TaguaCei — Os episódios de cancelamento nas redes sociais estão mais frequentes, mas tendem a durar menos e nem sempre provocam consequências permanentes para a reputação ou a carreira dos envolvidos. Especialistas em comunicação apontam que as transformações nas plataformas digitais, a disputa pela atenção do público e a velocidade de circulação das informações mudaram a dinâmica das críticas coletivas na internet.
Um dos casos mais conhecidos ocorreu em fevereiro de 2021, quando a cantora Karol Conká deixou o Big Brother Brasil 21 com 99,17% dos votos, recorde de rejeição do programa. Após sair do reality, a artista relatou que familiares receberam ameaças. Em 2026, os influenciadores Viih Tube e Eliezer também enfrentaram críticas após promoverem uma competição entre empregados domésticos em um reality show. O caso repercutiu nas redes sociais e levou à retirada do programa do ar após um acordo com o Ministério Público do Trabalho. Em julho, Viih Tube chegou a ficar sem acesso a plataformas digitais durante a polêmica, conforme relatado na matéria sobre a saída dos perfis da influenciadora das redes sociais.
Cancelamentos se tornaram mais rápidos
A pesquisadora Carol Govari, doutora em comunicação, avalia que o cancelamento não perdeu força, mas passou a ocorrer de maneira mais fragmentada e acelerada. Perfis de fofoca, influenciadores e comunidades de fãs ajudam a ampliar controvérsias que geram engajamento, fazendo com que a atenção do público migre rapidamente de um caso para outro.
Segundo a especialista, a ideia de que uma pessoa pode ser definitivamente afastada da vida pública perdeu parte da força. Isso não significa, porém, que tenham desaparecido os julgamentos coletivos, as pressões sobre a reputação e os ataques virtuais.
A expansão da internet e o crescimento do número de influenciadores também contribuíram para essa transformação. Em 2025, 168,7 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais utilizaram a internet, o equivalente a 90,5% dessa população, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) citados no levantamento.
Pandemia mudou a relação com as redes
O isolamento social durante a pandemia de covid-19 intensificou o uso das plataformas digitais. Uma pesquisa realizada em 2020 pela Universidade Federal de Minas Gerais apontou que o tempo diário de exposição dos brasileiros às telas passou de 6,5 para 10,5 horas.
Para a biblioteconomista Dulce Hirli, que estudou o fenômeno, a retomada das atividades presenciais pode ter contribuído para a percepção de que os cancelamentos perderam intensidade. Com a volta à rotina fora de casa, a atenção dos usuários passou a ser dividida entre mais atividades.
Apesar disso, as consequências de uma polêmica podem reaparecer muito tempo depois. Publicações antigas continuam disponíveis e podem voltar a circular, provocando novas ondas de críticas. O caso do influenciador Felca, que voltou a ser alvo de ataques nas redes sociais em meio a discussões sobre o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, mostra como a repercussão pública pode se renovar em torno de personalidades da internet. O episódio foi abordado pelo TaguaCei na reportagem sobre os ataques recebidos por Felca após a entrada em vigor do ECA Digital.
Disputa pela atenção ajuda a explicar o fenômeno
Especialistas relacionam a duração dos cancelamentos à chamada economia da atenção. O conceito considera que o interesse do público é limitado e que diferentes conteúdos disputam espaço nas plataformas digitais.
Com novas polêmicas surgindo continuamente, um episódio pode perder visibilidade em pouco tempo. Para Maiara Orlandini, doutora em comunicação, a multiplicação de casos dificulta manter a atenção coletiva concentrada em uma única pessoa ou controvérsia.
Outro fator é a banalização do termo “cancelamento”, que passou a ser usado para situações muito diferentes, desde denúncias graves até discussões que duram poucas horas. Essa variedade dificulta avaliar a dimensão e as consequências de cada episódio.
A conclusão dos especialistas é que o cancelamento deixou de ser necessariamente uma sentença definitiva, mas continua representando um risco para a imagem pública. Os efeitos variam conforme a gravidade da situação, a reação dos envolvidos e a capacidade de o assunto permanecer em evidência. Mesmo quando a repercussão diminui, os registros digitais podem ser recuperados e voltar a alimentar controvérsias.
Fonte: Metrópoles



