Mendonça alerta governo sobre possível obstrução de Justiça com retirada de delegados da PF

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), alertou o governo Lula (PT) sobre o risco jurídico e político de uma eventual retirada de delegados da Polícia Federal cedidos ao STF, especialmente se a medida atingir gabinetes responsáveis por investigações sensíveis, informa Malu Gaspar, do jornal O Globo.

A reação ocorreu nos bastidores após o Ministério da Justiça determinar o retorno de mais de cem policiais federais que estavam cedidos a órgãos da administração pública. A leitura no entorno do ministro é que, se a medida afetasse diretamente o Supremo, poderia ser interpretada como tentativa de interferir em investigações em andamento e abrir uma nova frente de apuração.

André Mendonça, ex-ministro da Justiça no governo Jair Bolsonaro (PL), é o relator de duas investigações de grande repercussão no STF: o caso Master e o inquérito sobre desvios bilionários em aposentadorias do INSS. As apurações envolvem personagens de diferentes campos políticos e têm potencial para influenciar o debate público no período eleitoral.

Hoje, quatro delegados da Polícia Federal auxiliam ministros do Supremo. Dois atuam no gabinete de Mendonça, um trabalha com Luiz Fux e outro integra a equipe de Alexandre de Moraes, relator de processos que atingem diretamente o clã Bolsonaro, como o inquérito das fake news e a ação penal sobre a trama golpista.

Mais de 50 órgãos da administração pública já foram notificados pelo Ministério da Justiça sobre a ordem de retorno dos policiais cedidos. O STF, porém, não recebeu até agora o ofício, o que manteve os delegados em atividade regular na Corte.

A justificativa oficial do governo é que a recomposição dos quadros da Polícia Federal seria necessária para reforçar o combate ao crime organizado. No Supremo, entretanto, a explicação foi recebida com desconfiança por integrantes que avaliam haver risco de impacto no andamento de investigações estratégicas.

Um integrante da Polícia Federal ouvido reservadamente ironizou a justificativa apresentada pelo governo: “Esse motivo do governo não é verdadeiro. É como jogar um copo d’água no Rio Tietê e dizer que isso vai melhorar a qualidade de água”.

Na última sexta-feira (3), durante café da manhã com jornalistas, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou que o Ministério da Justiça ainda avalia a situação dos delegados cedidos ao Supremo. “É uma avaliação que o ministério está fazendo ainda. Por enquanto não há essa definição, até porque há uma necessidade de fazer uma análise da posição estratégica”, declarou.

O gabinete de André Mendonça não se manifestou sobre o episódio.

Com informações do portal 247

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