Ao inaugurar novos trechos da ferrovia, presidente afirma que a obra integra o Nordeste, gera empregos, impulsiona a produção e corrige desigualdades históricas
Na tarde desta quinta-feira (2), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em Quixeramobim, no sertão do Ceará, para inaugurar os lotes 4 e 5 da Ferrovia Transnordestina. O trecho de 101 quilômetros entre Acopiara e Quixeramobim recebeu anúncios de R$ 600 milhões para acelerar a execução da obra, a ordem de serviço para o ramal de ligação ao Porto do Pecém e a entrega de 100 novos vagões graneleiros.
Lula definiu a obra como um dos principais investimentos estruturantes para transformar a economia nordestina. Em seu discurso, afirmou que a ferrovia, assim como a transposição do Rio São Francisco, rompe décadas de abandono da região e demonstra que o Estado pode induzir desenvolvimento quando prioriza o interesse público.
Durante a cerimônia, Lula exaltou o papel do Estado na redução das desigualdades regionais, fez defesas enfáticas da educação e dos direitos das mulheres, e não poupou críticas ao que classificou como “desprezo histórico” das elites com o povo nordestino.
Lula lembrou que o Nordeste foi historicamente retratado apenas pelos indicadores de pobreza, analfabetismo e desigualdade. Segundo ele, esse cenário não decorre de limitações da população, mas da ausência de investimentos públicos capazes de criar oportunidades e integrar a região ao restante do país.
Obra estratégica para produção, emprego e logística
O presidente ressaltou que a Transnordestina vai muito além de uma ferrovia. Para ele, trata-se de um corredor logístico capaz de reduzir custos de transporte, ampliar a competitividade da produção agrícola e industrial e conectar os estados do Ceará, Piauí e Pernambuco aos portos de exportação.
Lula destacou que o empreendimento estimulará novos investimentos privados, favorecerá a instalação de indústrias e ampliará a geração de empregos ao longo de todo o percurso da ferrovia. Também afirmou que outros estados nordestinos já reivindicam sua expansão, sinalizando o potencial integrador do projeto.
Ele reforçou que o poder público não existe para atender as “pessoas mais ricas”, mas sim para garantir oportunidades aos 90% da população que “trabalha, levanta às 4h30 da manhã”. “Quando a gente começa a fazer uma obra dessas, todo mundo descobre que seu estado precisa. É nossa obrigação levar civilidade e desenvolvimento para as pessoas desse país”, afirmou.
“Essa é a obrigação do Estado: levar civilidade e desenvolvimento para as pessoas”, afirmou o presidente ao defender a continuidade dos investimentos em infraestrutura.
Investimento público para reduzir desigualdades
Ao relacionar a Transnordestina à transposição do Rio São Francisco, Lula sustentou que ambas as obras nasceram para atender justamente as regiões que mais necessitam da presença do Estado. Segundo ele, enquanto a seca é um fenômeno natural, a pobreza decorrente da falta de infraestrutura resulta de escolhas políticas.
O presidente defendeu que governos devem concentrar investimentos na população trabalhadora, responsável pela produção da riqueza nacional, e reiterou que obras públicas não representam despesas, mas investimentos capazes de gerar crescimento econômico, emprego e melhoria das condições de vida.
“Educação é independência para as mulheres”
Ao falar sobre educação, Lula lembrou de seu próprio passado como torneiro mecânico formado pelo Senai e disse ter orgulho de ser “o presidente que mais fez universidades e institutos federais na história deste país”. Ele direcionou uma mensagem às mulheres, defendendo que os estudos são a chave para a autonomia e o fim da dependência financeira.
“Para nós homens, uma profissão é uma garantia de estabilidade. Mas pras mulheres, a educação é uma coisa chamada independência. Ninguém pode viver com um homem por causa de um prato de comida ou por causa de um aluguel”, discursou, arrancando aplausos.
Ele ainda reforçou o compromisso com o enfrentamento à violência doméstica, citando a pauta assumida pela primeira-dama Janja, e exaltou os investimentos em saúde, como as 150 carretas especializadas e máquinas modernas de radioterapia e cirurgia robótica disponíveis no SUS para a população mais pobre.
“Ferrovia de primeiro mundo e integração econômica”
Antes de Lula, uma série de autoridades celebrou o avanço da maior obra ferroviária em execução no país. O diretor da CSN Logística, Tufi Daher, classificou a Transnordestina como uma “ferrovia de primeiro mundo” e prometeu entregar mais 120 quilômetros até o final do ano, mantendo o ritmo de mais de 5.500 empregos diretos.
O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, natural da região, emocionou-se ao lembrar que seu pai trabalhou na antiga estrada de ferro durante a seca de 1958 para sustentar 11 filhos. Ele destacou que o governo atual já pagou R$ 7,2 bilhões pela obra, contra apenas R$ 70 milhões da gestão anterior.
O ministro dos Transportes, Jorge Santoro, ressaltou que ferrovias exigem subsídio público e geram um “fenômeno de aglomeração”, atraindo desenvolvimento e reduzindo custos. O ex-ministro da Educação, Camilo Santana, atacou o governo passado por paralisar obras e defendeu que a resposta da oposição deve ser “entregando hospital, creche e ferrovia”. Por fim, o governador do Ceará, Elmano de Freitas, celebrou os investimentos em saúde no sertão e a chegada do trem para escoar a produção calçadista e leiteira da região.
Já o prefeito de Quixeramobim, Cirilo Pimenta (PSB), afirmou que a chegada da Transnordestina transformará o perfil econômico do sertão cearense. O gestor defendeu que a ferrovia, associada ao Porto Seco, à futura Zona de Processamento de Exportação (ZPE) e ao parque industrial previsto para a região, consolidará um novo ciclo de desenvolvimento para o interior do Nordeste.
Lula encerrou o evento avisando que, devido à legislação eleitoral, esta seria sua última oportunidade de inaugurar obras antes do período de vedação, mas adiantou que visitará o “Cinturão das Águas” do Ceará em breve. Em seguida, o presidente seguiu para Juazeiro do Norte (CE) para entregar ônibus escolares e unidades móveis de saúde.



