O Banco de Brasília (BRB) deve precisar de mais aportes para suprir os prejuízos deixados com a crise gerada após as negociações com o Banco Master. Esta é a avaliação de especialistas ouvidos pelo Correio. Os economistas avaliam que a instituição precisará encontrar recursos, para além das soluções anunciadas e as previstas na Lei nº 7.845/2026.
“Os valores discutidos até agora parecem insuficientes perante o rombo estimado, por isso, será inevitável que o GDF ou o governo federal busquem recursos extraordinários para reenquadrar os índices de Basileia (é um indicador internacional que possui a finalidade de analisar a saúde financeira de uma instituição) e recuperar a credibilidade do banco perante o mercado”, ressaltou Renan Silva, professor de economia do Ibmec Brasília.
Ele avalia que a assembleia-geral extraordinária, marcada para 22 de abril, não ocorre em um bom momento do ponto de vista da transparência. “A ausência de um balanço auditado definitivo gera insegurança, mas penso que, diante da urgência de capital para evitar o colapso operacional, ela se torna um mal necessário para a sobrevivência da instituição”, destacou.
Ontem à noite, o BRB informou ao mercado que foi concluída a investigação independente sobre a operação “Compliance Zero”, conduzida pelos escritórios Machado Meyer Advogados, com apoio técnico da Kroll Associates Brasil Ltda. Segundo o banco, o relatório final foi encaminhado à Polícia Federal, que irá avaliar a existência de materialidade para eventual adoção de medidas. A instituição afirmou que o processo “reforça o compromisso com transparência, governança e prestação de informações ao mercado, ressalvados os limites legais de sigilo e proteção de dados sensíveis”.
O economista e professor da Universidade de Brasília (UnB) César Bergo defendeu que a solução passe por decisões estruturais e maior transparência. “Os aportes precisam ser feitos pelos sócios (principalmente o GDF), e isso deve ser decidido em assembleia. Também existe a possibilidade de aquisição por outra instituição, o que chamamos de federalização, ou a venda de ativos”, explicou. Mas essa possibilidade, inicialmente, foi descartada pelo Palácio do Planalto.
Bergo destacou que a assembleia é essencial para definir os próximos passos do banco. “A assembleia é o órgão deliberativo da sociedade e precisa decidir o destino da empresa, mas os acionistas não têm acesso a informações completas. O que há, nesse momento, são dados desencontrados e um aumento constante dos valores envolvidos. A demora em dar satisfação às autoridades, como o Banco Central, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários); e à sociedade faz com que todos fiquem no escuro”, frisou.
De acordo com o especialista, a crise do BRB ultrapassa os limites da instituição e provoca efeitos no sistema financeiro. “Afeta o sistema financeiro, no sentido em que um banco médio, de boa reputação, passou a adotar atitudes que contrariam a boa prática bancária, como falhas de governança corporativa, de compliance e de controles internos”, afirmou. Segundo ele, uma série de irregularidades vêm sendo reveladas ao longo do tempo. “Quando surgiu a informação de que o banco teria adquirido bilhões em títulos podres, isso já acendia um alerta importante sobre possíveis impactos no sistema”, acrescentou.
Bergo avaliou a atuação do Banco Central diante do caso. “O BC tem demorado em tomar uma atitude e sido permissivo com relação ao atraso na apresentação de balanços, o que não é positivo”, disse. Para ele, a demora contribui com a desconfiança do mercado. “Isso abre uma lacuna dentro do sistema financeiro e gera desconfiança, porque não se espera uma postura conivente da autoridade responsável pela regulação. Pode haver motivos técnicos, mas muitas informações ainda não foram esclarecidas”, afirmou.
Para César Bergo, o cenário é preocupante. “É o descumprimento de várias normas e leis, um desrespeito aos acionistas minoritários. A situação é grave, e está em risco a própria sobrevivência do banco”, alertou.
Convocação
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) aprovou, por unanimidade, na terça-feira (7/4), requerimentos de convocação do presidente do Banco de Brasília (BRB), Nelson de Souza; e do secretário de Economia, Valdivino de Oliveira. A convocação do secretário se estende, também, ao secretário-adjunto, Daniel Izaías. A data da presença das autoridades na comissão será divulgada posteriormente.
