TaguaCei — Comunidades de fãs de artistas como Beyoncé, BTS, Lady Gaga e Billie Eilish ganharam espaço na campanha presidencial de 2026 ao transformar estratégias típicas dos fandoms em ferramentas de mobilização política. Os grupos organizaram ações nas redes sociais, participaram de manifestações e ajudaram a divulgar conteúdos favoráveis à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), vencedor da eleição.
A articulação ganhou força após o primeiro turno, realizado em 4 de outubro, quando um fã-clube de Billie Eilish anunciou apoio à campanha petista. A iniciativa estimulou outras comunidades a disponibilizarem seus perfis nas redes sociais para a mobilização política.
Rafaella Silveira, do portal Beyoncé Brasil, contou que o grupo aderiu à articulação depois de observar a participação de outros fã-clubes. Segundo ela, a mobilização começou no Twitter e avançou para o Instagram, além de fortalecer o projeto Fandoms pelo Brasil, que já reunia comunidades em torno de diferentes causas.
Participação nas manifestações
Durante a manifestação, o então candidato agradeceu publicamente à iniciativa: “Fandoms do Brasil, obrigado pela iniciativa de vocês”.
O movimento Fandoms com Lula reuniu admiradores de aproximadamente 70 artistas nacionais e internacionais. Além dos grupos ligados à música, comunidades de fãs de séries, personagens e jogos eletrônicos também participaram das ações.
Nove tendências identificadas pela pesquisa
Para analisar o fenômeno, o Laboratório Cultpop, dedicado a pesquisas sobre cultura pop, reuniu pesquisadores de oito universidades e examinou 6,5 mil publicações em diferentes plataformas digitais. O levantamento identificou nove tendências que ajudam a compreender a influência dos fandoms na disputa eleitoral.
1. Identidade: a pesquisa aponta que as eleições de 2026 foram marcadas por forte presença de reivindicações identitárias. Os fã-clubes utilizaram linguagens, símbolos e identidades visuais próprias para dialogar com seus públicos.
2. Protagonismo de mulheres e pessoas LGBT+: mulheres e integrantes da comunidade LGBT+ estiveram na linha de frente da administração e da mobilização dos grupos. A participação também dialogou com pautas feministas e com a presença de figuras femininas na cultura pop.
3. Música pop: comunidades ligadas a cantoras como Beyoncé e Lady Gaga tiveram destaque nas manifestações e nas redes. A pesquisa identificou os fandoms musicais como protagonistas da mobilização política digital.
4. Cultura geek: fãs de jogos eletrônicos, histórias em quadrinhos e outras produções da cultura geek também participaram da disputa. O estudo aponta que esse segmento é predominantemente masculino e conservador, mas reúne diferentes posições políticas, incluindo apoiadores de Lula.
5. Desafios e mutirões: os grupos adaptaram práticas já comuns entre fãs, como organizar ações para aumentar visualizações de clipes e reproduções de músicas, para estimular o compartilhamento de conteúdos políticos e ampliar o engajamento.
6. Humor: memes e piadas foram utilizados para expressar sentimentos, reforçar identidades coletivas e responder a publicações de apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL). O humor também se tornou instrumento de disputa ideológica.
7. Inteligência artificial: ferramentas de IA generativa passaram a ser usadas na produção de conteúdos que retratavam Lula e Flávio Bolsonaro como personagens de novelas, reality shows e artistas pop. A tecnologia foi incorporada a estratégias de comunicação com linguagem humorística.
8. Memória afetiva: referências de filmes, séries e músicas ajudaram os fãs a interpretar o cenário político. Admiradores de Star Wars, por exemplo, estabeleceram comparações entre personagens da saga e figuras da disputa eleitoral. Outros recorreram a canções de Madonna para comentar a conjuntura.
9. Ativismo: a mobilização de 2026 deu continuidade a iniciativas anteriores. Em 2022, o projeto Fandoms Pelo Voto incentivou jovens de 16 a 18 anos a tirar o título de eleitor. Em 2024, o Fandoms Pela Amazônia promoveu ações em defesa da preservação ambiental.
Redes sociais e ruas conectadas
A coordenadora do Cultpop, Adriana Amaral, avalia que as manifestações de 2026 mostraram a criatividade dos jovens na utilização de cartazes, memes e referências da cultura digital. Para ela, não existe uma separação rígida entre as mobilizações nas ruas e nas plataformas digitais, mas uma relação em que diferentes formas de comunicação se complementam.
A pesquisa indica que os fandoms ampliaram o repertório do ativismo político ao levar para a campanha eleitoral práticas de organização e comunicação desenvolvidas nas comunidades de fãs.
Fonte: Metrópoles



