O relógio marca 17h, próximo ao sino que anuncia o fim das aulas. A essa altura, a Praça da Juventude, no Paranoá, começa a encher de jovens. Boa parte veste roupa de futebol, usa chuteiras e fones de ouvido. Outros chegam de bicicleta, com cigarro aceso e se encostam nas grades do campo. Entre risadas e gírias, o grupo de adolescentes ainda aparenta sinais da infância: são crianças crescidas. Nesse território de suposta ingenuidade, onde a educação e a cultura são precárias, mas o desejo de alcançar poder é forte, vários deles acabam pescados pelo crime.
Neste mês, Brasília assistiu a uma explosão de episódios violentos em que menores de idade figuraram como autores. Num deles, Isaac Augusto de Brito Vilhena, 16 anos, foi esfaqueado e morto durante um assalto na 112 Sul, em 17 de outubro. O crime foi cometido por três menores. Cinco dias antes, o policial penal Henrique André Venturini, 45, foi morto durante uma corrida de aplicativo no Riacho Fundo II. As investigações apontam que o agente reagiu à abordagem de um jovem e dois adolescentes, e disparou acidentalmente em si, na tentativa de acertá-los.
Na mesma semana, outro adolescente, Gabriel Silva Cardoso, 17, foi baleado em Ceilândia em um possível acerto de contas. Segundo a Polícia Civil, a motivação estaria ligada a uma suposta importunação do adolescente contra a filha do autor, de 11 anos. O suspeito, Antonio Carlos de Souza Nunes, preso posteriormente, disse ter se irritado ao saber que Gabriel teria feito “psiu” para a menina na rua.
Gabriel havia escapado de outro atentado um mês antes, próximo à feira do produtor de Ceilândia. Um motociclista se aproximou e atirou quatro vezes. À época, o menino reconheceu Antonio como o atirador.
Outro caso de repercussão foi o do torcedor vascaíno Eumar Vaz, 34, no final de setembro, morto ao ser esfaqueado por um adolescente de 16 anos dentro de um ônibus, ao término de uma partida de futebol entre Flamengo e Vasco.
Eumar assistia ao jogo na companhia de outros torcedores, na sede da Força Jovem Vasco, no Guará. De lá, pegou um ônibus para Samambaia, e de lá seguiria para o Riacho Fundo, onde morava. No coletivo, em Samambaia, cerca de 10 torcedores do Flamengo ordenaram que tirasse a camisa. O pedido virou sentença.
Pertencer
Diante de tantos episódios de violência, especialistas avaliam que, entre as motivações, o ingresso do adolescente ao mundo do crime é porta para pertencimento e busca por identidade. Um estudo feito com adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de privação de liberdade de Minas Gerais, em 2018, concluiu que a submissão funciona como um “pacto” que conduz a ações e laços.
A partir do espaço de escuta, os estudiosos descobriram que os menores criam uma espécie de respeito a um código e de uma orientação ética como possibilidade para a construção de laços com o grupo. Mesmo cientes do ditado profético “caixão ou prisão”, seguem devotos aos seus superiores, espelham-se nos cabeças e brindam cada “missão” bem-sucedida.
O crime organizado se aproveita da legislação mais branda para menores. No DF, a facção Comboio do Cão tenta erguer uma fortaleza na capital, mas tropeça nas operações policiais. O grupo carrega a fama de “violenta” e “sanguinária”, mas a estrutura é difusa e inexperiente — mesmo inspirada nas facções nacionais —, avaliam fontes da segurança pública. Nesse improviso, adolescentes são recrutados ao grupo. A tática já é adotada pelo Comando Vermelho (CV) e, em menor escala, pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). A cúpula paulista, até hoje, não oficializou a regra em estatuto.
Os meninos do Itapoã
No Itapoã, dois meninos de 12 anos caminham pela quadra em busca de um grupo para jogar bola. Os amigos dizem morar no Paranoá e foram visitar o avô. “Meus pais estão trabalhando. Não tem ninguém em casa”, disse um deles. Ingênuos, balançam a cabeça ao serem questionados sobre amizades. “Tem que ter cuidado. Só anda nós dois mesmo.” Quanto à região, dizem ser tranquila, só alertam. “A gente só não anda na Rua da Paz.”
