Um possível acerto de contas envolvendo o tráfico de drogas, que deixou uma pessoa morta e duas feridas na região conhecida como invasão da Chacrinha, na 611 Norte, revela os perigos dos criminosos infiltrados entre a população em situação de rua na Asa Norte. Os 11 disparos, feitos em plena avenida, foram feitos por um homem às 7h desta quinta-feira (25/9). Especialistas ouvidos pelo Correio apontam que é preciso aprimorar as ações conjuntas das forças de segurança pública e dos serviços assistência social. Para os moradores e trabalhadores da área, a sensação de insegurança é constante.
José*, 42 anos, é comerciante há 20 anos na Asa Norte e relata que a violência ligada ao tráfico de drogas tem se intensificado na região. Ele conta ter presenciado assaltos, ameaças a clientes e episódios de brigas envolvendo pessoas em situação de rua, muitas vezes, associadas ao consumo e à venda de entorpecentes. A ausência de policiamento constante, segundo ele, abre espaço para a ação de criminosos.
“A segurança está muito precária. Esses ‘moradores de rua’ coagem clientes, pedindo dinheiro e até medicamentos. A gente sabe que nessa área corre muito tráfico e, quando isso acontece, todo mundo fica com medo de ser a próxima vítima. Hoje em dia, a gente sai de casa sem saber se vai voltar. Antigamente, a presença policial nas ruas inibia o bandido. Agora, a gente quase não vê viatura”, afirma.
Francisco*, 24, estudante e morador da região, conta que, apesar de se sentir seguro no Asa Norte, vivenciou episódios de risco envolvendo pessoas em situação de rua. “A segurança aqui é ótima, mas eles (população de rua), às vezes, abordam a gente. Eu mesmo fui xingado e ameaçado por não ceder a algo. Vi brigas entre eles, brigas feias, que acontecem principalmente à noite, entre a faixa da ciclovia e alguns pontos próximos”, explica.
Sobre o crime ocorrido quinta-feira na 611 Norte, o estudante demonstra preocupação. “Uso de arma de fogo é assustador, a gente não espera, porque pensa que eles não têm arma, mas brigas entre eles são bem comuns”, diz.
Consumo de drogas
O delegado-chefe da 2ª Delegacia de Polícia, Paulo Noritika, explica que, na Asa Norte, há três pontos críticos associados ao tráfico de drogas: a invasão da Chacrinha, onde ocorreu o crime; a 910 Norte, atrás da Casa do Ceará; e a 410 Norte, local, segundo ele, muito boêmio, onde há casos recorrentes de porte e uso de drogas. Recentemente, um ponto localizado abaixo da Ponte do Bragueto também tem preocupado as polícias Civil e Militar.
“Nenhuma outra região administrativa do Distrito Federal tem tantas pessoas em situação de rua como a Asa Norte. Não podemos, porém, generalizar e dizer que todos cometem crimes. A maioria são trabalhadores que mexem com reciclagem e atuam de forma honesta. Outros, claro, se fazem de moradores de rua para traficar e furtar”, pondera Noritika. Os principais usuários de entorpecentes são os próprios indivíduos inseridos nesse contexto de rua, dependentes majoritariamente do crack, a droga mais barata e perigosa, conforme reforça o delegado.
Antônio Suxberger, professor de direito do Centro Universitário de Brasília (Ceub) e especialista em segurança pública, explica que a presença e circulação de entorpecentes entre a população em situação de rua decorre tanto do quadro de vulnerabilidade em que essas pessoas se encontram quanto da facilidade de difusão dessas drogas.
“No primeiro caso, muitas delas, além da dura situação econômica e social, também enfrentam dependência química e acabam envolvidas por traficantes nas ações de difusão de drogas para outros usuários. No segundo caso, a pulverização dessa população, que transita por diversas áreas do DF, facilita a circulação e o acesso, especialmente no caso de pequenas quantidades de drogas, sob demanda de usuários recorrentes”, detalha o professor.
Insegurança
Geraldo*, 40, morador da 611 Norte, afirma que, apesar de algumas ocorrências na região, a sensação de insegurança ainda predomina. “Moro aqui a vida inteira. E, mesmo com pessoas em situação de rua por perto, nunca tive problemas de segurança por aqui. A gente vê, ocasionalmente, uns comportamentos que chamam a atenção, mas nunca me vi em perigo”, conta.
