Flávio Bolsonaro perde força e Faria Lima aposta na reeleição de Lula

Tropeços na pré-campanha de Flávio Bolsonaro levam executivos da Faria Lima a ver Lula como favorito para vencer em outubro

247 – Os tropeços na pré-campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passaram a alimentar, entre executivos do topo da Faria Lima, a percepção de que o presidente Lula (PT) é hoje o favorito para vencer a eleição de outubro. A avaliação ganhou força após novas pesquisas eleitorais e depois da crise pública entre o senador e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, informa Lauro Jardim, do jornal O Globo.

Ainda há muita campanha pela frente, mas o ambiente entre parte relevante do mercado financeiro mudou. A expectativa de uma arrancada de um nome de terceira via, como o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), perdeu força, assim como arrefeceu o entusiasmo em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro.

O movimento ocorre em meio a uma sequência de desgastes para o senador. O episódio mais recente foi a exposição da divergência com Michelle Bolsonaro sobre os rumos do PL no Ceará. O conflito envolveu a articulação do partido com Ciro Gomes (PSDB) e a disputa por uma vaga ao Senado, com Michelle defendendo a vereadora Priscila Costa e Flávio apoiando o deputado estadual Alcides Fernandes.

A crise ganhou contornos públicos quando Michelle afirmou ter sido desrespeitada e diminuída politicamente pelo enteado. Mesmo após pedidos de desculpas e tentativas de reduzir o desgaste, o episódio abriu fissuras no campo bolsonarista e atingiu uma área sensível da pré-campanha de Flávio: a relação com o eleitorado feminino, segmento no qual Michelle tem influência relevante por sua atuação à frente do PL Mulher.

Além do ruído familiar e partidário, Flávio Bolsonaro já vinha enfrentando dificuldades desde a repercussão do caso envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg mostrou queda do senador em cenários de primeiro e segundo turno após a divulgação de áudios e mensagens relacionados ao caso.

O desgaste também apareceu em levantamento Meio/Ideia, no qual 57% dos entrevistados avaliaram que o caso do áudio de Flávio Bolsonaro para Vorcaro prejudicaria sua campanha presidencial. A leitura, dentro e fora do campo bolsonarista, é que o episódio dificultou a construção de uma imagem de renovação e ampliou a resistência de setores moderados.

Na Faria Lima, esse acúmulo de reveses passou a produzir um ajuste de expectativas. Executivos que antes buscavam alternativas a Lula e ao bolsonarismo agora começam a se debruçar sobre um cenário de um quarto mandato. A preocupação central deixou de ser apenas quem poderia derrotá-lo e passou a incluir outra pergunta: como seria uma nova gestão Lula e quais nomes ocupariam postos-chave no governo.

A mudança de humor não significa adesão política ao presidente, mas reconhecimento pragmático de que a candidatura governista atravessa o momento com mais estabilidade do que a de seu principal adversário na direita. Enquanto Flávio tenta conter danos internos, recompor pontes com Michelle e reorganizar sua pré-campanha, Lula se beneficia da fragmentação no campo oposicionista e da ausência, até agora, de uma alternativa competitiva de centro ou terceira via.

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