Chegamos a um paradoxo perigoso: os partidos podem não estar tão distantes em seus projetos para o país, mas as pessoas se odeiam muito mais
Daniel A. de Azevedo — professor de geografia política do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB)
Há mais de uma década, pesquisadores se debruçam sobre um fenômeno que corrói as democracias por dentro: a polarização afetiva, distinta da polarização ideológica e da partidária. Enquanto o debate político tradicional foca nessas últimas, a afetiva se revela mais complexa. A gasolina para a invasão da Praça dos Três Poderes vem exatamente daí. O conceito é direto e brutal: o adversário político deixa de ser alguém com quem apenas se discorda para se tornar um inimigo existencial. Na polarização afetiva, o outro na sociedade é uma ameaça que não se tolera e com a qual não se quer conviver.
Curiosamente, quando o debate se restringe à polarização ideológica ou partidária, estudiosos apontam que o Brasil não é um país de extremistas. As pesquisas indicam que a esmagadora maioria da população foge das pontas do espectro político, gravitando em torno de posições moderadas. Contudo, a cinco meses das eleições, fica claro que a polarização afetiva não recuou; pelo contrário, alargou-se de forma muito mais veloz e pronunciada do que a ideológica. Chegamos, assim, a um paradoxo perigoso: os partidos podem não estar tão distantes em seus projetos para o país, mas as pessoas se odeiam muito mais.
A polarização afetiva é reforçada e reforça polarizações geográficas, nas quais perigosas fronteiras geográficas opõem áreas inteiras a partir de caricaturas. Cria-se um cenário irreal onde, de um lado, encontram-se eleitores rotulados como dependentes e desinformados e, de outro, como fascistas e reacionários. Nordeste versus Sul, urbano versus rural, metrópoles versus cidades pequenas. Diante desse quadro, a pergunta incontornável é: quem se beneficia desse fenômeno e quem sai perdendo?
Seguramente, quem lucra é uma elite política que utiliza a aversão ao outro como combustível eleitoral. Não conseguimos enxergar uma terceira via viável porque os conflitos são mobilizados em torno de duas visões de mundo inconciliáveis. Se são baseadas em fatos ou não, pouco importa para a eficácia do fenômeno. Ao manter o eleitorado em constante estado de alerta contra uma ameaça imaginária, esses líderes se blindam contra a cobrança por resultados práticos. A polarização afetiva funciona como uma cortina de fumaça: cega a população para governos que promovem farras eleitoreiras com os cofres públicos e anestesia o eleitor diante de candidatos envolvidos com pessoas investigadas por prejudicar milhões.
Assim, nessa polarização afetiva, a política é reduzida a um roteiro de cinema maniqueísta, com heróis e vilões predefinidos. Documentários, sejam eles alinhados à esquerda, como Democracia em vertigem, ou à direita, como Não vai ter golpe!, conversam com essa lógica do bem contra o mal. Um grupo não se sujeita a assistir ao filme “do outro”, mesmo que seja para criticar.
Nas últimas semanas, acompanhamos também as polêmicas sobre mais uma peça audiovisual, desta vez produzida para posicionar o ex-presidente Jair Bolsonaro como um herói mítico. Para além das evidências e dos questionamentos legítimos sobre seu financiamento, o que importa observar aqui é o seu papel na engrenagem: o filme é, ao mesmo tempo, um produto gerado pela polarização afetiva e uma máquina de gerar ainda mais polarização.
Quem mais perde, no entanto, somos todos nós, na figura da coesão nacional. Famílias deixaram de se sentar à mesma mesa aos domingos. Amizades são desfeitas por mensagens de WhatsApp; o ambiente de trabalho e as rodas de conversa tornaram-se campos minados, onde a desconfiança mútua paralisa qualquer capacidade de diálogo. A energia que deveria ser gasta debatendo o futuro do país é desperdiçada na tentativa de aniquilar simbolicamente o vizinho.
A torcida para este ano é que o resultado das urnas não sirva apenas para referendar quem odiamos menos, mas que freie a produção em massa de inimigos íntimos. O sintoma desse esgarçamento está diante dos nossos olhos: estamos às vésperas de uma Copa do Mundo que ostenta a menor mobilização nacional que tenho na memória. A camisa amarela virou farda de trincheira. Enquanto continuarmos encarando a política e o outro como um roteiro barato de heróis e bandidos, o Brasil seguirá perdendo para si mesmo, preso em um filme no qual não há finais felizes para ninguém.
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