Antônio, 35, comerciante, trabalha há dois anos e meio no local e relata ter sido ameaçado de morte após negar dinheiro a um homem em situação de rua. “Ele estava claramente alterado e abordou uma cliente dentro da loja. Quando eu pedi para que não insistisse, ficou revoltado e disse que se ela não ajudasse, eu teria que pagar. Quando neguei, ele respondeu: ‘Beleza, então vou te matar'”, narra.
Além das ameaças, o trabalhador lembra de momentos de tensão provocados pelo consumo de drogas na região. “Certa vez, um rapaz, bastante alterado, começou a jogar bancos que ficam na frente da loja em direção às pessoas. Foi assustador”, conta. Segundo ele, embora os agentes de segurança pública atuarem em pontos conhecidos de venda de drogas, o problema apenas se deslocou. “Eles (a polícia) atuam em um lugar, mas o ponto de tráfico muda para outro. Não há acompanhamento de perto”, alerta.
De acordo com o comandante Michello Bueno, tenente-coronel da Polícia Militar (PMDF), as operações policiais e rondas ostensivas na invasão da Chacrinha, uma das mais antigas do DF, têm sido constantes. “Conseguimos retirar bastante barracas, sobraram apenas 11. Crimes, como o ocorrido hoje (ontem), são muito pontuais. O que mais ocorre são furtos — de fios de cobre, tampas de bueiro, placas de casas e de carro, além de baterias de veículos —, majoritariamente cometidos por usuários de drogas”, explica. O comandante confirma que muitos criminosos costumam se esconder nas invasões.
Dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF) mostram que entre janeiro e julho de 2025, a Asa Norte registrou queda em alguns crimes e aumento em outros, na comparação com o mesmo período de 2024. Os roubos a transeunte caíram de 163 para 144, redução de 11,6%. Já o roubo de veículo passou de quatro para cinco casos, alta de 25%, enquanto o roubo em coletivo diminuiu de três para um registro, queda de 66,7%.
Os roubos em comércio também tiveram retração, de 12 para sete casos, o que representa menos 41,7%. Não houve registro de roubo em residência nos dois períodos. Nos furtos, o cenário é misto. O furto em veículo apresentou queda significativa, passando de 573 para 443 ocorrências, o que representa 22,7% a menos. Em contrapartida, o furto a transeunte aumentou de 40 para 54 casos, alta de 35%.
Ações conjuntas
Para Antônio Suxberger, professor e especialista em segurança, a difusão de entorpecentes entre a população em situação de rua exige o aprimoramento de ações conjuntas do poder público, nas quais haja acesso a serviços do Estado e a garantia de que essas pessoas em situação de vulnerabilidade não sejam criminalizadas de forma mais grave do que a realidade em que se encontram.
“É fundamental valorizar o trabalho de apuração em casos complexos, inclusive com investigação patrimonial (dos grandes traficantes), para enfrentar a estruturação do tráfico de drogas. Isso porque as ações repressivas voltadas apenas para usuários e pequenos traficantes pouco contribuem para o enfrentamento do problema na totalidade”, destaca. Segundo Suxberger, o uso de bancos de dados e informações, por exemplo, pode permitir a pronta identificação daqueles que demandam ações de assistência do Estado, em distinção daqueles que se infiltram na população de rua para a prática de crimes.
À reportagem, a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes-DF) informa que atua em conjunto com outras pastas por meio do Plano Distrital para a População de Rua. O documento é composto de ações integradas de diversos órgãos, como as ações de acolhimento em que vários órgãos visitam pontos de concentração da população de rua de nas Regiões Administrativas (RAs) para ofertar acolhimento, atendimentos, benefícios e/ou encaminhar para as diversas políticas públicas deste Governo do Distrito Federal (GDF) como capacitação, emprego e renda, saúde e habitação.
A pasta diz acompanhar, sistematicamente, as pessoas em situação de rua do DF, contemplando as que vivem na Asa Norte, por meio de 26 equipes do Serviço Especializado em Abordagem Social (Seas). A atuação inclui evolução de atendimento (criação de prontuário com abordagens frequentes) em que são ofertados, além do acolhimento em unidades permanentes e possibilidade de pernoite no Hotel Social, também são oferecidos benefícios e encaminhamento para outras políticas.
