantidade de ônibus em horários de pico e barateando as tarifas. “Na criação do consórcio, ficou definido é que o governo federal ficará com a parte de infraestrutura, visto que precisamos da renovação das frotas para ter ônibus realmente de qualidade. Sabemos que os coletivos que andam no Entorno são ônibus velhos e põem em risco a segurança da população”, afirma a secretária. Caroline destaca que, até o momento, a responsabilidade do transporte Entorno-DF é exclusiva da ANTT. “Com a gestão compartilhada, faremos os avanços necessários para trazer melhorias e, consequentemente, os usuários do transporte terão uma melhor qualidade de vida”, diz. Até o fechamento desta reportagem, a ANTT não se manifestou.

O convênio (para evitar o aumento das passagens) é importante, mas está longe de ser suficiente. O foco do convênio é o compartilhamento — entre o GDF, o governo de Goiás e o governo federal — da responsabilidade pelo subsídio para evitar o aumento das tarifas pagas pelos usuários. Sem dúvida, trata-se de uma medida necessária. Mas o transporte na Área Metropolitana em torno de Brasília reclama há muito tempo uma medida mais estruturante.

Trata-se de uma região que envolve três unidades da Federação — as cidades do estado de Minas Gerais são menos dependentes do serviço, mas a contiguidade territorial recomendaria solução similar para atender, por exemplo, Unaí, Buritis etc. — e seus municípios, mas tem um serviço provido pela União, via ANTT, cuja vocação é o transporte entre grandes distâncias e entre o Brasil e nossos vizinhos no continente.

O que considero estruturante é muito mais do que um convênio pontual: seria a constituição de uma agência metropolitana de transporte de passageiros para planejar, gerir e operar (ou contratar sua operação) os serviços de transporte. Um órgão com essas atribuições e uma governança local teria muito mais condições não só de ratear custos, mas também de prover um serviço muito mais adequado à realidade da população e da própria economia da Área Metropolitana em torno do DF.

Com informações do Correio Braziliense

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