No último dia 17 de março, a comissão havia aprovado o convite a Nelson de Souza e Daniel Izaías, então secretário de Economia. A audiência estava marcada para ontem; no entanto, as autoridades informaram que não poderiam comparecer.
A atitude desagradou os parlamentares presentes na comissão, que aprovaram o requerimento de convocação por unanimidade. Estavam presentes três dos cinco distritais que fazem parte da CCJ: Thiago Manzoni (PL), Fábio Félix (Psol) e Chico Vigilante (PT). Os deputados Iolando (MDB) e Robério Negreiros (Podemos) não compareceram à sessão.
Repercussão
“Lamentavelmente, esse compromisso não foi honrado. A ausência dos convidados, principalmente diante da gravidade dos fatos, não é apenas um desrespeito a essa comissão. É sobretudo um desrespeito ao cidadão do Distrito Federal, que tem o direito de saber o que está acontecendo com o Banco de Brasília”, afirmou Thiago Manzoni.
Chico Vigilante lamentou a ausência das autoridades. “A pessoa que não cumpre a palavra não merece respeito. Nós tínhamos voto para aprovar a convocação anteriormente, mas, devido à disponibilidade dos próprios convidados, transformamos em convite e eles não apareceram”, disse. Fábio Félix criticou a postura do banco em relação aos pedidos de informação feitos pela Câmara Legislativa. “Essa Casa e diversos gabinetes têm feito requerimentos para acessar documentos, mas a resposta do BRB tem sido desrespeitosa. É sempre um ‘não’ taxativo, com base em argumentos de sigilo, dizendo que essas informações não podem ser prestadas a ninguém”, afirmou.
Ele lembrou que dados recentes divulgados pela imprensa indicavam a dimensão das operações. “Foi revelado que são mais de R$ 30 bilhões em transações com o Banco Master, algo que já havia sido mencionado pelo próprio presidente do BRB”, recordou.
Félix classificou a situação como grave e apontou falhas nos processos internos do banco. “Estamos falando de operações que concentraram cerca de 95% desse tipo de transação com o Banco Master, sem passar por compliance, sem análise técnica e, quando havia análise, ela era desconsiderada na tomada de decisão”, disse.
Ponderação
Ao Correio, o deputado Iolando (MDB) defendeu o presidente do BRB após o não-comparecimento à CCJ para esclarecimentos. “A decisão de convocar o presidente do BRB neste momento exige, a meu ver, uma análise mais cuidadosa sob a ótica do interesse público e da responsabilidade institucional da Comissão de Constituição e Justiça”.
O próprio banco, por meio de ofício, informou que está conduzindo auditorias, procedimentos que, por sua natureza, exigem confidencialidade, rigor técnico e cautela nas manifestações públicas”, ponderou o distrital. “Não se trata de uma recusa ao diálogo, mas de uma postura institucional prudente diante de um processo sensível”, completou.
Apesar de ser membro da CCJ, Iolando não compareceu à reunião de ontem na comissão. De acordo com a assessoria do deputado, no momento da votação da convocação, ele estava em uma reunião na Secretaria de Educação tratando de temas voltados à escola técnica de Brazlândia.
“O papel do parlamento não é apenas fiscalizar, mas também agir com responsabilidade para não interferir negativamente em processos estratégicos que envolvem estabilidade financeira, credibilidade institucional e segurança das informações. Uma convocação nesse contexto pode gerar exposição indevida, comprometer análises em andamento e até produzir ruídos no relacionamento com órgãos como o Banco Central e o Fundo Garantidor de Créditos”, afirmou Iolando ao Correio. “Não se trata de abdicar da função fiscalizatória do Legislativo, mas de exercê-la com inteligência, timing adequado e compromisso com o interesse maior da sociedade”, completou.
Justificativa
Nelson Antônio de Souza justificou o adiamento de sua participação na CCJ citando a necessidade de cautela diante de investigações em andamento dentro da instituição. Em ofício encaminhado ao presidente do colegiado, Thiago Manzoni, o dirigente afirmou que o banco passa por “relevantes trabalhos de auditoria interna e auditoria forense”, o que, segundo ele, recomenda evitar manifestações públicas neste momento.