Também questionada, a DF Legal afirma que a área conhecida como Chacrinha tem sido alvo de várias ações de acolhimento realizadas por diferentes órgãos do GDF. “Durante as abordagens, elas recebem todo tipo de apoio, que vão desde oferta de emprego, tratamento médico a pernoite em um abrigo. Mas, na maioria das vezes, têm recusado qualquer tipo de ajuda. Mesmo assim, as ações de acolhimento devem continuar nas próximas semanas”, diz a nota.
*Por segurança, os entrevistados preferiram não se identificar
Dinâmica do crime
Investigações apontam que o autor dos disparos, ainda não identificado, estava escondido em uma área de mata quando o principal alvo, Jardell Alves Barnabé, 38 anos, chegou ao local e foi atingido por nove tiros, no braço, na perna e abaixo do pescoço. Jardell foi socorrido com vida ao hospital, passou por cirurgia, mas não resistiu.
No momento do ataque, ele estava acompanhado de sua companheira, Antônia de Maria Fernandes de Moura, 36, que foi baleada no antebraço direito, e de um terceiro homem, que sofreu ferimento no tornozelo e ainda não foi identificado.
Segundo a polícia, Jardell e a mulher saíram de Brasilinha, em Planaltina (GO), para, supostamente, buscar materiais recicláveis na invasão da Asa Norte, onde foram surpreendidos pelo autor dos disparos, que saiu de um bambuzal.
No local, a polícia encontrou 11 cápsulas de uma pistola calibre .380. Jardell era o alvo principal, e os demais acabaram feridos por estarem próximos. Ele havia ganhado liberdade provisória e saído há pouco tempo da cadeia, e tinha passagens por crimes como tráfico de drogas, porte ilegal de arma de fogo e apreensão de substância ilícita. As autoridades seguem em busca do autor dos disparos, que fugiu a pé pela área de mata.
ARTIGO – Prevenção e combate
Vítor Sampaio é advogado especialista em direito constitucional e penal
Combater o tráfico de drogas no Distrito Federal exige abandonar slogans e operar com ciência, lei e integração. A “guerra às drogas” produziu muitos encarceramentos, sem quebrar o poder das facções: de acordo com dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), em 2023, existiam 199.633 pessoas encarceradas por delitos relacionados ao narcotráfico, maior grupo penal no sistema penitenciário brasileiro.
O desenho constitucional é claro: à Polícia Federal cabe prevenir e reprimir o tráfico ilícito e exercer polícia aeroportuária e de fronteiras; às polícias militares, o policiamento ostensivo; às Polícias Civis, a investigação. No DF, “fronteira” significa portas de entrada — Aeroporto JK e os anéis viários conectados às BR-010, 020, 030, 040, 050, 060, 070 e 080. É aqui que o crime organizado testa a capacidade do Estado, o que impõe coordenação efetiva entre níveis federal e distrital, e não sobreposição.
A resposta eficaz começa por uma estratégia federalizada de inteligência: fortalecimento e metas claras para a Ficco-DF (composta pela PF, Senappen, PPDF, PCDF, PMDF), integração de bases e monitoramento de fluxos nas rodovias e no aeroporto com leitura automática de placas e análise de risco, sempre sob governança de dados, relatórios de impacto e auditoria externa conforme a LGPD. Tecnologia sem garantias e sem continuidade vira atalho para abuso; com garantias, converte-se em dissuasão e eficiência.
No eixo penal, é preciso mirar os nós de maior dano — armas, violência e dinheiro —, priorizando investigação financeira e descapitalização das redes, em vez de reproduzir a prisão automática de jovens periféricos em funções de baixo escalão. A prevenção estruturante consistente em alternativas penais e políticas de renda, escola de tempo integral, oportunidades de trabalho juvenil remunerado e cuidado em saúde mental, reduz o recrutamento e isola lideranças.
Por fim, gestão por resultados e transparência: indicadores públicos de bens bloqueados, armas e drogas apreendidas, prisões de liderança e queda de homicídios. O narcotráfico não é um fato natural; é fruto de culturas e escolhas, sobretudo políticas. Com coordenação federativa, tecnologia sob garantias e foco investigativo correto, é possível proteger as fronteiras de Brasília com eficácia.
Com informações do Correio Braziliense
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