TaguaCei — Reeleita governadora do Distrito Federal com 57,18% dos votos válidos, Celina Leão (PP) iniciará um novo mandato em 2027 diante de desafios políticos, administrativos e econômicos. Entre as principais questões estão a recuperação da imagem do Governo do Distrito Federal (GDF), os desdobramentos da crise envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e a construção de acordos com a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).
Celina venceu Leandro Grass (PT), que recebeu 42,82% dos votos válidos, e garantiu mais quatro anos à frente do Executivo local. O resultado ocorreu em uma eleição marcada pela polarização nacional entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito presidente, e Flávio Bolsonaro (PL).
Apesar da vitória expressiva, especialistas ouvidos pelo Correio Braziliense avaliam que a governadora precisará transformar o resultado eleitoral em capacidade de gestão, com prioridades definidas e diálogo permanente com parlamentares e instituições.
Crise do BRB e serviços públicos estão entre os desafios
Para o cientista político André César, da Hold Consultoria, Celina terá de apresentar um plano de ações capaz de responder a problemas históricos do Distrito Federal e recuperar a imagem do governo local.
O especialista também apontou a crise envolvendo o BRB e o Banco Master como um dos fatores que podem afetar a administração. O caso deve continuar no centro das cobranças políticas, especialmente diante da necessidade de esclarecer eventuais irregularidades e seus impactos sobre o banco público.
Na área administrativa, saúde, educação e segurança pública aparecem entre as principais prioridades. Trabalho e infraestrutura também foram apontados como setores que exigirão atenção da governadora ao longo do novo mandato.
A capacidade de apresentar resultados concretos nessas áreas será importante para sustentar o apoio político conquistado nas urnas e responder às expectativas da população.
Maioria na CLDF não garante apoio automático
A composição da Câmara Legislativa eleita em 2026 oferece condições favoráveis para a governadora construir uma base parlamentar ampla. As legendas de centro-direita e direita somam 17 das 24 cadeiras, enquanto PT, PSOL e PSB reúnem sete vagas.
Entretanto, a distribuição das cadeiras entre dez partidos pode dificultar a formação de uma coalizão coesa. Embora o PL tenha conquistado cinco vagas, outras legendas também terão peso nas negociações legislativas.
Em análise sobre o cenário político a partir de 2027, a cientista política Evelyn Apolinaria, coordenadora-geral do Observatório do Congresso, avalia que a governabilidade de Celina tende a depender mais de negociações entre os partidos do que de uma maioria automaticamente alinhada ao Executivo.
A governadora terá de administrar os interesses das legendas aliadas, inclusive do PL, que chega fortalecido à Câmara Legislativa e possui agenda política própria. O orçamento de 2027 e a escolha da presidência da Casa devem ser momentos importantes para medir a capacidade de articulação do novo governo.
O cientista político Rócio Barreto, especialista em democracia participativa pela Universidade de Brasília (UnB), também destaca que a governabilidade depende da capacidade de estabelecer prioridades, negociar propostas e manter diálogo com diferentes grupos políticos.
Segundo ele, a construção de uma maioria funcional exige acordos que respeitem o interesse público e a transparência, sem transformar as negociações em distribuição de vantagens.
Relação com o governo Lula exigirá diálogo
A reeleição de Lula para a Presidência da República acrescenta outro desafio à administração do Distrito Federal. Embora Celina e o presidente pertençam a campos políticos diferentes, a relação institucional entre os governos será importante para viabilizar investimentos e projetos locais.
André César avalia que não interessa à governadora provocar uma ruptura com o governo federal. Mesmo com divergências ideológicas, há áreas em que a cooperação pode beneficiar os dois níveis de governo.
Entre os temas que exigirão articulação estão saúde, segurança pública, mobilidade, infraestrutura e políticas sociais. A obtenção de recursos federais e a execução de projetos dependem, em diferentes graus, da interlocução com ministérios, parlamentares e órgãos da União.
Rócio Barreto também considera que as diferenças partidárias não impedem necessariamente a construção de acordos. Para ele, Celina precisará estabelecer uma agenda institucional voltada às necessidades do Distrito Federal e manter canais de diálogo técnico e político com o governo federal.
Crise financeira pode limitar espaço para negociações
Outro fator que deve influenciar o novo mandato é a situação financeira do Distrito Federal, especialmente diante dos desdobramentos da crise do BRB. Eventuais restrições orçamentárias podem reduzir a margem do governo para financiar projetos, ampliar investimentos e atender às demandas dos partidos aliados.
Nesse cenário, a governadora terá de conciliar a manutenção da base parlamentar com a execução das políticas públicas e o controle dos gastos. A existência de uma maioria na CLDF não elimina a necessidade de definir prioridades e justificar as decisões sobre a distribuição de recursos.
A oposição, embora minoritária, também poderá ganhar espaço por meio da fiscalização do Executivo e da atuação de parlamentares com votação expressiva.
A partir de 2027, o principal teste para Celina Leão será transformar a vitória eleitoral e a vantagem numérica na Câmara Legislativa em resultados administrativos. A capacidade de enfrentar a crise do BRB, melhorar os serviços públicos, administrar as alianças políticas e manter uma relação institucional com o governo Lula deverá influenciar o desempenho da nova gestão.
Fonte: Correio Braziliense