Na carta, o presidente do BRB agradece o convite para participar da audiência pública e destaca a importância da transparência em processos dessa natureza. Mas ponderou que o estágio atual das apurações exige prudência institucional. “Neste momento, o Banco de Brasília conduz relevantes trabalhos de auditoria interna e auditoria forense, o que recomenda extrema cautela nas manifestações públicas e institucionais sobre o tema”, informou no documento.
O dirigente sinalizou que a ausência não significa recusa em prestar esclarecimentos ao Legislativo. De acordo com ele, a intenção é comparecer à comissão assim que os trabalhos forem concluídos. “Tão logo sejam finalizados, o BRB se colocará à disposição dessa comissão para contribuir com os esclarecimentos que se fizerem necessários”, escreveu.
Com informações do Correio Braziliense
Quer ficar por dentro do que acontece em Brasília, no Brasil e no mundo? Siga o perfil do TaguaCei no Instagram, no Facebook, no Youtube, no Twitter, e no Tik Tok.
Faça uma denúncia ou sugira uma reportagem sobre Ceilândia, Taguatinga, Sol Nascente/Pôr do Sol e região por meio dos nossos números de WhatsApp: (61) 9 9916-4008 / (61) 9 9825-6604.
-
Isenção do IR tem aprovação histórica na Câmara
Em votação unânime, deputados avalizam benefício para quem ganha até R$ 5 mil e taxa super-ricos. Texto segue agora para o Senado Depois de quase sete meses de tramitação, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil foi aprovada pelo plenário da Câmara, nesta quarta-feira à noite, por unanimidade: 493…
-
Motta aciona Itamaraty após Israel deter deputada em flotilha para Gaza
Luizianne Lins (PT-CE) estava com outros brasileiros em barco interceptado pela Marinha de Israel ao tentar levar ajuda humanitária para a Faixa de Gaza O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), declarou nesta quarta-feira (1º/10) que acionou o Ministério das Relações Exteriores assim que soube da detenção da deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) pela Marinha de…
-
Governo descarta novo Concurso Unificado em 2026a
Em entrevista ao programa Bom dia, Ministra, Esther Dweck afirmou que, para o próximo ano, está prevista a convocação de excedentes de outros concursos em andamento Às vésperas da realização das provas da segunda edição do Concurso Público Nacional Unificado (CPNU), no próximo domingo, a ministra da Gestão e Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck,…
-
Quem pode ser responsabilizado nos casos de intoxicação por metanol
Especialistas apontam que toda a cadeia de fornecimento de bebidas pode ser responsabilizada por intoxicações por metanol, com sanções cíveis e criminais que vão de indenizações a penas de prisão Casos de intoxicação por metanol após o consumo de bebidas alcoólicas no estado de São Paulo têm gerado preocupação em todo o país. A substância…
-
Policiais penais do DF são alvo de operação que apura fraude em concurso
Cinco pessoas foram presas na manhã desta quinta-feira (2/10) em operação da Polícia Civil do DF A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) deflagrou, na manhã desta quinta-feira (2/10), a terceira fase da operação Reação em Cadeia, que investiga fraudes no concurso da Polícia Penal do DF. A ofensiva foi conduzida pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco/Decor)…
-
Ex-governador Agnelo Queiroz lança pré-candidatura a deputado federal pelo DF; ‘nossa tarefa é retomar as políticas públicas e recuperar o Estado’
O ex-governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, anunciou oficialmente, neste sábado (7), sua pré-candidatura a deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT) no Distrito Federal. Agnelo, que além de governador já foi deputado federal e distrital, voltará a disputar uma eleição para, segundo ele, contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população do…
-
Brasil é o único país do Mercosul afetado por veto da UE à carne
Argentina, Paraguai e Uruguai seguem autorizados a exportar ao bloco europeu. Brasil tenta reverter decisão até setembro A decisão da União Europeia (UE) de retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar determinados produtos de origem animal ao bloco transformou o país no único integrante do Mercosul afetado pelas novas restrições sanitárias europeias. Enquanto o Brasil foi excluído…
-
PEC 6×1 tem semana decisiva no Senado com Alcolumbre sob pressão
Presidente do Senado reunirá líderes para discutir a tramitação; antes, disse que não acelerará a proposta e defendeu comissão especial O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), deve ceder à pressão e encaminhar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6×1 — seis dias de trabalho para um de descanso — diretamente para a…







