As recentes crises da gestão Lula (PT) levaram a base do governo a se preocupar com a necessidade de uma articulação de movimentos sociais e partidos aliados para reagir ao avanço da oposição e evitar que a sangria de capital político e popularidade atrapalhe os planos eleitorais do presidente.
A controvérsia em torno do Pix e a repercussão negativa da inflação dos alimentos são apontadas como problemas que Lula poderia enfrentar sem tantos percalços se estivesse mais conectado com setores da sociedade para auxiliá-lo na chamada luta política, como em mandatos anteriores do PT.
Segundo pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira (27), a avaliação negativa do governo Lula cresceu seis pontos no intervalo de um mês e meio, atingiu 37% (maior patamar numérico no mandato) e, pela primeira vez, superou a positiva (31%).
A popularidade da gestão derreteu especialmente no Nordeste (onde a avaliação positiva recuou de 48% para 37%); entre as mulheres (avaliação negativa subiu de 27% para 36%); entre os que completaram o ensino médio (avaliação negativa passou de 33% para 43%) e entre os que ganham de dois a cinco salários mínimos (avaliação negativa foi de 32% para 41%).
Líderes de organizações alinhadas ao governo se queixam da falta de uma postura mais incisiva do Palácio do Planalto em defesa de pautas que promovam debate e mobilização. A avaliação do governo, por sua vez, é que a ausência de base no Congresso força uma escolha de batalhas.
Com as vitórias colhidas pela oposição bolsonarista nas últimas semanas, assuntos como o risco de impeachment e a memória das manifestações de junho de 2013 vieram à tona. Governistas apostam nos esforços para dar uma guinada na comunicação como forma de recuperar terreno.
O coordenador nacional da CMP (Central de Movimentos Populares), Raimundo Bonfim, diz ser natural que a atuação dos movimentos fique “aquém do necessário” quando assumem governos do que ele chama de campo democrático. A perda de tração foi observada sob outros mandatos do PT.
“Não tenho problema em fazer autocrítica, e a gente praticamente está desarticulado. Por que saímos das ruas?”, questiona o petista, acrescentando que as fragilidades do governo são anteriores à comunicação.
“O governo precisa fazer disputa política diuturnamente, assim como [Jair] Bolsonaro fez todos os dias de seu governo, e por isso quase foi reeleito. Se a cada vez que apresentar uma proposta e vier alguém como [o deputado] Nikolas Ferreira bater, o governo recuar, é muito complicado.”
O ineditismo de governar com uma oposição dura e fortemente organizada, depois da vitória com o resultado mais apertado desde a redemocratização, é motivo de alerta na esquerda desde 2022.
Com a experiência de quem sofreu impeachment, a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) afirmou em discurso após a posse de Lula que um governo não se mantém “sem uma estrutura de organização popular” e que a sustentação era fundamental para não ocorrer “nenhuma ruptura”.
Advertências semelhantes são feitas pelo ex-ministro José Dirceu (PT), do núcleo duro do primeiro governo Lula. Em artigo na Folha de S.Paulo em janeiro de 2024, ele escreveu que um dos rumos para a sobrevivência da esquerda passava por garantir “apoio social para as reformas necessárias”.
As questões ganharam urgência com a persistência do bolsonarismo, impondo ao governo resistência em determinados grupos, e com a onda internacional conservadora, coroada pela nova eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.
Para Bonfim, a volta de Trump mostra “que só a institucionalidade é insuficiente para conter o avanço da extrema direita e do fascismo”. Ele diz que é preciso escalar porta-vozes combativos, como o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), para difundir os feitos do governo e reaquecer os movimentos.
Recorrendo à tese de que a esquerda ficou analógica enquanto a direita dominava a esfera digital, o deputado estadual Gil Diniz (PL-SP) vê Lula perdendo confiança entre os mais pobres. “A cada medida impopular do governo, as pessoas vão aderindo ao nosso discurso”, afirma o bolsonarista.
O secretário de comunicação do PT, Jilmar Tatto, diz que “mostrar que a extrema direita não faz bem ao povo” deve ser uma tarefa compartilhada entre governo e partido. Ele projeta um novo gás para a militância com a entrada do governo na segunda metade e os ajustes da reforma ministerial.
“Temos que pautar o país, e não deixar que a oposição faça isso”, resume o deputado federal (SP).
Interlocutores do governo defendem que um dos caminhos para se reconectar com as camadas populares seja colocando em debate, nas ruas e no Congresso, temas da vida real. A taxação dos super-ricos e o fim da escala de trabalho 6×1 são citados como assuntos com potencial para aglutinar forças.
Autora da PEC (proposta de emenda constitucional) para reduzir a jornada, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) diz que a esquerda “precisa voltar para as bases, falar a língua do povo e devolver esperança”. Afirma ainda que o governo “poderia ter se empenhado mais” pelo projeto.
“Talvez a oportunidade do governo esteja aí, para ajudar a dar a força que esse debate merece e jogar luz naquilo que, de fato, interessa e mobiliza a classe trabalhadora, que não é esquerda, direita ou centro.”
O esvaziamento das bandeiras nessa seara reflete ainda as mudanças no universo do trabalho. Lula e seu governo têm se equilibrado entre medidas para a fatia com carteira assinada e acenos a grupos que têm se aproximado da direita, como empreendedores e trabalhadores de aplicativos.
Representantes de movimentos sindicais também atribuem o papel secundário do setor, na comparação com os primeiros governos petistas, à escassez de financiamento desde a reforma trabalhista de 2017, no governo Michel Temer (MDB). O principal fator para a queda foi o fim do imposto sindical.
O fiasco de público no ato das centrais sindicais no 1º de Maio de 2024, em São Paulo, ilustrou a adversidade. No palco, Lula fez cobranças ao ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Márcio Macêdo, responsável oficial pela interlocução do governo com os movimentos sociais.
João Carlos Gonçalves, o Juruna, secretário-geral da Força Sindical, diz que a gestão Lula 3 continua em dívida com os trabalhadores porque “não debateu os direitos sociais que foram retirados”, mas ressalva que o segmento mantém pontes por encontrar abertura para o diálogo.
Juruna faz críticas à estratégia de conciliação com alas da direita. “O governo deve ter a audácia de lançar propostas populares, que ganhem os brasileiros, e deixar que o Congresso as recuse se achar que é o caso. Se fizer só acordo e articulação, nunca vamos sair da dificuldade.”
Com informações do Jornal de Brasília
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