Demências ainda desafiam a ciência apesar de décadas de pesquisas

Pesquisadores avançaram no entendimento de doenças como Alzheimer, mas muitas perguntas fundamentais seguem sem resposta

As demências estão entre as doenças mais temidas e estudadas do mundo. Quase todos os dias surgem novas pesquisas sobre Alzheimer, biomarcadores, medicamentos experimentais e possíveis fatores de risco. Ainda assim, especialistas afirmam que a ciência continua distante de entender completamente como essas doenças começam, por que afetam algumas pessoas e não outras e, principalmente, como interromper seu avanço de forma definitiva.

Embora o Alzheimer seja a forma mais comum de demência, ele está longe de ser a única. O termo engloba diferentes doenças que afetam memória, linguagem, comportamento e outras funções cognitivas. E é justamente essa complexidade que ajuda a explicar por que as respostas ainda demoram a chegar.

Desafio começa antes dos sintomas

Um dos maiores obstáculos para entender as demências é que os processos biológicos associados a elas podem começar muitos anos antes do aparecimento dos primeiros sinais.

Segundo o neurologista Fábio Henrique de Gobbi Porto, presidente da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz), pesquisas indicam que alterações relacionadas ao Alzheimer podem surgir até 18 anos antes dos sintomas clínicos.

Durante esse período, a doença avança silenciosamente, sem que a pessoa perceba qualquer mudança. Quando os esquecimentos e outras dificuldades cognitivas aparecem, o cérebro já passou por transformações importantes.

O neurologista Vitor Caldas, especialista em demências do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, afirma que essa descoberta mudou a forma como os pesquisadores enxergam a doença. “Costumo dizer que, quando a memória falha, a doença já está trabalhando silenciosamente há décadas”, explica.

Segundo ele, isso ajuda a entender por que muitos tratamentos que apresentaram resultados promissores em laboratório acabaram produzindo benefícios limitados quando testados em pacientes que já apresentavam sintomas.

Hoje, uma das principais apostas da ciência é identificar essas alterações precocemente por meio de biomarcadores no sangue, no líquor e em exames de imagem.

Doença extremamente complexa

Além do diagnóstico tardio, outro desafio é que os cientistas ainda não compreendem completamente o que desencadeia as demências. O neurologista Wyllians Borelli, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do Centro de Memória do Hospital Moinhos de Vento, afirma que o conhecimento sobre os mecanismos da doença ainda está em construção.

“Não entendemos exatamente o que acontece no cérebro de quem tem Alzheimer e, quanto mais buscamos respostas, mais vemos que se trata de uma patologia extremamente complexa”, afirma.

Nas últimas décadas, pesquisas identificaram duas proteínas que desempenham papel importante na doença de Alzheimer, a beta-amiloide e a tau. Hoje existe consenso de que ambas participam do processo neurodegenerativo.

proteína beta-amiloide costuma se acumular primeiro. Já a proteína tau parece estar mais relacionada à perda de neurônios e ao surgimento dos sintomas. Apesar disso, muitas perguntas permanecem sem resposta.

“Hoje entendemos muito melhor o que acontece no cérebro, mas ainda estamos aprendendo quando e por que isso começa”, resume Caldas.

Entre as dúvidas que continuam mobilizando pesquisadores está o motivo pelo qual algumas pessoas acumulam essas proteínas sem desenvolver demência, enquanto outras apresentam declínio cognitivo progressivo.

O papel da genética, da inflamação, das doenças cardiovasculares, do metabolismo e até da qualidade do sono também segue sendo investigado.

Tratamentos em estudo

Apesar da ausência de uma cura, os especialistas destacam que houve progresso importante nos últimos anos. De acordo com Gobbi Porto, uma das principais linhas de pesquisa atuais envolve medicamentos capazes de reduzir ou eliminar o acúmulo de proteína amiloide no cérebro.

Outros estudos investigam medicamentos voltados à proteína tau, substâncias capazes de modular processos inflamatórios, terapias genéticas e até remédios originalmente desenvolvidos para outras doenças, como os análogos de GLP-1.

Ao mesmo tempo, cresce o interesse por estratégias de prevenção. Grande parte das pesquisas aponta que controlar fatores de risco ao longo da vida pode ajudar a reduzir as chances de desenvolver demência. Entre eles estão hipertensão, colesterol elevado, sedentarismo, tabagismo e consumo excessivo de álcool.

O cérebro ainda guarda muitos mistérios

Embora os avanços sejam significativos, os médicos reconhecem que o cérebro continua sendo um dos maiores desafios da medicina.

“Hoje sabemos infinitamente mais sobre Alzheimer do que sabíamos há vinte anos”, afirma Caldas.

Por outro lado, ele lembra que os pesquisadores lidam com um órgão formado por bilhões de neurônios e trilhões de conexões que se modificam continuamente ao longo da vida. “É natural que respostas definitivas demorem mais do que em outras áreas da medicina”, diz.

Para os especialistas, o futuro do tratamento das demências pode depender menos de uma cura única e mais da combinação entre diagnóstico precoce, prevenção e terapias personalizadas.

“Se conseguirmos atuar antes da perda neuronal significativa, poderemos mudar profundamente a história natural da doença, mesmo antes de falarmos em cura”, conclui Caldas.

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