De paz, só o nome. Pelos moradores, a avenida leva a aura de Rua da Morte. É uma pista única, cercada de comércios dos dois lados, mas carimbada por sangue. Anos atrás, foi palco de guerra entre as gangues Fábrica de Luto (FBL), e Vinte e Nove do Itapoã 2 (V9T2). O conflito resultou em 489 homicídios consumados e tentados ocorridos de 2018 a agosto de 2023.
Rodrigo Larizzatti, delegado lotado na Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA) da Asa Norte, lida de perto com situações em que menores são vítimas ou protagonistas. Pela experiência de quase oito anos no combate ao crime, avalia que o ambiente familiar e o vácuo de políticas de inclusão — principalmente em regiões mais pobres — são gatilhos para o alistamento precoce. “É por escolha, sim, mas nem sempre (esse menor) tem tantas escolhas. A falta de programas sociais, a evasão escolar e a falta de perspectiva podem levar a esse caminho”, explica.
Segundo Larizzatti, 80% dos adolescentes apreendidos por crimes graves, tais como homicídio, roubos, latrocínios e tráfico de drogas, estão matriculados em uma escola, mas pouco frequentam ou não frequentam nada. “Os mesmos evadidos são, também, usuários de drogas,” avalia.
Nas vielas, a oferta de “vida boa” é aperitivo. “O querer pertencer a um grupo, se sentir importante, não é apenas característica dessa faixa etária. É do ser humano. Além disso, a desestrutura familiar tem peso. Uma coisa é a mãe e o pai saírem para trabalhar. Outra, é deixar o filho a Deus dará”, critica o delegado.
Mundo ilusório
A sedução do crime é antiga e alimentada por criminosos mais velhos. No tráfico de drogas, por exemplo, a hierarquia é precisa: entregador, vendedor, chefe da boca e fogueteiro (quem vigia). O menor, fascinado com a “empresa”, pouco se atenta às duas opções de sentença: caixão ou cadeia. O enredo se confirma no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025.
O estudo mostra que, em 2024, a taxa de mortes violentas intencionais (MVI) para a população em geral caiu 5,4% em relação a 2023. Na contramão dessa tendência, as MVI de adolescentes de 12 a 17 anos aumentaram 4,2% no mesmo período.
O criminalista Adilson Valentim explica. “O adolescente está em transição. Não é criança, tampouco adulto. Falta maturidade — e não falo de esperteza. É uma fase de transição comportamental, neurológica e hormonal gritante, que o torna fácil de ser enganado.” O criminalista crítica o sistema de internação socioeducativo. “Não há uma interação efetiva com o intuito de reeducá-lo e reinseri-lo na sociedade com cursos profissionalizantes efetivos, de forma que esse menor possa ser aplicado aqui fora”, destaca.
Valentim também defende maior rigidez no artigo 244-B do ECA, que trata do crime de corrupção de menores e prevê pena de 1 a 4 anos. A avaliação é a mesma sustentada pelo delegado Rodrigo Larizzatti, de que o aumento da penas dos mais velhos pode frear o assédio sobre os de menor idade.
Raio-X do sistema socioeducativo do DF
Quantitativo
1.107 socioeducandos em acompanhamento, distribuídos entre os regimes de internação, semiliberdade e meio aberto.
Tipificações recorrentes
Roubo, tráfico de drogas, homicídio, tentativa de homicídio, tentativa de latrocínio, furto, tentativa de roubo e latrocínio.
Estudo
Todos os adolescentes em regime de internação e semiliberdade estudam.
Ações
Os adolescentes e jovens em acompanhamento no sistema socioeducativo do DF recebem todo o suporte de atendimento psicossocial, atividades escolares, cursos profissionalizantes (alguns com recebimento de bolsa), encaminhamento para estágios, além de atividades intramuros de esporte, lazer, cultura e arte.
Originalmente publicado em Correio Braziliense
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