O governo Lula (PT) tenta evitar um novo tarifaço norte-americano com uma proposta de redução de alíquotas de importação para setores dominados por empresas dos Estados Unidos, enquanto busca uma nova reunião com o Escritório do Representante de Comércio dos EUA, o USTR. A estratégia ocorre a poucos dias do prazo para que Washington decida se aplicará uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, segundo o jornal O Globo.
O Palácio do Planalto vê como principal trunfo a possibilidade de diminuir taxas para itens de áreas em que os Estados Unidos têm forte presença, como máquinas, equipamentos de saúde e tecnologia da informação. A aposta é que uma oferta concreta nesses segmentos ajude a abrir espaço para uma solução diplomática antes da eventual imposição das sanções comerciais.
A negociação ocorre em meio a um ambiente de cautela dentro do governo brasileiro. Embora integrantes da gestão Lula procurem demonstrar disposição para o diálogo, setores do Executivo avaliam com pessimismo as chances de reverter a medida. A leitura política em Brasília é que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, poderia evitar dar a Lula uma vitória diplomática em ano eleitoral.
Auxiliares do presidente brasileiro também avaliam que a disputa em torno do tarifaço pode ser explorada politicamente pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência. Na semana passada, Flávio enviou documento ao USTR pedindo o adiamento da sobretaxa para depois das eleições. No Planalto, a avaliação é que, caso as tarifas não sejam aplicadas, o parlamentar poderá tentar atribuir o resultado à sua interlocução com o governo Trump.
Para reduzir o peso de fatores políticos na negociação, o governo brasileiro elaborou um pacote de medidas chamado internamente de “mapa do caminho”. O documento busca responder aos seis pontos levantados pela investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana.
As propostas abrangem temas como comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal. O objetivo é apresentar uma agenda de compromissos que permita aos dois governos avançar em uma solução negociada e evitar danos às relações comerciais bilaterais.
A proposta de redução de tarifas sobre produtos importados dos Estados Unidos é considerada a medida de maior peso pelo governo brasileiro. O tema deve ser aprofundado em uma nova reunião virtual entre o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Marcio Elias Rosa, e o representante comercial americano, Jamieson Greer. Autoridades brasileiras esperam que o encontro ocorra nos próximos dias. Os dois conversaram pela última vez na quinta-feira passada.
Um ponto ausente do “mapa do caminho” é o Pix. O sistema brasileiro de pagamentos instantâneos foi citado na investigação americana, que acusa o Brasil de adotar políticas consideradas desleais em favor do meio eletrônico nacional, em prejuízo de empresas de pagamentos dos Estados Unidos. O governo brasileiro, no entanto, avalia que não há margem para negociar mudanças no funcionamento do Pix.
Nesta semana, o USTR deve realizar audiência para receber argumentos sobre a possível taxação de produtos brasileiros. O governo Lula decidiu não participar diretamente, por entender que o espaço deve ser ocupado por representantes do setor privado. Empresas brasileiras e entidades empresariais devem sustentar que a tarifa prejudicaria não apenas o Brasil, mas também companhias, consumidores, investimentos e empregos nos Estados Unidos.
Flávio Bolsonaro também se inscreveu para participar da audiência. A expectativa é que ele defenda o adiamento da medida, como já havia feito em manifestação enviada ao órgão americano. O movimento tende a ampliar a disputa política em torno do tema, especialmente diante da avaliação do Planalto de que a decisão dos Estados Unidos pode ter impacto direto no debate eleitoral brasileiro.
O USTR concluiu a investigação comercial contra o Brasil e propôs a aplicação de uma tarifa de 25% sobre mercadorias brasileiras em 2 de junho, menos de um mês depois da visita de Lula a Trump na Casa Branca. Além dessa medida, existe ainda a possibilidade de uma sobretaxa adicional de 12,5%, baseada na alegação de que o Brasil não teria adotado ações suficientes contra o trabalho forçado. Na prática, a carga total poderia chegar a 37,5%.
A ofensiva diplomática do governo brasileiro busca impedir que a disputa comercial se transforme em novo foco de tensão entre Brasília e Washington. Ao mesmo tempo, o Planalto tenta evitar que uma eventual decisão dos Estados Unidos seja apropriada politicamente por adversários internos em um momento de acirramento da corrida eleitoral.
Com informações do portal 247



